As más pessoas e as boas obras

Um velho amigo aparentemente desaparecido, porque a morte é uma aparência desmentida pela memória, contou-me que, estando em Paris, nos anos 60, teve oportunidade de conhecer um escritor que idolatrava, tendo pedido a um amigo comum que lho apresentasse. Esse amigo não o fez, alegando que o escritor era uma pessoa extremamente desagradável, o que iria fazer com que o meu amigo, por causa da pessoa, passasse detestar o escritor.

Não há cirurgia que seccione as facetas das pessoas de modo a conseguirmos esquecer aquilo que é censurável ou condenável.

Hoje, Maradona faz 60 anos. Confesso que sempre o detestei, também por jogar pela Argentina, a selecção que derrotou a minha Holanda de 1978 e deu glória a um ditador execrável. Depois, o próprio carácter de Maradona fez o suficiente para que o detestasse, levando-me a ser adepto de qualquer clube ou selecção que fosse seu adversário. Penso, aliás, que não gostaria de ir beber um copo com Diego.

A verdade, no entanto, é que Maradona é o melhor jogador que vi nos quarenta anos que levo de espectador e apaixonado do futebol. É igualmente verdade que, desejando sempre que perdesse, fiquei muitas vezes maravilhado com as obras de arte que eram os passes, as fintas, os golos, o mero gesto de parar a bola. [Read more…]

Prémio Camões para Mia Couto

FLIP 2007

Pela segunda vez o júri acertou; Mia Couto, tal como Luandino Vieira, além da escrita recomeçaram a língua de outro continente para fora. Valem muito mais que papel pintado com tinta.

Falta o Mário de Carvalho, e os três escritores vivos que leio estariam premiados.  Pela rotatividade continental, espero que seja para o ano.

Adenda: sim, é o meu gosto pessoal, sem desprimor para com outros. A literatura gosta-se, come-se, mastiga-se, devora-se. Quem tem outro palato, problema seu.

Alguns contos de Dalton Trevisan, Prémio Camões 2012

Dalton Trevisan, escritor brasileiro nascido em 1925, em Curitiba, sucede a Manuel António Pina como vencedor do Prémio Camões.

Considerado o maior contista vivo do Brasil, conhecido como “O Vampiro de Curitiba” – título de um livro seu, mas que se tornou sua alcunha – Dalton Trevisan é avesso à exposição mediática e aos corredores da mundanidade.

Eis como o descreve Duílio Gomes:

“Seu nome: Dalton Trevisan. Seu instrumento de trabalho: o conto. Sua vítima: o leitor incauto. Sua meta: amedrontar, deliciando. Sua cara: pouco veiculada. Seu endereço: desconhecido. Seu diálogo com o público: um monólogo interior. Sua foto mais conhecida: a tirada por um repórter com teleobjetiva atrás de uma árvore emuma tarde de outono. Seu número de telefone: nem mesmo sua família sabe.” [Read more…]

Manuel António Pina é Prémio Camões

O poeta, ficcionista, dramaturgo, cronista e jornalista Manuel António Pina irá receber o 23º Prémio Camões. Apesar de ser autor de uma obra poética assinalável em quantidade e qualidade,  tornou-se mais conhecido, recentemente, na qualidade de cronista, graças à lucidez com que tem zurzido os portuguesinhos que poluem Portugal, sem nunca prescindir do rigor formal que só num cultor irrepreensível da língua se pode aliar a um sarcasmo certeiro e descontraído.

Muito provavelmente, Marinho e Pinto, o tonitruante Bastonário da Ordem dos Advogados, não dará os parabéns ao premiado, também ele um licenciado em Direito. Entretanto, a cultura portuguesa poderá continuar a usufruir do privilégio de ler uma voz que a engrandece. Em casa do autor, os gatos continuarão embalados pelo ciciar beirão que os trinta anos de Porto não apagaram.