As três maiores empresas privadas do setor nuclear foram à falência: Westinghouse (EUA), Tepco (Japão) e Areva/EDF. No caso da EDF que acumula uma dívida de 65 mil milhões de euros (10 mil milhões só para a Areva) houve uma intervenção do estado francês para salvar o setor, transformando a Areva em Orano.
Desde o final dos anos 80, à medida que os custos iam subindo (e ainda íamos apenas nos custos de tratamento a curto prazo de resíduos e de encerramento de minas) que ficou claro para a indústria que a energia nuclear não seria rentável. Entre os anos 80 e 90, foi cancelada a construção de cerca de 200 centrais nucleares nos EUA. Nos EUA, as centrais são privadas. Atualmente, mais de metade das centrais americanas estão a perder dinheiro, multiplicando-se os pedidos de insolvência. O Japão tem uma fatura para pagar de Fukushima que já se situa acima dos 200 mil milhões de euros (~2 vezes o orçamento de Portugal). Cerca de 85% das centrais em operação existentes no mundo foram construídas até aos 90, o relançamento do nuclear é uma vacuidade. O preço médio da eletricidade de origem nuclear não tem parado de subir, sendo atualmente mais cara do que as restantes tecnologias.

Entre os 10 edifícios mais caros do mundo estão 6 centrais nucleares. A seguir à Grande Mesquita de Meca, a Central Nuclear de Hinkley Point no Reino Unido (uma EPR) é o segundo edifício mais caro do mundo e ainda não entrou em operação (2027?).
Mas duas das maiores parcelas dos custos da energia nuclear ainda estão para chegar e vão transitar para as próximas gerações: i) custos de desmantelamento; ii) armazenamento de combustível usado a um horizonte de 600 mil anos.
i) As primeiras centrais a ser desmanteladas no mundo são Greifswald (início em 1995, fim 2065?) e Sellafield (início 2023, fim dentro de 100 anos?), os custos respectivos são: 6 mil milhões de euros até 2023 para Greifswald; estimados 121 mil milhões de libras até ao ano 2120 para Sellafield.
ii) A investigação mais avançada de materiais e galerias de armazenamento de combustível nuclear usado só terminará dentro de 50 anos para garantir apenas alguns milhares de anos de armazenamento em segurança, muito aquém dos 600 mil anos que serão necessários. Sabemos que serão precisos centenas de quilómetros de tuneis para cada local de armazenamento que tudo indica deverá necessitar de grandes remodelações e reforços no mínimo a intervalos de centenas de anos. A Alemanha já estimou em 170 mil milhões de euros a fatura para todos os locais para armazenar resíduos e combustível usado das centrais nucleares alemãs.
Para quem acompanha o assunto é evidente que o setor da energia nuclear está à beira do colapso financeiro, dependendo irremediavelmente da intervenção estatal. Para se poder manter à tona, tem multiplicado ações de comunicação, não hesitando a recorrer a argumentação anti-científica (lá iremos), algumas delas com muito sucesso como foi a inclusão na taxonomia verde do Parlamento Europeu para poder obter financiamento bonificado na UE (embora até hoje não tenha aparecido nenhum financiador credível).
Por cá, este fim de semana vamos ter mais uma manobra de comunicação do setor nuclear. Vamos ouvir e ler afirmações como:
- A energia nuclear é barata;
- A energia nuclear é segura;
- A energia nuclear não emite gases de efeito de estufa;
- a energia nuclear é a única opção para resolver a intermitência das renováveis.
Começámos pelo “a energia nuclear é barata”. Nos próximos dias veremos os restantes pontos um por um e veremos se há alguma consistência científica nessas afirmações e o que nos diz realmente a ciência.






A ciência não nos diz nada, quem nos diz alguma coisa são os cientistas. E sendo embora muito diferentes opiniões baseadas em intuições e palpites e outras suportadas em raciocínios, testes, conhecimentos, estudos, demonstrações, verificações e provas, o exercício de emitir opiniões que se apresentam como a voz da ciência é apenas uma táctica de intimidação para queimar o terreno a quem albergar dúvidas. Sugeriria uma abordagem mais humilde, a arrogância intelectual não é o melhor pano de fundo. (E sobre o assunto em si não tenho opinião formada, a favor ou contra).
Na verdade, não diz nada porque são questões de engenharia, economia, e por aí; a ciência só diz que funciona.
Para quem escreve
“(E sobre o assunto em si não tenho opinião formada, a favor ou contra”
dizer que
“Sugeriria uma abordagem mais humilde, a arrogância intelectual não é o melhor pano de fundo.”
Arrogãncia intelectual ??????
O homem sobre um assunto tão especifico e técnico como os custos das centrais nucleares, não poderia escrever como se estivesse a dar uma receita de culinária no fakebook
Abordagem mais humilde ????
O Rui Silva, apresentou dados e gráficos,
O sr Graça não percebeu nada ? Temos pena
Apresenta apenas as despesas, logo sem receitas é prejuízo na certa….
Apresenta as despesas comparativamente de todas as formas de produzir e as despesas das Centrais nucleares estão a aumentar relativamente ás outras. Pelo menos é o que se deduz do gráfico
Ora pois!
Está provado! A culpa da falência das empresas privadas do setor nuclear é o Rui Silva!
Eu já cá desconfiava! A mim, nunca me enganou!
Óptimo artigo, Rui! Na Alemanha, ainda andarão por muito tempo à procura de um lugar “adequado” para o armazenamento do lixo radioactivo. E quanto aos custos de desmantelamento e armazenamento: segundo o acordo de 2016 entre o governo e as empresas nucleares, grande parte do risco dos custos incalculáveis vai para cima dos contribuintes: “As empresas podem comprar a sua saída: pagam um determinado montante e nem sequer são responsáveis pela responsabilidade subsequente. Todos estes riscos têm agora de ser suportados pela sociedade”. E ainda: “Muitos custos nem sequer estão incluídos nos cálculos. Entre eles, por exemplo, os custos de descontaminação do depósito de resíduos nucleares de Asse, que se encontra em dificuldades: um montante estimado em dez mil milhões de euros a suportar apenas pelos contribuintes. Trata-se de um subsídio de mil milhões de euros, como outros que têm sido abundantes nas últimas décadas. Desde 1970, os subsídios estatais à energia nuclear ascendem a um total de 190 mil milhões de euros: “Estes são os custos económicos da energia nuclear”, afirma Swantje Fiedler, do Forum Ökologisch Soziale Marktwirtschaft, que calculou o montante.
Porém o descaramento do lobby nuclear é incomensurável e assim se continua para aí a ouvir parvoíces sem qualquer fundamento.
Não admira que as empresas do setor nuclear estejam á falência, com aquelas mordomias todas que têm os trabalhadores.
Ele é subsídos de alimentação, cantinas com máquina de lavar louça e tudo, água quente nas torneiras, batas caríssimas, apanham um bocadinho de radiação nuclear e vão logo dar queixinhas ao médico, que os manda para casa, e depopis querem que aqui dê lucro!
Bandidos!
O custo total mede o quê? Se a energia nuclear não mede o armazenamento debaixo de uma remota montanha, também o resto não mede os vários subsídios, custos de extracção, custos de geopolítica, custos de importação, todos os custos da poluição do plástico e da produção de semi-condutores, e por aí fora.
Não sei se é assim tão melhor ou pior, no meio de tantos factores, mas deixar fora do mix parece-me precipitado, principalmente quando foi para queimar mais carvão mais depressa; mas também porque o dinheiro cria-se havendo vontade de resolver problemas e não de enriquecer os DDT, os recursos reais é que duvido que tenham outro uso.
De qualquer forma, nada é sério até que o decrescimento na transição justa seja um objectivo comum; e não é com as deturpações que o ocidente atira da boca para fora, é mesmo viver melhor com menos para todos. Se calhar é preciso esperar que uma metrópole ou duas desapareça, é a vida.
Faltou dizer, devia ser evidente que desenhos antiquados muito além do seu prazo de vida nem são carne nem são peixe, é mais uma coisa é que melhor não decidir que governar pode correr mal para as eleições.
” desenhos antiquados”
Em português técnico >> projectos antiquados
Desenho é a tradução da palavra inglesa “design”mas neste caso a palavra correcta é projecto
Se o que nos interessa é a viabilidade económica e física a médio-prazo, o gráfico acima é insuficiente mesmo no que diz respeito aos custos. 1. É preciso contabilizar o custo das renováveis num contexto em que não poderão recorrer aos combustíveis fósseis para produção, transporte e manutenção. Isso irá certamente aumentar-lhes bastante o preço. 2. A produção intensiva de energia com renováveis a larga escala está longe de ser “verde”. Considere-se, por exemplo, o elevado consumo de metais (bastante superior ao do nuclear, dada uma densidade energia muito mais baixa) bem como a poluiçåo resultante da mineração. Por fim, convém notar que os metais também são um recurso finito e pode vir a haver a médio prazo penúria de alguns metais. E, em todo o caso, o preço de extracção irá aumentar com o tempo. 3. Não há soluções perfeitas. Será necessário, como sempre, arbitrar entre os inconvenientes inerentes a qualquer dos cenários possíveis. O nuclear poderá eventualmente ajudar a navegar uma fase de transição se for usado para ajudar a aliviar os constrangimentos energéticos. É preciso equacionar os inevitáveis conflitos sócio-políticos associados ao abandono dos combustíveis fósseis – incluindo guerras, demagogia e populismo generalizados, e a possibilidade do colapso da democracia. As pessoas não estão preparadas e a democracia está muito fragilizada. E apenas vai piorar.
Note-se que esta é primeira vez na História da Humanidade em que um recurso energético dominante vai desaparecer; até hoje, os novos vinham acrescentar aos que já existiam, eg. hoje, sendo o petróleo dominante, consome-me mais carvão que no sec XIX.
Seja qual for o cenário que se vier a realizar, o consumo energético terá de diminuir significativamente. Isto é verdade nos casos em que o nuclear fizer parte da equação, ainda mais o será nos casos em que o nuclear ficar de fora.
Abordarei os aspetos que refere em artigo seguinte. Já há ciência realizada muito sólida sobre o peso do nuclear num mix energético. Para já deixo este paper e depois discutiremos:
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0301421521002330
Obrigado!, Rui. Vou ler.
“As pessoas não estão preparadas e a democracia está muito fragilizada.” Enquanto as pessoas se preparam pode ser que o planeta pegue fogo.
Há esse risco, infelizmente.
Pior do que isso, a democracia liberal não está preparada (em competência e vontade, pelo menos), e as pessoas estão fragilizadas (pela mesma, a sustentar uma burguesia cada vez mais voraz, preguiçosa, e medrosa).