Flocos de neve precisam-se

“De todas as tentativas de desqualificação nenhuma manifesta melhor o medo da direita populista pela liberdade do que a expressão snowflake (floco de neve), que começou por ser utilizada por apoiantes de Trump, caracterizando supostamente uma geração vulnerável, incapaz da competição. Em subtexto essa ideia de que o floco de neve se derrete e é por isso fraco. É uma visão. Outras existem. Os flocos de neve são também elegantes e flutuantes, com uma gama ampla de variações e em condições estáveis até dançam. E não existe nada que chateie mais uma mente conservadora do que corpos em movimento, ondulantes, representando tanto a disciplina, como a oportunidade de a transcender, oferecendo-se a si próprio, e aos outros, alternativas. Em vez da incapacidade de lidar com a mudança, integrá-la, sem receio de questionar comportamentos, reavaliar a forma como nos contamos hoje a partir do passado ou interrogar o neoliberalismo decadente.”

Belo texto de Vítor Belanciano.

Apesar do dilúvio de publicações teóricas significativas e consagradas, de programas políticos ou de simples opiniões que pretendem hoje conhecer o caminho que leva à saída do beco a que nos conduziram os modelos – e sobretudo as práticas – económicas e financeiras seguidas há décadas, não há à vista um modelo económico alternativo consistente e abrangente que, até agora, tenha conseguido eficazmente configurar uma transformação sustentável do sistema – desde o Green New Deal ao Decrescimento, à Economia Pós-Crescimento, ou à Economia do Bem-Comum.

A impedi-lo, a pressão férrea e translúcida do poder do capital – a quem os estados brindaram uma desregulação quase ilimitada – que nos domestica e devasta o planeta. E também a tacanhez, a gritaria, o agarramento a esquemas quadrados (esquerdo/direito encolhe a barriga e estica o peito), o generalizado egoísmo neoliberal.

Enquanto andamos a ver no que isto vai dar, quanto mais flocos de neve, quanto mais nichos de alternativas, quantas mais escolhas responsáveis e solidárias no dia a dia, quanto mais recusa de consumismo, quantos mais protestos na rua em prol do clima, melhor. Não resolvem, mas acabam por ajudar.

Comments

  1. JgMenos says:

    «A impedi-lo, a pressão férrea e translúcida do poder do capital»
    O translúcido vai à conta da poesia que tem nada a ver com capital e muito a ver com política aos flocos, ou aos molhos.

    45 anos depois temos a esquerda como no tempo da outra senhora: tiradas poéticas, promessas de futuros velados, a prestigiante mística do iluminati desobrigado de agir.
    .

    • Pimba! says:

      Fala-se em floquinhos de neve e o FloquinhoMenos aparece logo!

    • Ana Moreno says:

      Oh JgMenos, desilude-me! Então não chega mesmo a uma interpretação mais perspicaz do uso desse adjectivo no contexto em questão??? Olhe que de poesia não tem nadinha.

    • Paulo Marques says:

      Tendo em conta os 45 anos de “sucesso” neoliberal…

  2. Paulo Marques says:

    Insurgir contra o neoliberalismo nesta altura é como insurgir-se contra Sócrates em 2011 – um bocadinho tarde e perto do funeral político.
    Ele são os bancos centrais a dizer que a política monetária não serve para muito, os investidores a dizerem que não têm em que investir se o estado não intervir, são as grandes economias com medidas de protecção económica, é a inflação que não existe e por aí adiante. Só falta o enterro, mas vai dar um jeitaço ter idiotas úteis como o Costa a continuar a pagar os desmandos do DB para a Alemanha sair da crise.

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