As más pessoas e as boas obras

Um velho amigo aparentemente desaparecido, porque a morte é uma aparência desmentida pela memória, contou-me que, estando em Paris, nos anos 60, teve oportunidade de conhecer um escritor que idolatrava, tendo pedido a um amigo comum que lho apresentasse. Esse amigo não o fez, alegando que o escritor era uma pessoa extremamente desagradável, o que iria fazer com que o meu amigo, por causa da pessoa, passasse detestar o escritor.

Não há cirurgia que seccione as facetas das pessoas de modo a conseguirmos esquecer aquilo que é censurável ou condenável.

Hoje, Maradona faz 60 anos. Confesso que sempre o detestei, também por jogar pela Argentina, a selecção que derrotou a minha Holanda de 1978 e deu glória a um ditador execrável. Depois, o próprio carácter de Maradona fez o suficiente para que o detestasse, levando-me a ser adepto de qualquer clube ou selecção que fosse seu adversário. Penso, aliás, que não gostaria de ir beber um copo com Diego.

A verdade, no entanto, é que Maradona é o melhor jogador que vi nos quarenta anos que levo de espectador e apaixonado do futebol. É igualmente verdade que, desejando sempre que perdesse, fiquei muitas vezes maravilhado com as obras de arte que eram os passes, as fintas, os golos, o mero gesto de parar a bola.

Esta semana, Vítor Manuel Aguiar e Silva recebeu o Prémio Camões. No meu último ano de licenciatura, fui seu aluno, na cadeira de Teoria da Literatura. Todas as aulas a que assisti eram períodos de deslumbramento, apesar de um professor sem ponta de bonomia, uma das minhas características preferidas nas pessoas de quem gosto. Cada aula de Aguiar e Silva era um espectáculo de retórica e de sapiência, pontuadas por um fio condutor que, apesar das ocasionais digressões, nunca estava em risco, com regressos garantidos ao ponto em que tinha ficado.

Na mesma semana em que recebeu o prémio, não faltou quem lembrasse as suas ligações ao antigo regime. Já na altura, sabia disso. Conhecidos meus que passaram pela Coimbra dos anos 60, com realce para 1969, afiançam que Aguiar e Silva cometeu actos condenáveis. Nada disso, no entanto, retira o mérito ao académico, nas várias vertentes que passam pelos estudos literários, pela iluminação de Camões (com críticas fortíssimas a José Hermano Saraiva, por exemplo), pela didáctica da literatura e pela crítica ao acordo ortográfico.

Ainda hoje, revejo vídeos de um e (re)leio livros do outro. Depois, se for preciso, detestá-los-ei.

 

 

Comments

  1. Rui Naldinho says:

    Há um Rentes de Carvalho da mesma estirpe!


  2. Permite-me um reparo, porque “El Pibe” era o meu ídolo da adolescência, contra a vontade dos argentinos, César Luis Menotti não levou D. Maradona ao mundial 78, deixando-o jogar o mundial de juniores, que ganhariam (4-0 na final à URSS). O jogador nunca perdoou ao seleccionador argentino, a coisa correu-lhes bem.
    Há um filme do genial realizador Emir Kusturica, sobre Deus (aos que dizem que Deus não existe, costumo responder que o vi jogar no México o mundial 86), que recomendo:

    https://www.google.com/search?q=Maradona%20by%20Kusturica

    • António Fernando Nabais says:

      Sim, eu sei que o Maradona não jogou em 1978, mas esse foi o ano em que comecei a antipatizar com a selecção argentina, não só por razões políticas (é um disparate, evidentemente, porque os jogadores não têm culpa de serem instrumentalizados – o Kempes, por exemplo, era um jogador maravilhoso). O golo em que o Maradona passa por meia equipa de Inglaterra, em 1986, é suficiente para que seja Deus; o outro, com a mão de Deus, é diabólico. Seja como for, Maradona mereceu ser campeão do Mundo e nunca vi um pé como aquele pé esquerdo, nem mesmo o do Messi, que é maravilhoso.

  3. Albino Manuel says:

    Nunca ouvi falar nesse tal Aguiar. Lá pela lusa Atenas até pode ser um figurão. Passado ou não chegado ao Mondego é só uma daquelas velharias que a necrópole venera e de que o paìs nunca ouviu falar. Era salazarista? Ui! por lá é o que não falta. Por alguna razão Coimbra e Salamanca estão entre as 500 melhores universidades do mundo, quer dizer, sem prestígio algum.

    • António Fernando Nabais says:

      Em também nunca ouvi falar de muita gente que deve ser importantíssima em áreas que não domino ou não conheço. Fui aluno dele e sou (e serei) leitor. Nas suas áreas de docência e de investigação, é uma referência (não ter ouvido falar dele não é condenável, mas não chega a ser uma virtude – é só uma insuficiência, como muitas outras). Não faltam salazaristas em Coimbra? Não tenho estatísticas, mas o Albino deve ter e até vai publicá-las no próximo comentário.

  4. Albino manuel says:

    Estatísticas de cemitério é coisa difícil. Talvez com uma mesa de pé de galo. Esse ainda não está lá mas anda perto.

    Também nunca ouviu falar noutras áreas? nem eu. Só que o tal prémio Camões parece coisa de Nobel a modos de chanfana. Que tal o prémio Bocage? se calhar até há.

    • António Fernando Nabais says:

      É assim mesmo, Albino: vanglorie-se do que não sabe ou do que não consegue provar. Os salazaristas não morreram todos e alguns nasceram depois do 25 de Abril: não duvido de que Aguiar e Silva seja um deles. Prefiro chanfana ao Prémio Nobel, mas, por acaso, conheço bem a obra de Aguiar e Silva e foi por isso que me atrevi a escrever sobre ele. Note que não estou isento do pecado de falar daquilo que desconheço, até porque não gostaria que o Albino se sentisse sozinho.

  5. Filipe Bastos says:

    O Mundial de 86 foi o primeiro que vi; fiquei também fascinado por Maradona. Nos jogos de computador, os Fifas e Football Managers, os jogadores são pontuados pela técnica, força, velocidade, etc. Se o máximo for 20, Maradona era um 21.

    Tudo evolui, e talvez Messi tenha sido ainda melhor, no sentido de mais eficaz. Mas Messi, tal como Ronaldo, é um frango de aviário: criado e injectado desde a infância para render. Maradona era um talento mais puro, um fora de série. Nunca houve igual.

    Deixei entretanto de ligar à bola, esse circo corrupto e mamão. Mas entendo o que o Nabais quer dizer: Maradona era e é um tipo sem qualidades extra-futebol; um matarruano. Deve isso afectar-nos?

    Acho que não. O artista e a sua obra são coisas diferentes. O tal Aguiar e Silva, que desconheço, deve ter qualidades e defeitos como toda a gente. Não se pode medi-lo só pelos defeitos.

    Se bem que o Prémio Camões não é bom sinal: tachos e penachos costumam ser dados a compinchas do regime. Desconfie sempre de quem recebe prémios, nomeações ou condecorações, Nabais.

    • António Fernando Nabais says:

      Os prémios literários ou de carreira ou outros não são garantia de coisa nenhuma, é verdade. Por acaso e privilégio, fui aluno de Aguiar e Silva, assisti a várias conferências suas desde então e sou leitor de muito do que escreveu – falo/escrevo, portanto, com conhecimento de causa, apesar de ser um de muitos elos numa corrente de elogios ao professor e ao académico. Considero-me, então, um homem de sorte por ter visto jogar Maradona e por ter ouvido e lido Aguiar e Silva. O resto é humanidade, ou seja, falha, com mais ou menos gravidade.

    • Paulo Marques says:

      ” Nos jogos de computador, os Fifas e Football Managers, os jogadores são pontuados pela técnica, força, velocidade, etc. Se o máximo for 20, Maradona era um 21.”

      Só depois de adquirir o booster cocaína vendido separadamente.


  6. Os génios são assim, multifacetados, isso faz deles ainda mais interessantes, e isso é bom. E homens perfeitos, como já lei em qualquer lado, apenas existem nos cemitérios, nunca mudam e têm somente uma dimensão, embora olhando para o Aníbal fique com dúvidas…

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