Holodomor

“They tried to exterminate us – they failed”
“Нас намагалися винищити – не вдалося”
Volodymyr Zelensky, 2023.11.25

O 4º sábado de cada mês de Novembro foi instituído como o “Dia da Memória das Vítimas da Fome e das Repressões Políticas” ou “Dia da Memória das Vítimas do Holodomor”. Neste ano de 2023, aconteceu a 25 de Novembro. E, infelizmente, não mereceu muita atenção. Aliás como o próprio Holodomor.

O Holodomor que ocorreu entre 1932 e 1933 é resultado da decisão soviética de colectivizar à força em todo o seu território quer as produções agrícolas quer os próprios meios de produção. Como paralelamente a União Soviética viveu um período de fraca produção agrícola que as políticas comunistas agravaram de forma avassaladora e como as populações ucranianas resistiam à “colecta” por legítimo medo de que o que sobraria não cobria minimamente as suas próprias necessidades, Stalin decidiu que o processo devia ser acelerado e terminado rapidamente, custasse o que custasse. Para tal chamou Viatcheslav Molotov que deverá ser um dos seres humanos (a qualificação é discutível) mais execráveis que algum dia o mundo conheceu. Num atroz top 3, pediria meças a Hitler e a Pol Pot com Mao Tsé-Tung a espreitar uma das medalhas.

Permitam-me uma espécie de parêntesis para elucidar superficialmente porque é que o nome Molotov não vos é estranho. Primeiro porque foi um dos principais ou mesmo o principal arquitecto do “pacto Molotov–Ribbentrop” que permitiu a Hitler as condições necessárias para iniciar a 2ª Guerra Mundial. Para quem alega que as forças comunistas foram essenciais para lutar contra o nazismo, talvez fosse razoável perceber o quanto elas também foram determinantes para que ele fosse o que realmente foi. O 1º Eixo não foi composto pela Alemanha, Itália e Japão, mas sim pela Alemanha e pela União Soviética numa aliança que não deixa de ser quase natural e lógica entre nazismo e comunismo.

Molotov também é conhecido por ter dado, indirectamente, nome aos conhecidos “cocktails”. Em 1939 quando a União Soviética decidiu atacar a Finlândia, Molotov teve a lata que só um psicopata conseguia ter de tentar ludibriar a opinião pública dizendo que os comunistas não estavam a bombardear a Finlândia, mas, tão só, a lançar alimentos para ajudarem os Finlandeses a não passarem fome. As bombas estão utilizadas, as RRAB-3 que tinham um poder destrutivo terrível, ficaram conhecidas como os “cestos de pão de Molotov”. Como os finlandeses tinham poucos meios bélicos à sua disposição para enfrentarem os soviéticos, inventaram um dispositivo explosivo portátil feito a partir de garrafas de vidro e de gasolina. Quando os lançavam contra os tanques soviéticos, diziam com propriedade que estavam a retribuir a “generosidade” comunista e por tal, denominaram aquele artefacto como “cocktail Molotov”.

Foi este Molotov que antes já tinha sido escolhido por Stalin para com “carte blanche” acelerar a colecta das produções na Ucrânia. E foi no desempenho dessa “missão” que Molotov e o próprio Stalin perceberam que a apreensão maciça de alimentos na Ucrânia poderia ter uma outra consequência prática: o genocídio do povo da Ucrânia onde o sentimento patriótico e independentista demonstrava uma resiliência notável. Resultado: milhões de mortos por fome.

O número exacto das vítimas desta estratégia comunista não é conhecido e provavelmente nunca o será. Pode ter chegado a 12 milhões. Mas se os números correctos não são factuais, há um valor mínimo que é, generalizadamente, reconhecido como verdadeiro: mais de 3 milhões de mortos. Repito, 3 milhões de mortos. Três. Milhões.

Para que percebam, o Holocausto judeu, consensualmente o ponto mais abjecto da história mundial, teve 6 milhões de vítimas. No Holodomor estamos a falar, no mínimo, de metade desse número e no máximo, do seu dobro. Isto é, se o Holocausto representa para nós todos a suprema vergonha da humanidade, porque é que o Holodomor não tem divulgação equivalente? Ou pelo menos, porque é que não é séria e profundamente discutido?

Porque os seus mentores foram os comunistas. Tão simples como isto. Porque o comunismo exige em primeiro lugar que cada um de nós perca a capacidade de pensar por si próprio. E se o “comité central” decidiu que o Holodomor é uma fantasia reaccionária (seja lá a “reacção” o que quer que seja principalmente nestes tempos onde o termo é apenas imbecil), então o Holodomor nunca existiu. Porque a sua assunção implicava uma espécie de “pecado mortal” para esquerda o que contrariaria a (falsa) superioridade moral que defendem ter sobre a direita. Porque o aprofundamento da discussão sobre o Holodomor implode a normalização que se tenta fazer do comunismo como ideologia política aceitável. Não é e nunca o será. O comunismo é miserabilista, contranatura e assassino. Num sistema jurídico universal e consensual, o comunismo seria (é) criminoso.

Porque enquanto a direita não tem qualquer escrúpulo em chamar as suas derivações extremistas pelo nome que merecem, fascistas, nazistas, etc. e em colar-lhes o justo anátema, já a esquerda resiste desonestamente em fazer o mesmo. A extrema-esquerda é tão repulsiva e execrável como a extrema-direita. Falta apenas a sinceridade suficiente para o assumir.

Mas e para lá de toda e qualquer argumentação que (felizmente) pode ser contrariada (não vivemos sob regime comunista), neste momento, muito mais importante é prestar homenagem às vítimas do Holodomor para que nunca, nunca se repita.

Slava Ukraini!
Слава Україні!

Comments

  1. balio says:

    Concordo com todo o post, todinho, menos com a frase final.

  2. Zé Povinho says:

    Artigo idiológicamente “repulsivo” a mentira dos que cozinham a HISTÓRIA verdadeira e a transformam em manipulação perversa, Vejam que até contam os mortos e repetem, visceralmente o falso numero. Pegando em factos acontecidoa, manipulam-nos e torcem-nos insanamente! Stalin é realmente a figura mais deturpada, pelos corruptos, e com crenças de pilhagem para enriquicimento, pois ele nunca os permiteria, os oligarcas, que esses sim sacam biliões de euros e dollars á humanidade! Trate-se!!! Faça critica sim, mas honesta e sábia.

  3. JgMenos says:

    À cambada esquerdalha só o saque a determina.
    O Holodomor foi saque, algo que lhes é natural.

    No artigo falta mencionar as exportações de cereais dos soviéticos nesse período, única fonte de divisas para sustentar os seus planos de industrialização, armamento e sustentação do regime.

    O que atacam hoje os russos? Os cereais dos ucranianos!

  4. Porque ainda não se normalizou branquear um genocídio – foram só judeus, foram – para inventar outros – ganharia muito dinheiro a provar intencionalidade e alvo que não ganha a repetir a mesma aldrabice ideológica mais uma vez.
    Já outras fomes tão caladinhos, desde o claro genocídio Irlandês ou Indiano (a ver se saem da zona de conforto), aos transparentes bloqueios aos mercados (agora com roubo de reservas a acompanhar, não vá irem por outro lado), como as muitas outras em geral por vontade divina dos mercados.
    Valores democráticos liberais: os problemas são todos causados pelos outros, pomos uma cruzinha de 4 em 4 anos para mudar o testa de ferro e só estes têm culpa do que acontece cada vez mais.

    • POIS! says:

      Em Bengala, 1943, não houve fome nenhuma!

      O que houve foram problemas de excesso de apetite. Aliás, o Grande Vulto Liberalesco Churchill tinha dado, coerentemente, aos de Bengala a liberdade de comer ou não comer. Como estavam manipulados por um gajo vestido de lençóis, muitos optaram pela segunda hipótese, o que lhes foi fatal.

      As ideias liberalescas, por vezes, enfrentam dificuldades com as pessoas que não as compreendem.

  5. Pimba! says:

    De certo todo, a frase “Em Bengala, 1943, não houve fome nenhuma!”, porque foi, infelizmente, apenas mais do mesmo. Mais fome, menos fome, assim andou a Índia Britânica em séculos.
    Calharam a morrer mais em 1943 do que habitualmente.
    E Churchill deve ter achado que foram poucos…

  6. Anonimo says:

    Nove décadas depois, o reconhecimento do Holodomor como genocídio continua a não ser unânime. O historiador José Neves esclarece que não há evidências de um extermínio em massa na Ucrânia e não encontra semelhanças com a atual invasão russa.

  7. Anonimo says:

    A bem dizer, tenho seríssimas dúvidas de que os camaradas do PCP XXI nos queiram colocar, direitolas liberachos, num gulag em pleno Baixo Alentejo.
    Claro que também não creio que o Dr Ventura e sus muchachos queiram comprar o Tarrafal de modo a fazer uma colónia penal para mal-comportados.
    Há muita histeria, e uso abusivo de vocábulos que tinham algum significado, como fascismo, socialismo, genocídio, anti-semitismo, sionismo, islamofobia e derivados.

  8. Tuga says:

    Pois este ano correu mal. Logo se lembraria o tostões de comemorar a 3a tentativa para acabar com o 25 de Abril, depois do 28 de Setembro de 1974, do 11 de Março de 1975 e finalmente a última tentativa organizada pelo excelentíssimo da terra dos cães, com o apoio dos comandos, mas que não deu no que eles inicialmente pretendiam. Tinha ido uns meses antes comandar a 5a divisão onde fez a preparação do 25 de Novembro.
    Com a colaboração ingénua dos paras que se prestaram sempre a estas coisas
    Sobre o 11 de Março de 1975, em que o major Portugal voando num T6 metralhou casernas do RALIS matando 4 soldados.
    Nem a intervenção dos paras sob o comando do capitão Sebastião Martins resultou em alguma coisa a não ser uma prachadela em directo para a RTP dada por um capitão do RALIS

    Mas ainda bem que a coisa ficou por ali porque os militares do RALIS dominavam toda a área, pois estavam no cimo das torres a volta do quartel.

    A não ser que o citado major piloto aviador Portugal, resolvesse bombardear os prédios.
    Curiosamente ou talvez não esse major Portugal é irmã da mulher do sujeito da terra dos cães, premiado depois pelo sistema com um altíssimo cargo nacional

  9. Nortenho says:

    ” Primeiro porque foi um dos principais ou mesmo o principal arquitecto do “pacto Molotov–Ribbentrop” que permitiu a Hitler as condições necessárias para iniciar a 2ª Guerra Mundial”

    Como é que passado tanto tempo não perdoam à URSS ter ganho tempo para se preparar para uma invasão que sabiam inevitável, fosse pelos nazis de Hitler ou pelos “liberais” de Churchil e seus amigos que o que pretendiam era acabar com o regime dos sovietes, perigosíssimo como exemplo.

    O resto é propaganda liberocas que tenta convencer os trouxas

    Fizeram um pacto de não agressão e muito bem. Se não fizessem tinham sido engolidos em 2 anos

    • balio says:

      Fizeram um pacto de não agressão

      O pacto Molotov-Ribbentrop não foi somente (nem principalmente) de não-agressão. Foi um pacto que promoveu e facilitou a agressão à Polónia e aos Estados bálticos.

      • Nortenho says:

        Novamente, pode ter percebido mal

        “O resto é propaganda liberocas que tenta convencer os trouxas”

        Uma coisa é a Historia e o que esta escrito outra coisa é propaganda

      • Foi essencialmente um pacto de não agressão mútua, que dividissem um vizinho era só real-politik, como foi condenar à fome e ao Hitler a república de Weimar assassina de comunistas – a dívida em moeda estrangeira por dependência de bens essenciais vem sempre primeiro, depois a hiperinflação, depois a fome, mas isso nunca interessa contar; é o estado governar para todos que é o perigo!

    • JgMenos says:

      «não perdoam à URSS ter ganho tempo para se preparar para uma invasão»

      Essa é a versão oficial da comunada.
      O Estaline estava tão confiado no Adolfo que nem acreditou nas noticias que o seu agente em Tóquio lhe mandou com razoável antecedência.
      Não fossem os americanos darem-lhe uma ajuda e teria mandado para a chacina mais uns milhões de russos, desarmados e a pé.

      • A União Soviética não era Estaline, mas tens razão: o que não perdoam é terem tido que mexer o rabo e correr com atraso até Berlim para levarem os nazis para casa, que deixar para os outros serem carne para canhão é muito bonito, mas um império global não se faz sem criminosos de guerra. Ontem como hoje.

      • POIS! says:

        Pois temos de aceitar, porque é a verdade!

        E JgMenos sabe-o, já que ele estava lá: durante uma visita a Moscovo, disfarçado de turista, mas ao serviço dos SSS (Serviços Secretos Salazarescos) escondeu-se num armário do Kremlin.

        Armário esse de onde só veio a sair muito mais tarde, acompanhado de dois fogosos fuzileiros, aproveitando uma ida do Khrushchov à casa de banho.

        E foi aí que ouviu a conversa que cita no comentário:

        Agente em Tóquio: “ó camarada Estaline estive a beber uns copos com uns gajos importantes de olhos em bico e disseram-me que o Adolfo não é de confiança. Não tarda nada vai entrar por aqui adentro!

        Estaline: “sempre a dizer mal do homem! Que relzinhos! Não podem ver um corte de cabelo tão avant-garde! Mas fizeste um bom trabalho, camarada. Passa lá pelo escritório na Sibéria para receberes!”.

  10. Tuga says:

    Off topico mas noticia reveladora da mentalidade dos betinhos liberocas

    Passes gratuitos para alunos do ensino profissional , NÃO, queriam os liberocas

    Do CM
    Os deputados aprovaram esta segunda-feira uma proposta de alteração ao OE2024 do PAN que alarga a gratuitidade do passe sub23 aos jovens entre 18 e 23 anos de idade matriculados em cursos do ensino profissional.

    A proposta foi aprovada com os votos contra da IL, a abstenção do PSD e votos a favor dos restantes partidos, nas votações na especialidade da proposta de Orçamento do Estado para 2024 (OE2024).

    https://www.cm-tv.pt/atualidade/detalhe/20231127-1647-alargada-gratuitidade-do-passe-sub23-a-estudantes-do-ensino-profissional?ref=HP_DestaquesaRasgar

  11. Figueiredo says:

    A fraude de Holodomor.

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