
Se quando pensa em “bunker” imagina paredes de betão, tectos baixos, beliches, e gente de pele macilenta e cabelo mal cortado a abrir latas de conserva, esqueça. Isso é tão século XX…
Pelo preço adequado, pode ter um bunker equipado e decorado como um hotel de luxo, com suites, ginásio, área de jardim e horta para cultivar vegetais frescos, poço de águas profundas, sistemas de filtragem de ar, dispositivos de segurança, aquecimento e refrigeração geotérmica, reservas de combustível e alimentos para pelo menos um ano, etc. A ameaça exterior pode ser um ataque nuclear, um cataclismo ambiental, guerras, sismos, migrações massivas, epidemias, ou algo que ainda nem sequer conseguimos imaginar. Como diz uma das empresas que vendem estes bunkers de luxo, a TerraVivos, a Terra é um lugar cada vez mais perigoso e, à nossa volta, não faltam ameaças reais de extinção.
Num livro recente – Survival of the Richest: Escape Fantasies of the Tech Billionaires -, Douglas Rushkoff, escritor e académico que tem vindo a escrever sobre o impacto da tecnologia digital nas nossas vidas, começa por contar que foi convidado para dar uma conferência a um grupo de multimilionários sobre “o futuro da tecnologia”. Mas rapidamente percebeu que eles (eram todos homens) não estavam interessados exactamente nesse tema, mas sim numa série de questões práticas, mas também filosóficas, sobre o apocalipse.
Alasca ou Nova Zelândia: qual será a região menos afectada pela crise climática? Ataque nuclear ou ameaça biológica, qual o mais provável? Quão imunes a ataques estão as águas subterrâneas? Como garantir a lealdade das forças de segurança que terão de guardar o bunker? E como pagar os seus serviços, com criptomoedas? Mas mais do que todos estes aspectos práticos, o que lhes importava saber era se poderiam acumular suficiente dinheiro para isolar-se da realidade, essa realidade para a qual tinham contribuído com as actividades que lhes tinham proporcionado uma imensa fortuna.
Que os super-ricos alimentem fantasias escapistas não é surpreendente. É certo que ser pobre é uma fonte de arrelias, mas ser muito rico não o é menos. Quanto maior é a fortuna, maior o medo e mais esforços terão de ser aplicados em nutri-la e preservá-la. De resto, todos estes multimilionários da tecnologia têm a mesma abordagem: sacar o máximo de rendimentos de qualquer ideia nova e seguir em frente o mais depressa possível, de maneira a conseguir sempre escapar às consequências do esgotamento do modelo anterior. A consequência lógica é que também o planeta venha a esgotar-se e, apesar dos esforços de Elon Musk, Marte ainda parece longe de tornar-se o planeta B. As viagens ao espaço como a que o dono da Amazon, Jeff Bezos, fez recentemente também são obviamente mais um divertimento de fim-de-semana para multimilionários entediados (que oferecer a quem já comprou o planeta todo?) do que uma investigação séria de possíveis planos de fuga de uma Terra inabitável. E Jeff Bezos, o homem que tem um iate secundário só para aterrar o helicóptero para aceder ao superiate principal deve ter uns ataques de tédio difíceis de superar.
Ah, os pioneiros da internet e a sua visão utópica de um território de irreprimível liberdade, sem lugar para a intromissão de qualquer governo… Seria esse o princípio base da famosa “Declaração da Independência do Ciberespaço”, escrita por John Perry Barlow, activista do ciberlibertarianismo (e letrista dos Grateful Dead, o que em nada contradiz o anterior). Deveríamos ter desconfiado quando, chegados ao fim da declaração, lemos que ela fora escrita em Davos, na Suíça, em pleno Fórum Económico Mundial de 1996, dedicado ao tema “Sustentar a Globalização”.
É por tudo isto que a realidade virtual (“go meta!”) é o futuro. Sejamos sinceros, não será fácil resolver os problemas do mundo nos próximos anos. A crise é económica, política, ambiental, social, pessoal. Já o mundo virtual pode ser tudo aquilo que cada utilizador quiser.
A Valve, uma empresa criadora de software para jogos, está a desenvolver um interface cérebro-computador, que permitirá que ambos possam controlar-se mutuamente. O director da empresa, Gabe Newell, refere-se já ao corpo humano como um “periférico de carne” e garante que estamos “muito mais próximos do Matrix do que as pessoas imaginam”.
A experiência visual deste software fará com que o mundo a que ainda chamamos real pareça uma coisa sem graça, deslavada, desfocada, e acima de tudo onde apetece menos viver. E, uma vez que se experimenta, ficar-se-á agarrado mais depressa ao virtual do que ao fentanil?
Claro está que o mundo virtual já está a ser rapidamente colonizado pelas maiores empresas mundiais e até já se criam impérios imobiliários no Metaverso, replicando assim o inferno da escassez de casas disponíveis e das rendas galopantes que conhecemos da chamada realidade consensual.
Mas num mundo em que a inteligência artificial poderá vir a realizar boa parte dos trabalhos que cabiam às pessoas, será útil que estas se mantenham contentes e pacificadas nos seus jogos e nas suas existências virtuais, enquanto o escol dos multimilionários da tecnologia poderá tomar as decisões necessárias, aquelas que são melhores para todos nós, no seu bunker, talvez no Alasca. Em suma, seremos todos felizes.






E essa gente quer sobreviver a essas possíveis catástrofes para quê, exatamente?
Para encherem o mundo, como se ele e não estivesse já suficientemente cheio.
Para termos um mundo progressivamente mais e mais cheio de velhos.
Essa gente, que quando jovem até pensei que era um grupo inteligente, anda viciada na ideia de altruísmo efectivo, em que tudo o que fazem é justificado desde que permita financiar eventualmente a salvação da espécie; e quanto mais condenada, pelo completo desperdício em que vivem e da especulação de que dependem, mais convictos ficam da sua excepcionalidade, longe do contacto uma vida normal. Por mera coincidência, é quase tudo americano.
É evidente que num mundo em que a moeda tal como a conhecemos não exista, muito menos criptoesquemas, só são um contra muitos com fome.
Há muito a dizer sobre essas “grandes” inovações, mas o mais caricato é que vai-se a ver, e o mais útil é matar mais gente com maior eficiência. Como não podia deixar de ser.
Excelente, fantástico texto, tal como é usual da Carla Romualdo.
o corpo humano como um “periférico de carne”
Isto é aquela ideia da dualidade corpo-espírito, tão falsa mas, não obstante, tão prevalente na cultura europeia.