A verdade anda por aí

The Parallax View (1974)

 

Nos anos marcados pelo escândalo do caso Watergate, produziu-se, nos EUA, uma série de filmes que ficou conhecida como a dos “thrillers paranóicos”, com enredos que lançavam suspeitas sobre poderes tão distintos quanto o Governo (Os Homens do Presidente, Os Três Dias do Condor), a NASA (Capricorn One), interesses económicos diversos protegidos por um sistema de justiça cúmplice (The Parallax View), a corrupção nas forças policiais (Serpico), a energia nuclear (A Síndrome da China), ou o futuro da humanidade num cenário de desastre climático e em que um império corporativo controla a produção de alimentos (Soylent Green).

Os heróis destes filmes são muitas vezes jornalistas (inspirados por Woodward e Bernstein) mas também polícias, detectives, e gente comum, que, no exercício das suas funções, descobre um segredo terrível sobre uma entidade poderosa e arrisca a vida para revelá-lo. Os finais são frequentemente negros, com as forças que manobram na sombra a esmagarem sem piedade os indivíduos que lhes fizeram frente.

Quem cresceu alimentado por semelhante substrato acreditou desde cedo que existe uma verdade ocultada por uma conspiração generalizada, que nenhuma instituição é credível, que tudo depende de alguns indivíduos, uma pequena elite de homens e mulheres corajosos, capazes de enfrentar um poder sem rosto, e que, tomando como certo que todos somos mais ou menos impotentes, é pelo menos possível aspirar à lucidez de saber que nos mentem e dá-lo a conhecer a outros.

Os filmes sobre teorias da conspiração nunca deixaram de produzir-se e a televisão deu vários contributos à causa, sendo a série X-Files talvez o mais popular nas últimas décadas, com uma ideia inicial interessante a deslizar pouco a pouco para uma insanidade recheada de figuras bizarras, um reflexo do que tende a acontecer com estas teorias na realidade.

Cigarette Smoking Man, X-Files

 

A origem de tudo isto talvez esteja nos acontecimentos de Dallas, de 22 de Novembro de 1963. Um ano depois seria publicado o relatório final da Comissão Warren, que investigou o assassinato de John F. Kennedy. Umas imponentes 888 páginas que apontam Lee Harvey Oswald como o assassino solitário do presidente. A conclusão foi contestada de imediato e continua a sê-lo. A tal ponto que a CIA, apontada por alguns dos que recusaram a versão oficial como cúmplice na ocultação da verdade, decidiu publicar um relatório, em 1967, com o propósito de rejeitar aquilo a que chamou “teorias da conspiração”. Não foi a primeira vez que o termo foi usado (o registo mais antigo é de 1863, numa edição do New York Times), mas foi a partir daqui que ele se popularizou.

Na ressaca do caso Watergate, e já depois da renúncia de Nixon ao cargo, vêm a público revelações sobre o projecto da CIA “MKUltra”, um programa ilegal de experiências com drogas em seres humanos. O objectivo seria identificar drogas que pudessem ser usadas durante os interrogatórios para debilitar e forçar confissões, através de lavagem cerebral e tortura psicológica. O então director da CIA havia tentado destruir os arquivos relacionados com o MKUltra, mas alguns dos ficheiros tinham sido classificados como documentos fiscais, escapando assim à destruição.

Ao que parece, a CIA tinha tentado recriar a ideia que serviu de base a “O Candidato da Manchúria” (livro de Richard Condon, mais tarde adaptado ao cinema em 1962 e 2004), em que se conta a história de soldados norte-americanos na Coreia, que acabam transformados em assassinos através de uma lavagem cerebral por parte das tropas comunistas, sem guardarem depois qualquer memória desses actos.

The Manchurian Candidate (1962)

 

Às velhas teorias da conspiração juntam-se novas, permanentemente. Continua a realizar-se anualmente a “Conferência sobre o Assassinato de JFK”, que reúne o seu não tão pequeno grupo de seguidores da crença que a verdade nunca foi contada. Chamam-se a si mesmos “a comunidade do assassinato” ou “assassinólogos”. Consagram a vida à certeza de que existe uma verdade, soterrada sob relatórios oficiais, silenciada por homens sem rosto, e que é missão dos assassinólogos trazê-la à superfície. Acorrem a Dallas nas cerimónias anuais de homenagem a Kennedy, são perseguidos pela autarquia e pela polícia, gastam tudo o que têm a publicar materiais com a sua versão dos factos: Kennedy foi assassinado pela máfia, pelos russos, pelos cubanos, pela CIA, pelos Serviços Secretos, pelo vice-presidente Lyndon Johnson, ou quem sabe, por vários destes em conjunto. A teoria suprema seria uma que conseguisse juntá-los todos como cúmplices no mesmo plano.

JFK (1991)

Agora mesmo, os auto-proclamados paladinos da liberdade de expressão nos EUA – a Fox News e Elon Musk – dedicam-se a difundir a teoria de que Taylor Swift se aliou a Joe Biden numa operação clandestina para ajudá-lo a garantir a reeleição. E já se fazem sondagens para avaliar que percentagem de americanos aceita isso sem pestanejar.

O clima de paranóia atingiu tais níveis de insanidade que os fanáticos do QAnon (que se estima superarem os 20% da população) acreditam hoje que existe uma conspiração mundial de pedófilos canibais e satânicos, que inclui políticos (de esquerda), artistas e jornalistas, e só poderá ser derrotada por Trump. De resto, um dos momentos mais altos da sua presidência foi mesmo quando recorreu a uma das ideias de maior êxito entre os seguidores do QAnon, recomendando a ingestão de lixívia para combater um vírus respiratório.

Passámos do thriller paranóico para a farsa de terror. Faz-nos falta um Kubrick, talvez.

Comments

  1. Fernando Manuel Rodrigues says:

    Qual o objectivo deste artigo? Refutar as teorias da conspiração em geral? São tudo “maluquinhos” que vivem uma existência miserável desperdiçada a “caçar gambozinos”?

    Muitas vezes a realidade ultrapassa a ficção, e curiosamente o artigo cita alguns factos que o comprovam. E contudo (peço desculpa se interpretei mal) termina com o clássico “Não temam… é tudo fumaça. Vai ficar tudo bem”.

    • POIS! says:

      Pois eu digo-vos…

      Que este comentário me faz desconfiar de qualquer coisa.

      Não há fumo sem fogo! E não há fogo sem fumo!

      E onde andam os bombeiros?

      Huuuuuumm…agarradinhos às agulhetas com aquele ar de quem…

      Mais um caso para desconfiar!

  2. O problema das teorias é quando se perde a noção que são teorias, e começam a exigir a conspiração de milhares e milhares de pessoas sem que ninguém se descaia, ou quando começam a exigir que nada seja verdade. Entre reconhecer que “a máfia, [os] russos, [os] cubanos, [a] CIA, [os] Serviços Secretos, [o] vice-presidente Lyndon Johnson” tinham todos razões e acreditar que não há outra justificação possível vai uma grande distância. Ou que não há incompatibilidade entre vacinas funcionarem e farmacêuticas terem lucrado imensamente com contractos pouco transparentes.
    Isso e o maniqueísmo, que tanto cria pedófilos numa cave de uma pizaria, como um todo poderoso russo face ao qual só o totalitarismo funciona – loucura dá para todos.

  3. JgMenos says:

    Sempre que se exibe a podridão russa os órfãos soviéticos vão ao seu catálogo de horrores para exibir o que possa deslustrar as democracias e suas liberdades

    • POIS! says:

      Pois tá bem, e…

      Sempre que se exibe a podridão fascista os órfãos salazarescos vão ao seu catálogo de horrores para exibir o que possa deslustrar as democracias e suas liberdades.

    • Projecção, outra vez, na altura em que se faz de conta que Navalny era um lutador pela liberdade – como os amigos do Zé e o Bibbi, de ficar milionários para matar as carraças (sic) etnicamente impuras?
      Não são precisas teorias quando eles abrem a boca.

  4. JgMenos says:

    Ao cheiro da merda logo acorrem as moscas do costume.
    Tudo que é inimigo dos valores ocidentais lhes serve; sejam as fraldas dos ayatollas, os esbirros do Putin ou a tirania de coreanos ou chineses.
    Haver gente livre que livremente contradiga os dogmas da cambada é o que têm por intolerável.

    • POIS! says:

      Pois claro!

      Vosselência acorreu de pronto!

      Confere!

    • Mano, vieste comentar uma tal de “podridão russa” que nada tem a ver com o assunto post, e os outros é que são moscas?
      Quanto aos ditos valores, a defesa e indiferença face ao colonialismo na Palestina novamente à vista de todos por quem o andou a alimentar fala por si.

  5. Tá bem , tá ! says:

    Realmente. Aquilo lá Rússia tá mau para o Chega e para o CDS e… cala-te boca .

  6. Teresa Ramalho says:

    Estoua receber notificações suspeitas
    no meu email, com o remetente AVENTAR, o que não é habitual. Por exemplo de uma empresa de jogos online.
    Têm conhecimento do facto?
    Cumprimentos,
    Teresa Ramalho

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