PSD descobre o parlamentarismo nos Açores

Em Novembro de 2015, o segundo governo liderado por Passos Coelho caía. PS, PCP e BE resolveram aliar-se e formar uma maioria na Assembleia da República, o que fez com que António Costa pudesse ser primeiro-ministro.

Foi um escândalo à direita, de Belém (ah, o Cavaco!) a São Bento: que isto era uma vergonha, que devia governar o partido/coligação que teve mais votos, que o Costa, o Jerónimo e a Catarina estavam a desrespeitar a democracia, que era um roubo, muito disto e mais daquilo! Talvez por distracção, pêéssedês e cêdêésses esqueciam-se de que um governo só pode funcionar se for sustentado por uma maioria parlamentar.

Durante estes cinco anos, pêéssedês e cêdêésses continuam, de vez em quando, a lembrar esse acontecimento, enlutados, enegrecidos, revoltados, cheios de uma estudada vergonha alheia, ainda e sempre esquecidos do insignificante pormenor de que, em Portugal, os governos obedecem ao parlamento (sabemos que há perversões instituídas, sim, mas uma maioria parlamentar é uma maioria parlamentar é uma maioria parlamentar).

Esta semana, o PS teve o maior número de votos nas eleições regionais dos Açores, perdendo, apesar disso, a maioria absoluta. Para governar, teria de fazer alianças, mas está uma Carochinha sem João Ratão. O PSD, entretanto, está em negociações e parece que conseguirá fazer uma aliança que o pode levar ao governo.

Prevejo, da parte dos pêéssedês e cêdêésses, uma das seguintes declarações:

1 – Vamos ser coerentes com as críticas que fizemos há cinco anos e nunca iremos formar uma maioria contra o partido mais votado, porque isso seria vergonhoso!

2 – Não fomos nós os primeiros a cometer este atropelo e, portanto, também temos direito a ser como os escroques da esquerda.

3 – Temos de perceber as especificidades desta eleição – isto passa-se numa região autónoma e, portanto, não há comparação.

4 – Agora, percebemos que estávamos enganados – o que legitima um governo é a maioria parlamentar.

5 – O que legitima um governo é a maioria parlamentar, como é evidente (sem a parte do “Agora, percebemos que estávamos enganados”)

Já estou sentado em frente à televisão e, à minha frente, acumulei uma série de vitualhas, porque esperar abre-me muito o apetite. A única coisa que me poderá perturbar a ingestão de petiscos está na possibilidade de o PSD se aliar ao Chega. Por outro lado, talvez não fique surpreendido, porque todos sabemos em que partido estavam André Ventura e tantos outros amigos.

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Condordo que a situação é irónica, mas a verdade é que (felizmente) o nosso regime é parlamentar.

    Todos concordamos que o goverbo PS tinha formado em 2015 tinha legitimidade formal, tal como terá legitimidade formal um eventual governo formado agora nos Açores pelo PSD.

    Quanto ao fantasma do Chega, um partido que se aliou ao PCP e, SOBRETUDO, ao BE, não tem qualquer legitimidade para reclamar seje de quem for.

    • antero seguro says:

      Caro Senhor Rodrigues, impõe-se um pingo de honestidade intelectual, acha então que houve uma aliança entre o o BE e o CHEGA ou entre o CHEGA e o BE com o PCP pelo meio?

    • Rui Naldinho says:

      “Todos concordamos que o goverbo PS tinha formado em 2015 tinha legitimidade formal, tal como terá legitimidade formal um eventual governo formado agora nos Açores pelo PSD”

      Todos concordamos?
      Só pode estar a brincar, de certeza.
      A direita andou um ano de 2016 a reclamar a “usurpação” do Poder, por parte da Geringonça. Li e ouvi cobras e lagartos sobre esta opção de Governo, a começar por Cavaco Silva. Não faltaram escribas avençados a defender a inviabilização do governo PS, por parte do PR. Com excepção de Paulo Portas, que na senda de Durão Barroso, logo descobriu na Mota Engil uma janela de oportunidade, a direita amuou e clamou pela vinda do Diabo.
      Quanto à legitimidade do PSD nos Açores, estou completamente de acordo consigo. Goste-se ou não do Chega, as maiorias formam-se dentro do parlamento.
      O autor deste texto tem toda a razão em relembrar mais uma vez, a falsa moral e a hipocrisia dos políticos, apanhados com frequência a contradizerem-se.

    • Paulo Marques says:

      E o BE ameaça o regime em quê?

      • Rui Naldinho says:

        BE não ameaça o regime, nem nunca ameaçou. Mas não deixa ainda assim de ser um partido com laivos de populismo. Já o PCP continua a ter um discurso dúbio em relação à Coreia do Norte, por exemplo, ou a Cuba. Enquanto o PCP não perceber que os limites à liberdade de expressão não podem têm parâmetros ideológicos, mas sim éticos e civilizacionais, perderá cada vez mais crentes no seu discurso.

  2. Filipe Bastos says:

    Legitimidade? Mais de metade dos eleitores nem votaram. O partido vencedor teve 18% dos votos. A coligação vencedora, a acontecer o PSD + CDS + Chega, teve 20% dos votos. Ou seja, 80% não votou em qualquer destes governos, seja PS ou PSD.

    Que legitimidade? Está tudo doido?

    Deve estar: o fantoche presidencial até elogiou a “atitude cívica” dos eleitores, porque… nas últimas eleições votaram ainda menos!

    Nem sequer consegui descobrir o nº votos brancos e nulos – os únicos votos úteis nesta palhaçada podre – em lado nenhum. Na Wiki são apenas identificados “votos inválidos”, o que diz tudo sobre a mentalidade desta ‘democracia’: se não é na podridão, não vale.

    • POIS! says:

      Pois claro!

      A Wiki é realmento o espelho desta nossa chuleca democracia. Ao que parece os votos brancos foram misturados com os tintos e a Wiki ficou vesga. Para ela passou a ser tudo chulo. Perdão, nulo.

      Entretanto, na darknet, descobri este link

      http://www.resultadoseleitorais.azores.gov.pt/Resultados.aspx

      Use, mas não diga a ninguém. É secreto!

      • Filipe Bastos says:

        Obrigado pelo link, POIS. Houve então 2618 brancos e 1251 nulos. São poucos, muita carneirada não aprende, mas pelo menos a maioria já não vota.

        Percebo o seu desdém, pois prefere acreditar no sistema a aceitar críticos como eu. O Trafulha 44 chamava-nos ‘botabaixistas’, lembra-se? Bons tempos.

        Mas isso não muda a realidade: o sistema é mesmo podre; os chulecos são mesmo chulecos. E nesta partidocracia só carneiros ainda votam. Uma minoria, como vê.

        • POIS! says:

          Pois foi!

          Foi um verdadeiro referendo ao regime. E a maioria, pelos vistos, foi pela reposição da Constituição de 1933. Pelo menos a avaliar pela votação, já que as abstenções, como se sabe, contam como sim.

          Já foi há muito tempo? Ora essa! A memória salazaresca perdura por gerações e gerações.É uma coisa parva.

          Mas as decisões não se ficaram por aí: os açorianos votaram ainda pela reposição da caça ao cachalote e pela construção de uma ponte entre Pont Delgada e Lisboa ou, ao menos, a delimitação de um corredor para se poder ir a nado sem problemas de ser atropelado por um navio de cruzeiros.

          Por sua vez o Corvo declarou a independência e restaurou a monarquia. Vão até abrir um concurso público para escolher o rei. É uma boa oportunidade para fazer carreira. Eu, se fosse a si, pensava nisso. Se derem direito de voto às vacas já haverá uma razoável mass crítica para impor a democracia semi-direta.

          • Filipe Bastos says:

            Referendo não foi, porque o regime não pode ser referendado. A Constituição também não.

            A referência salazaresca é bizarra, pois o que advogo é mais democracia. V. é que quer menos.

            Democracia semidirecta não implica votos disparatados: há regras e limites. Também ninguém diz que é perfeita; é apenas um passo, uma evolução. O que hoje temos é uma mera monarquia 2.0. Não é democracia.

            Entre as vacas votarem e os carneiros que agora votam, não sei que será pior. As vacas seriam pelo menos uma novidade; dos carneiros já levamos 40 anos.

          • POIS! says:

            Pois tou a ver!

            A democracia semidireta funciona, mas com um Bastos junto a cada português para lhe refrear os instintos e impedir diaparates.

            Já agora, presumo que para também fazer as perguntas, não vá o caldo entornar. Aquele incidente do Barrabás, por exemplo, nunca teria acontecido se estivesse um Bastos ao pé do Pilatos.Foi chato. O Pilas até teve de dar cabo de uma garrafa de Água das Pedras (que, na época era caríssima!) para se demarcar da bronca.


  3. O PS deverá ser convidado a formar governo com uma solução majoritária e, não o conseguindo, deverá ser feito o mesmo convite ao PSD.

    • Pedro Luiz de Castro says:

      Isso mesmo….
      1. O partido mais votado é convidado a formar governo (ou seja, a tentar arranjar uma maioria parlamentar que o suporte)
      2. Não o conseguindo, igual convite deve ser formulado ao segundo partido mais votado.

  4. JgMenos says:

    A legitimidade não é só a força dos votos; a coerência das ideias conta como legitimidade porque espelha as expectativas dos votantes.

    A golpada de 2015 só o é por ter sido ocultada e juntar quem se dizia não diferente mas oposto em áreas cruciais.

    Para a pastelada esquerdalha nada disso conta…desde que se digam defensores dos tadinhos, já está bom!

    • POIS! says:

      Pois não posso crer!

      V. Exa. tão defendido que é pela pastelada esquerdalha e nem um “bem haja”! Tadinho e mal agradecido, é o que é!

      Mas estou de acordo em relação à coerência de ideias, que é apanágio da direitrolhada patriotica.

      Geringonça? Nada disso! Os Açores vão ser governados por um regime carinhosamente já chamado de “Molhada”!

      Trata-se de uma Social-democracia-cristã-liberal-monárquico-republicana-populista-moderado-extremista-autonomico-soberanista.


  5. As convicções são fortes… apenas na medida em que podem resultar em tachos e negociatas.


  6. Como cidadão achei esse “passar a perna” feita pela geringonça uma vergonha. Espero, ser vivo para ver acontecer nas legislativas o mesmo em sentido contrario. O PS ganhar, mas o PSD arranjar uns colegas e juntos surripiarem o tacho ao PS. Entrentanto, e ate ao fim da vida, não voltarei a votar porque sempre aprendi que é eleito ( para a presidencia do clube, para a presidencia dos bombeiros para a direcçáo da associação de estudante, etc etc ) aquele que mais votos tiver. Assim sendo, para colaborar nestes truques…………….estou fora.

    • Paulo Marques says:

      Eleitos são os deputados, fique-se pela bisca se as regras são muito complexas para si.

      • POIS! says:

        Pois talvez não.

        A bisca é um jogo muito complexo. Eu aconselharia o “burro em pé”. Parece-me adequado ao discurso.

  7. LUIS COELHO says:

    Só não sabe quem não quer que a generalidade dos politicos dizem agora uma coisa e amanhã o seu contrário, porque dignidade e hombridade é coisa rara nessa gente!

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