Ana Gomes: nem carne, nem peixe

A transição de um certo eleitorado bloquista disposto a votar em Ana Gomes é real e preocupa-me.
A minha análise pessoal é a de que as pessoas, dispostas a votar em Ana Gomes, não estão a ver todo o panorama eleitoral e as consequências políticas que daí podem resultar. Marisa Matias vai a jogo com o apoio do Bloco de Esquerda, ao contrário de Ana Gomes, que sendo do Partido Socialista, não conta com o apoio do partido. As consequências políticas de um futuro resultado de Ana Gomes e de Marisa Matias são diferentes; porque Ana Gomes e Marisa Matias, mesmo estando as duas à esquerda, são diferentes e candidatam-se com programas e propósitos diferentes.
Quando a eleição acabar, Ana Gomes continuará onde está. E Marisa Matias também. Ana Gomes como comentadora num qualquer canal generalista, a levantar muito a voz e a dar uma sua opinião sobre um qualquer tema. Marisa Matias como deputada no Parlamento Europeu, eleita pelo Bloco de Esquerda, em representação da esquerda europeia e de todos e todas nós, portugueses e portuguesas que, à esquerda, querem uma Europa mais livre, mais justa e mais igualitária.
A transição de eleitorado que, em legislativas, vota Bloco de Esquerda e que, dia 24 de Janeiro, pretende votar em Ana Gomes, esquece-se que votar na Independente é enfraquecer a esquerda (que segundo as sondagens não perfaz, junta, a votação de Ana Gomes – e falo de Marisa Matias e João Ferreira) e fortalecer a extrema-direita de André Ventura, ficando este à frente dos candidatos da esquerda e apenas atrás de uma Independente sem apoio partidário e de Marcelo Rebelo de Sousa, que segue para uma re-eleição tranquila, com o apoio da direita mainstream (PSD e CDS), e que, mais à frente, essa ultrapassagem (pela direita) poderá ter repercussões em futuras Legislativas. Muito menos aceito que certas pessoas votem em Ana Gomes levados pela “promessa” de André Ventura, de que, ficando atrás desta, se demitiria do Chega: 1- é óbvio que não se demitirá; 2- mesmo que o fizesse, isso tiraria o Chega do Parlamento e da vida política? A resposta é não.
Há duas coisas mais ou menos certas: Marcelo Rebelo de Sousa será re-eleito e Ana Gomes ficará em 2º lugar, seja com 16% ou 13%. Agora é convosco decidir quem fica em 3º, se o candidato da extrema-direita ou algum dos candidatos da esquerda. Menos dois ou três pontos percentuais em Ana Gomes continuarão a mantê-la em 2º, mas mais 2 ou 3 pontos percentuais em Marisa Matias ou João Ferreira podem ser a diferença entre fortalecer a extrema-direita ou colocá-la atrás da esquerda.
Falo, especialmente, para os jovens. Pensem à frente: uma eleição não é apenas uma eleição. Muito menos esta. Quem se diz de esquerda aproveitará este clima de facções e polarização política para reforçar, com o seu voto, a esquerda. Signifique isto votar em Marisa Matias ou em João Ferreira, não em Ana Gomes que vai em representação dela própria, votando em consonância com o presente mas, acima de tudo, com aquilo que se perspectiva no futuro. E esse futuro, estou certo, não terá Ana Gomes como cabeça de cartaz. Mas poderá ter Marisa Matias e/ou João Ferreira.

Comments

  1. Paulo Marques says:

    Acima dos eleitores, esse jogo político, que vale o que vale, compete jogar primeiro a quem se candidata para perder. E não é pela primeira vez.
    Nem tão pouco o peso político do troca-tintas lhes pode ser atribuído, é um papão inelegível que interessa vender para garantir que nada muda e quem paga o custo de mais um milagre europeu são os intocáveis e os remediados do costume.
    E os jovens têm mais que fazer do que ir votar, há é que preparar a carreira para mais um êxodo onde sejam pagos e respeitados. Maria e Ferreira, à espera de amanhãs que cantam nos tratados, não fazem parte do seu futuro. Nem do deles, nem de ninguém enquanto aceitarem o estatuto de auto-colonizados.
    Dito isto, não nego a minha obrigação de votar numa pessoa decente com provas dadas, por muito que não sirva para nada. A menos que seja o caos para chegar às mesas de voto, temos pena, mas o voto não vale a praga.


  2. O João, no seu texto elaborado, esqueceu um detalhe decisivo. Nestas eleições como nas outras, quem ganha sempre é o partido da abstenção, de longe o maior do rectângulo, e por larga margem. Creio até que desta vez, a margem será ainda maior que o habitual. Os outros andam apenas a apanhar bonés….

  3. Filipe Bastos says:

    Santo deus, João Maio, que pachorra para tanto faz-de-conta pulhítico. E que falarmos claro?

    O Marcelo nem morto largava o tacho e o galarim. Muita gente já o deita pelos olhos, mas muitos ainda não: labregos, otários, donas de casa, carneiros pífios do centrão, etc.

    A Ana Gomes, intrépida euromamadora que não poupa ninguém, sobretudo o contribuinte, está a tratar do seu poleiro e tacho pós-euroteta. Diz umas leves verdades, mas só xuxas votam nela.

    A Marisa e o Ferreira são os habituais fantoches comunas para aparecer na TV e mamar uma subvenção. São como os clubes das distritais que vão à Taça levar umas cabazadas.

    O Ventura está entre a Gomes e os comunas: a fazer pela vidinha, também lhe dá jeito a campanha, e espera mamar subvenção.

    Os demais são meros figurantes ou figurinhas.

    Nestes 20 ou 30 anos só me lembro de dois candidatos aceitáveis: o Henrique Neto e o Paulo Morais. O 1º parecia +- decente, o 2º era único – além do Arnaldo – a denunciar este putedo.

    • POIS! says:

      Pois pois!

      Brilhante conversa de tasca à hora do fecho (o último parágrafo, então, é de um brilho inexcedente!). Ainda mais brilhante porque as tascas estão a fechar mais cedo. Bendita pandemia que tanto contribuis para estes tão bastos avanços das ciências políticas!

      • POIS! says:

        Na terceira linha é, obviamente, “de um brilho inexcedível”

      • Filipe Bastos says:

        Pois eu preferia inexcedente, soava bem.

        Continua a fazer de conta que esta pulhitiquice é coisa séria, né? Não está sozinho, basta ver os outros comentários.

        Todos fingem que é para levar a sério. Ninguém quer admitir que anda tudo ao mesmo: mama, poleiro e tacho. Admiti-lo seria diminuir o comentador; seria reconhecer a futilidade do ‘comentário político’, da pulhítica em si, desta trampa toda.

        Claro que não pode ser. Tem de ser conversa de tasca, conversa de taxista. Quem diz que o rei vai nu é que está mal.

        • João L. Maio says:

          Olhe o coração, Filipe.

        • Paulo Marques says:

          E, no entanto, comenta, com o mesmo vazio que o Paulo Morais.

        • POIS! says:

          Pois é!

          E pior, pior, é se a conversa de taxista decorrer na tasca. O melhor é tentar a Uber ou assim. É mais seguro.

          Quanto ao resto, estou-me a borrifar para o estilo estilístico das vestes da realeza. E também não frequento pornografia regal. Sou republicano.

    • abaixoapadralhada says:

      Bastos

      “Nestes 20 ou 30 anos só me lembro de dois candidatos aceitáveis: o Henrique Neto e o Paulo Morais”

      Nunca me enganaste, mas continuas a papaguear a ver se ainda enganas algum distraído.

      O Henrique Neto, pois claro

  4. Rui Naldinho says:

    Discordo em parte deste texto. É uma análise original, mas não enquadra bem a questão.
    Vamos por partes:
    O resultado anormalmente alto do BE nas eleições de 2015 é grande parte fruto de uma fuga maciça de eleitores do PSD, mas também alguns do PS, para o BE, numa atitude defensiva, contra os verdadeiros ataques à classe média em Portugal praticados no período da Troica. Desconhecer esse facto torna tudo ficcional.
    É bom lembrarmo-nos que três anos antes, depois da liderança bicéfala, após a saída de Francisco Louçã, o líder carismático do BE até aí, a extinção do BE andou por diversas vezes nas bocas do mundo. Dito isto, o BE não tem um eleitorado fixo de 10%. Tem quando muito 5%. E como sabemos a classe média, com especial incidência a de maior nível cultural e intelectual, com formação universitária, não é propriamente muito dada a votar sempre no mesmo. “Acompanha as tendências da moda, desde que estas não lhe vão ao bolso”. Sempre foi assim e nada mudará.
    Constituída a Geringonça, inicia-se o percurso legislativo e de governo do PS com o apoio de BE, PCP e Verdes. Vieram logo de seguida as eleições presidenciais. Marcelo na altura não tinha nem de perto nem de longe a popularidade que tem hoje. Alguns desconfiavam dele. E convém perceber que o PS se dividiu no apoio a dois candidatos. Maria de Belém Roseira e Sampaio da Nóvoa. Havia ainda Paulo de Morais e Henrique Neto, “dois outsiders” vindos do sistema, que granjeavam alguma popularidade, mas muito distinta da de André Ventura, nos dias de hoje.
    É neste contexto que se desenvolve um cordão sanitário à esquerda, sobre tudo aquilo que lembrasse a PàF e a Troica, no qual Marisa Latias recolhe 10% das intenções de voto, nessas presidenciais.
    As coisas hoje colocam de forma diferente. A votação do BE neste orçamento para 2021, mesmo que possa estar carregado de razão no seu voto contra, não colhem nesse eleitorado as mesmas simpatias que ocorreram no passado.
    Há ainda uma questão também importante. Ana Gomes e Marisa Matias são de certa forma “almas gêmeas”. São amigas. Respeitam-se como poucos na política. Faz algum sentido concorrerem as duas ao mesmo tempo, para mesma eleição presidencial?
    Claro que não faz. Só por vaidade uma delas não desiste. Ou pior ainda, pot interesse em ir buscar alguma contrapartida financeira.
    De há uns anos a esta parte tenho sido eleitor do BE. Nem sempre concordo com eles. Mas também não sei se vou votar nalguma delas.

  5. Luís Lavoura says:

    Votar Ana Gomes é votar na única candidata de esquerda que tem possibilidades de obter suficientes votos para fazer (alguma) sombra a Marcelo. Sob a perspetiva do voto útil, faz todo o sentido. Um voto em Marisa Matias é, certamente, um voto inútil.

  6. Jacquerie says:

    Concordo com o autor do post e parece-me óbvio que nestas eleições se poderá dar a viragem da maioria de esquerda para a maioria de direita no espectro político português. 73% direita, 27% esquerda. E deverá dar-nos a verdadeira dimensão do universo esquerdista do PS, assim como do seu universo direitista. Mas ficarão pagos os favores do PS a Marcelo e a partir da data se verá verdadeiramente o que Marcelo pensa pois não terá necessidade de agradar a ninguém, leia-se fazer favores políticos ao governo. Se é que pensa para lá do seu egocentrismo.

    Eu voto João Ferreira.


  7. O texto é tão redondo que pode ser descrito assim:
    ‘O melhor é deixar o Marcelo ganhar; deixar Marisa e Ferreira no parlamento europeu; voltar a ter Ana Gomes no comentário político; e deixar a extrema direita, mais tarde, empossar-se como governo’.
    Um pouco de pensamento político se faz favor!

    • João L. Maio says:

      Não é nada disso que diz o texto.
      Antes pelo contrário.

      Volte a ler.
      Se voltar a interpretar dessa forma, continuará errado e a não perceber o texto.

      Bem-haja.

    • Paulo Marques says:

      Outro que faz de conta que não há duas voltas.

  8. JgMenos says:

    As esquerdas sempre em busca da verdadeira esquerda, uma espécie de gambozino delirante e nunca alcançável.

    • Rui Naldinho says:

      As sondagens de hoje, saíram duas, mostram que os teus amigos continuam lá no fundo.
      Espera sentado, pois vais ganhar calos no cu, até os teus amigos voltarem ao poder.

    • José Peralta says:

      Ó “menos”

      “As esquerdas sempre em busca da verdadeira esquerda, uma espécie de gambozino delirante e nunca alcançável”.

      Antes um “gambuzino delinante” do que um “caga-lume” como tu…

    • Paulo Marques says:

      Ao menos admite que qualquer um lhe serve, desde que não lhe toque no privilégio de desviar dinheiro do país.

  9. Abraham Chevrolet says:

    O BE encheu o peito a votar contra o Orçamento !
    Que dance agora !!!

  10. José Peralta says:

    Abraham Chevrolet

    Olhe que não ! Olhe que não !

    John Cadillac

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