Entre as várias conotações de avatar, uma deles aplica-se na perfeição à música, literatura e cinema que se tem produzido nos últimos anos.
Tal como no significado informático, onde o avatar representa alguém num contexto diferente, como um jogo ou um ambiente virtual, sem no entanto ser essa pessoa, também nos avatares da arte, a actual produção artística representa a arte, sem no entanto a ser – falta-lhe a arte.
Vem isto a propósito do filme “Avatar, o caminho da água”.

Trata-se de uma sombra, um avatar, do que foi o primeiro filme. Sequências de acção, umas após as outras, com umas notas de ecologia pelo meio, sem uma história que já não tenha sido contada e recontada em filmes anteriores. Pior, sem que haja algo para além das sequências coladas umas às outras.
Estivéssemos nós distraídos e poderíamos pensar que a humanidade vive um período de secura criativa, quiçá, uma espécie de alterações climáticas nas artes, onde os rios da imaginação secaram.
Com efeito, a música parece um disco riscado, com melodias e letras simplificadas e repetidas.
A literatura mede-se ao metro, por exemplo como nos autores que publicam para o Kindle a lançarem em média um novo livro por mês e recorrendo a inteligência artificial para serem “produtivos”.
Quanto ao cinema, vive de sequelas, prequelas e remakes, explorando sucessivamente fórmulas que deram resultado no passado, sem nada realmente acrescentarem.
É este o estado da arte. Risco zero. Apenas uma máquina para fazer dinheiro, esquecendo um pequeno detalhe. A sétima arte precisa de ser uma arte, tal como a música deve ser mais do que som e a literatura mais do que frases após frases.






Nao vi sequer o primeiro, mas pelo que md disseram, não passa de um espectáculo visual. Também, ninguém terá ido ao engano.
A sequela será mais do mesmo, em maior.
Pelo menos estamos a preparar a transição para o conteúdo gerado por algoritmos, eliminando a criatividade com antecedência.
Eu confesso: quando vejo muitos tons azulados e acastanhados e uma data de rostos pálidos a cavalgar pescadas e safios fico sempre um bocado desconfiado.
Realmente, já não há imaginação lá por Hollywood.
Se fosse por cá ainda podiam pôr os sereios a domar sardinhas de conserva, ou a voar em postas de bacalhau a caminho da Índia. Com água em fartura, para que não fossem acusados de secura criativa!
Continua a haver bons e inovadores filmes. Não nos grandes estúdios. Esses são máquinas de produção em massa. A criatividade fica-se por pegar em personagens com estatuto e mudar-lhes género, raça ou sexualidade. Revolucionário.
Fora do circuito de Hollywood e parentes, há muitos realizadores a arriscarem fazer diferente e melhor. Recomendo “Fabian going with the dogs” ou o “DAU”, por exemplo