NUCLEAR: O BOM EXEMPLO ALEMÃO

Ao contrário do que se diz, a decisão de encerrar as centrais nucleares tem hoje em dia um efeito claramente positivo na Alemanha:

  • A produção de renováveis ultrapassou largamente a produção de eletricidade via nuclear na altura em que a decisão de encerrar foi tomada;
  • As renováveis são 5 a 10x mais baratas;
  • As renováveis emitem cerca de 10x menos CO2 do que o ciclo nuclear incompleto (literatura científica e IPCC);
  • A dependência da Rosatom de Putin é zero;
  • Os riscos, mortes ou doenças associadas às renováveis são muito inferiores ao nuclear (literatura científica).
Literatura científica
Emissões CO2:
Mortes/cancros setor nuclear:

Desinformação no Expresso sobre energia nuclear

Este artigo de Henrique Raposo publicado no Expresso não segue minimamente a literatura científica consolidada sobre a energia nuclear, cita dados maioritariamente não revistos pelos pares e artigos sem significância estatística e sem abrangência. Sobretudo segue uma cadeia de desinformação iniciada pelos lobistas nucleares que engana até alguns dos mais atentos. Tenho trabalhado nestes assuntos com os meus alunos e é verdade que não é fácil fazer uma triagem correta da informação disponível.

Vejamos 4 exemplos da sua coluna de opinião que são muito ilustrativos:

1- “morreram 28 pessoas nos dois grandes acidentes nucleares até agora”. É completamente falso. Em artigo disponível no site da Agência Internacional de Energia Atómica, estima-se entre 50 mil a 90 mil mortes em Chernobyl. Números consistentes com o trabalho de 80 anos de investigação da cooperação Americano-nipónica Radiation Effects Research Foundation (RERF) desde a bomba atómica de Hiroshima, com o trabalho de décadas do Los Alamos National Laboratory ou com os cálculos de G. Charpak, Nobel da Física, por exemplo. Henrique Raposo é mais um da cadeia de desinformação dos que cita erradamente um relatório da UNSCEAR, pois cita apenas o número de trabalhadores que morreram de exposição direta e aguda na central no dia do acidente, que foram 28 e não as pessoas que morreram da contaminação de Cs137 que abrange uma área de amplitude continental. Aliás, no próprio relatório a UNSCEAR diz que não pretende fazer essa estimativa do número total de mortos na secção 3 da pag. 64. Mais, a mesma UNSCEAR ratificou, aquando do Fórum de Chernobyl em 2003, um número de mortes superior a 4000. [Read more…]

Provavelmente a última central nuclear da Europa

Este sábado, em Flamanville no norte de França, foi ligado à rede o novo reator EPR. O EPR era um projeto franco-alemão, acrónimo de European Pressurized water Reactor. Quando a Alemanha abandonou o projeto EPR passou a designar-se Evolutionary Power Reactor. Os EPR oferecem uma potência cerca de 50% superior do que a generalidade dos reatores e sobretudo são muito mais seguros, constituídos por cúpulas capazes de resistir a um embate de uma avião de linha e com galerias de transporte de plasma em caso de fusão do reator.

No entanto, este é um projeto que começou com um orçamento de 3,3 mil milhões de euros e terminou em 13,2 mil milhões. É o sexto edifício mais caro do mundo. Representando custos de 8250€/KW para a capacidade instalada. O fotovoltaico anda nos 600€/kW. A construção eternizou-se ao longo de 17 longos anos. A história dos outros EPR construídos pela EDF, na Finlândia e ainda em construção Hinkley Point no Reino Unido, não é muito diferente, verificaram-se também derrapagens colossais de custos e atrasos inaceitáveis.

Mais do que um estrondoso falhanço para a indústria nuclear, esta pode ser a última central a ser construída na Europa. A construção da central de Hinkley Point está praticamente parada e é a única em construção na Europa. Este ano Hinkley Point perdeu alguns dos seus principais investidores e não há nenhuma hipótese viável no horizonte para os substituir. A EDF, responsável por Hinkley Point, foi salva pelo estado francês que absorveu uma dívida de 60 mil milhões de euros. A EDF não tem capacidade de investimento. A americana Westinghouse foi à falência e foi comprada por um grupo canadiano sem experiência em centrais nucleares. Neste momento há zero centrais a serem construídas nos EUA… A japonesa TEPCO foi à falência e passou para os contribuintes japoneses mais de 200 mil milhões de dólares e Fukushima está muito longe de estar limpa. A coreana KEPCO ainda não faliu, mas tem uma dívida de 150 mil milhões de dólares. A russa Rosatom é atualmente a única empresa com capacidade para construir fora de portas, graças às contas à Putin, que não presta contas aos contribuintes russos.

Zaporijjia e a segurança das Centrais Nucleares

No plano inicial do 11 de Setembro constavam 10 alvos, um desses alvos era a central nuclear de Inidian Point que fica a 60 km de Nova Iorque. Segundo a informação recolhida, a central nuclear foi retirada da lista de alvos porque foi considerado que as consequências poderiam ser muito mais nefastas do que o pretendido.

Até 2001, as estruturas das centrais foram projetadas para resistir ao embate de um pequeno avião de turismo, da categoria de um pequeno Cessna. Na altura julgou-se que o pior cenário poderia ter origem num erro de um piloto de um avião desta categoria que voa a mais baixas altitudes e que eventualmente se aproximasse demasiado de uma central. 85% das centrais nucleares existentes foram projetadas para este cenário. Depois do 11 de setembro de 2001, esse paradigma mudou. Um avião de linha poderia servir de projétil contra uma central. Realizaram-se simulações para tentar avaliar a capacidade das centrais existentes para resistir a um embate de um avião de linha, mas na esmagadora maioria dos casos os resultados não foram divulgados e muitos mostraram que em determinadas condições os danos causados nas centrais nucleares poderiam causar um acidente muito grave. Poucas foram as centrais que reforçaram as estruturas. Por exemplo, os reatores de Zaporijjia estão parcialmente protegidos por uma estrutura envolvente ao edifício de cada reator quase da altura da cúpula. Esta estrutura pode ser muito eficiente para um embate de um avião de linha ou um projetil de artilharia, mas pode ser facilmente contornada por um míssil com boa precisão.

No entanto, para que um acidente grave possa ocorrer não é necessário atingir o edifício do reator. [Read more…]

Reatores nucleares na zona do Tsunami

Reatores em operação são apenas os indicados a vermelho no oeste do Japão, na zona do tsunami de hoje:
– 2 em Oi;
– 3 em Takahama;
– 2 em Genkai.
Em Oi e Takahama os muros anti-tsunami foram aumentados de 5m para 8m depois do acidente de Fukushima. Genkai tem um desnível para o mar de 11m.

A energia nuclear é segura? (parte I)

Chernobyl são mais de 10 000 km2 contaminados durante centenas de anos, 100 mil pessoas evacuadas, custos para lá dos 250 mil milhões de dólares, um sarcófago temporário (50 anos) para proteger o reator danificado que custou 2 mil milhões de euros (pago pela UE).

Fukushima foram 155 mil evacuados (atualmente 37 mil com estatuto de refugiados), 600 km2 contaminados durante décadas, 1,2 milhões de toneladas de água contaminada que serão largadas durante décadas para o oceano e onde os custos atuais de limpeza já ultrapassam os 200 mil milhões de dólares (2/3 do orçamento português).

Acidentes como o de Three Mile Island (EUA, 1979) necessitaram 2 décadas e mais 1,2 mil milhões de dólares para encerrar em concreto o combustível do reator 2 (em instalação provisória no Idaho). O acidente de Kyshtym (URSS, 1957) resultou em 10 mil pessoas deslocadas, 200 milhões de rublos (de 1957) de prejuízos imediatos e 4 décadas de limpeza. O acidente de Windscale (RU, 1957) já custou mais de 2 mil milhões de libras e o processo de limpeza está longe de estar concluído.

Efeitos da radiação de acidentes nucleares na população

Depois do bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki foi criado o centro de investigação conjunto nipo-americano Radiation Effects Research Foundation (RERF) que estudou durante décadas os efeitos na saúde humana das populações irradiadas na sequência da explosão das 2 bombas nucleares. O RERF produziu um trabalho extenso e robusto sobre os efeitos da radiação na população. Outros desastres ajudaram a validar e consolidar os resultados do RERF: o acidente da explosão de Castle Bravo no Pacífico (população irradiada em ilhas a diferentes distâncias onde as doses foram bem medidas) e ensaios nucleares militares a cargo de Los Álamos (soldados a distâncias precisas e doses bem medidas). Uma das consequências destes trabalhos foi o tratado internacional de interdição de ensaios nucleares na atmosfera assinado em 1963. Os cálculos mostraram que a precipitação radioativa resultante destes ensaios produziriam cerca de 170 mil cancros mortais na população mundial durante um período de 50 anos.

Em 2005 foi organizado o Forum de Chernobyl [Read more…]

O Setor da Energia Nuclear está ligado à máquina

As três maiores empresas privadas do setor nuclear foram à falência: Westinghouse (EUA), Tepco (Japão) e Areva/EDF. No caso da EDF que acumula uma dívida de 65 mil milhões de euros (10 mil milhões só para a Areva) houve uma intervenção do estado francês para salvar o setor, transformando a Areva em Orano.

Desde o final dos anos 80, à medida que os custos iam subindo (e ainda íamos apenas nos custos de tratamento a curto prazo de resíduos e de encerramento de minas) que ficou claro para a indústria que a energia nuclear não seria rentável. Entre os anos 80 e 90, foi cancelada a construção de cerca de 200 centrais nucleares nos EUA. Nos EUA, as centrais são privadas. Atualmente, mais de metade das centrais americanas estão a perder dinheiro, multiplicando-se os pedidos de insolvência. O Japão tem uma fatura para pagar de Fukushima que já se situa acima dos 200 mil milhões de euros (~2 vezes o orçamento de Portugal). Cerca de 85% das centrais em operação existentes no mundo foram construídas até aos 90, o relançamento do nuclear é uma vacuidade. O preço médio da eletricidade de origem nuclear não tem parado de subir, sendo atualmente mais cara do que as restantes tecnologias.

Entre os 10 edifícios mais caros do mundo estão 6 centrais nucleares. A seguir à Grande Mesquita de Meca, a Central Nuclear de Hinkley Point no Reino Unido (uma EPR) é o segundo edifício mais caro do mundo e ainda não entrou em operação (2027?).

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RTP poderia melhor informar sobre riscos de Zaporijjia

Ontem, na rubrica “360”, a RTP 3  convidou o Prof. Pedro Sampaio Nunes (PSN) para comentar os potenciais riscos em caso de acidente em Zaporijjia. Os comentários deixam muito a desejar. Vejamos porquê:

1- Ao contrário do que foi dito por PSN, os riscos de acidente em Zaporijjia podem ser bem mais graves do que Fukushima e estão bem identificados, quantificados e publicados em revistas científicas da especialidade. Apesar de 5 reatores estarem parados e um no processo final de paragem, são as piscinas (não protegidas) onde está a arrefecer durante uma década o combustível usado nos reatores que constituem o maior perigo. Por exemplo, o trabalho científico da imagem abaixo mostra a extensão dos potenciais níveis de contaminação em caso de acidente em Zaporijjia tendo em conta a contribuição da fusão dos reatores (topo), de um incêndio na piscina de arrefecimento (meio) e reatores+piscina (baixo). Como se pode ver na imagem, o incêndio numa piscina de arrefecimento (que perde água ou é destruída) e libertação de uma nuvem de fumo contaminada com grandes concentrações de Cs137 é um cenário mais perigoso do que o cenário simples de fusão do reator e é dominante no caso de acontecer fusão de reator + incêndio numa piscina.

E o que é curioso é que em Fukushima esteve muito perto de acontecer uma catástrofe deste tipo [Read more…]

A ocupação de Zaporijjia viola as Convenções de Genebra

Imagem AFP

 

A ocupação de Zaporijjia viola o artigo 56 das Convenções de Genebra, ou seja a letra da lei internacional que regula os conflitos armados.

Artigo 56.º – Protecção das obras e instalações contendo forças perigosas
1- As obras ou instalações contendo forças perigosas, tais como barragens, diques e centrais nucleares de produção de energia eléctrica, não serão objecto de ataques mesmo que constituam objectivos militares, se esses ataques puderem provocar a libertação dessas forças e, em consequência, causar severas perdas na população civil. 

(…)

4- É proibido fazer de qualquer obra, instalação ou objectivo militar mencionado no n.º 1 objecto de represálias.

(…)

6- Para facilitar a identificação dos bens protegidos pelo presente artigo, as Partes no conflito poderão marcá-los por meio de um sinal especial, consistindo num grupo de três círculos cor de laranja vivo dispostos sobre um mesmo eixo

A URSS ratificou a Convenção de Genebra e de seguida a Rússia manteve-se signatária destes acordos, entre os quais o artigo 56. Como é conhecido a 4 de março, após ter bombardeado a Central Nuclear de Zaporijjia onde um dos projéteis caiu apenas a 150 metros de um dos 6 reatores nucleares, os militares russos ocuparam a central ferindo dois empregados da segurança.

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Estado de operação de Zaporijjia

 

Dos 6 reatores que constituem a Central Nuclear de Zaporijjia apenas 1 está em funcionamento. Um dos sete pilares de segurança de uma central nuclear é a garantia de ter em permanência alimentação elétrica exterior para fazer funcionar a central. Desde sexta-feira, a central de Zaporijjia deixou de ser alimentada pelas 4 linhas de 750 kV da rede elétrica exterior. A linha de alimentação de emergência providenciada por uma central a carvão foi ontem cortada na sequência de um incêndio exterior. A central ainda pode assegurar o seu funcionamento através de geradores a gasóleo ou através de um processo de realimentação utilizando um dos reatores, mas esta é uma solução para pouco mais de uma semana. Neste momento o único reator em funcionamento está a fornecer energia para que todos os sistemas de segurança se mantenham operacionais, em particular as piscinas de arrefecimento onde é guardado o combustível usado (durante cerca de 8 anos).

Outros pilares da segurança estão a ser seriamente comprometidos, em particular as condições de trabalho dos engenheiros e técnicos da central que têm sido tratados de uma forma totalmente irresponsável pelas tropas russas, impondo ritmos e organização de trabalho desadequados às exigências de segurança. O erro humano está ao virar da esquina.

Num cenário de a central ficar sem energia elétrica, perdendo a capacidade de arrefecer o combustível usado, uma série de acidentes de diferentes escalas poderão acontecer que vão desde a fuga de água altamente radioativa das piscinas até a um cenário semelhante a Fukushima. Em caso de mais bombardeamentos da central, a tipologia de acidentes pode ser muito mais complexa e difícil de estimar a sua gravidade. Recordo que em Chernobyl estivemos muito perto de ter uma explosão colossal com capacidade de contaminação gravíssima à escala continental (toda a Europa) evitada in extremis por 3 técnicos que arriscaram a vida por todos nós.

Enquanto os europeus se entretêm a interceptar aviões russos

Moscovo e Teerão firmam acordos para reforçar a capacidade nuclear do regime dos ayatollahs. Tudo para fins civis, claro!

Regresso ao passado

Parece que ontem uns assinaram pela energia nuclear e outros pela monarquia. O nuclear após Fukushima e a monarquia com aquele patusco que faz filhos e tem um bigode castiço mas não vai ao concurso do bigode do ano.

Aguardo ansiosamente um manifesto que exija às escolas a reposição da terra no seu lugar aristotélico. Quem anda é o sol, carago.

NUCLEAR: há que debater, sim, mas de forma séria

Nos últimos dias escrevi dois postes denunciando o argumento de que o nuclear é absolutamente seguro e não poluidor, utilizado por muitos defensores -e promotores- dessa energia. É mentira, disse. Tal bastou para que fosse acusado de espalhar medos.

É verdade que a questão energética é das mais prementes do mundo actual e do futuro mais próximo. É igualmente verdade que faz parte de uma questão mais lata que poucos (os políticos, por exemplo, sabem que só conquistam o voto popular prometendo a ilusão do crescimento económico contínuo) estão interessados em discutir: a sustentabilidade do crescimento e a redistribuição dos recursos a nível planetário, como exige o redesenho de bem-estar anunciado pelas economias ditas emergentes.

A noção de sustentabibidade pesa, quer queiramos, quer não, como uma espada de Dâmocles sobre o futuro do planeta, os  recursos passíveis de utilização e consumo e a possibilidade de deles se usufruir ao longo de um prazo de tempo que ultrapasse as gerações mais imediatas. Sem essa discussão é impossível debater, de forma séria, as questões energéticas de modo a que não nos limitemos apenas a empurrar os problemas com a barriga segundo a máxima “quem vier a seguir que feche a porta”. [Read more…]

O que faz a ganância, ou o poder do dinheiro

Sampaio Nunes, ex-responsável pela área da energia nuclear na Comissão Europeia e ex-secretário de Estado da Ciência, afirma que o sismo e o tsunami do Japão corroboram, ao invés de porem em causa, a segurança das centrais nucleares. Dos 15 reactores na zona mais exposta ao tremor de terra, houve problemas em quatro e, por ora, sem libertação significativa de radiaoactividade. “A conclusão é que resistiram bem a um sismo de magnitude 9,0 e a um tsunami com ondas de 10 metros”, afirma. “Não há situação pior do que esta”. in Público

Sampaio Nunes para o Japão, já.