Novidades no Diário da República

Some of the others seemed altogether slipping their hold upon speech, though they still understood what I said to them at that time. (Can you imagine language, once clear-cut and exact, softening and guttering, losing shape and import, becoming mere limps of sound again?)

— H.G. Wells, “The Island of Dr Moreau

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Novidades? Além do aspecto, nenhumas. Aliás, já tínhamos reparado nessas mudanças cosméticas e o próprio Governo fez publicidade ao “novo grafismo“. Efectivamente, o grafismo do Diário da República é novo, mas a grafia caótica mantém-se e já tem sete longos anos. Em vez de combater as *seções, os *fatos e os *contatos e acabar com o instrumento que deu à luz este caos (para quem não souber, trata-se do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990), o Governo prefere mudar de penteado e arranjar as unhas.

Depois do *contato e dos *contatados de ontem, o *contato de hoje:

Não há novidades. Tudo tranquilo.

Como diria o Patrick Bateman, “Listen, John, I’ve got to go. T. Boone Pickens just walked in…”.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

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O que é esmagado, que se levante!

[Santana Castilho*]

O ano lectivo inicia-se com um sinal distintivo: o Ministério da Educação aprovou cerca de 50 projectos de inovação apresentados por agrupamentos de escolas ao abrigo da Portaria 181/2019, que lhes confere a possibilidade de ampliarem a celebrada flexibilidade curricular para além dos 25% já previstos para todas as escolas. Segundo o jornal I, em Santo Tirso os alunos vão escolher as matérias e quando querem ser avaliados, em Cascais adoptaram a “Pedagogia do Amor”, algures em Braga vão desenvolver as “oito inteligências da criança” e em Torres Vedras andar de bicicleta passou a integrar o currículo. Digam-me se não é motivo para vermos António Costa aos saltinhos, num qualquer palco de comício eleitoral próximo!

Aquando da publicação da portaria supra referida, mobilizaram-se escolas, directores e professores para a cruzada da elaboração de Projetos-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), que promovessem a reorganização curricular e redefinissem o calendário lectivo e os momentos de avaliação. Apesar disso, temos apenas 50 (6%) de um total de 813 agrupamentos, com iniciativas aprovadas, o que torna legítimo admitir a existência de um fosso entre o que entendem as escolas e o que queria o ministério. Com efeito, João Costa teve desde sempre um problema existencial de conflito ente a ideologia impositiva que o norteia e as recomendações do marketing político que o assessora. Ou seja, pôr as escolas e os seus directores a fazerem o que ele quer, mantendo nas homilias públicas a abertura caridosa e conciliar do prior do “eduquês” novo. A quadratura deste círculo terá sido conseguida pelo destino dado aos projectos que lhe chegaram: aprovados os que lhe adivinharam os desejos, recusados todos os outros; recompensados os prosélitos, penalizados os que se protegeram da babilónia do esvaziamento curricular. Viva a autonomia domesticadora de quem recita o credo! [Read more…]