
Foto: Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)
A polémica sobre as declarações do ministro da Educação, Fernando Alexandre, teve tudo o que uma boa polémica de redes sociais tem, hoje em dia: péssima habilidade comunicacional, declarações truncadas em vídeo que se tornam virais, e indignação primária, pedindo a cabeça do ministro de imediato.
Posso falar disto com total legitimidade: vi o vídeo cortado, reagi a quente e pedi a cabeça do ministro. Depois vi e ouvi as declarações completas e percebi que o problema em questão era outro.
Vamos a factos: é falso que o ministro tenha declarado que os alunos carenciados são os responsáveis pela degradação das residências. Este foi o ponto essencial da polémica e é factualmente falso.
No entanto, há um problema subjacente às declarações que é importante salientar e dissecar.
Fernando Alexandre defende que as residências não devam ser repositórios de alunos de classes baixas porque, no seu entender, quando um serviço público é usado apenas pelas classes mais baixas, tende à degradação. Poderá ser isto porque essas classes têm menos voz e menos poder reivindicativo (como defende Daniel Oliveira) ou porque, como o usufruto desses serviços é “pelos pobres”, perde-se o incentivo da sua manutenção e boa gestão.
E é neste segundo ponto que está o grande problema. O ministro pode e deve identificar esta ideia como um problema. Não pode é demitir-se das suas responsabilidades enquanto ministro da pasta.
E tenta fazê-lo quando nos apresenta a sua solução: se as residências foram usadas por outros estratos sociais, então será possível garantir que não se degradam.
Isto cria dois problemas. Em primeiro lugar, diz-nos que, na opinião de Fernando Alexandre, o Estado, no qual ele é o representante da tutela, pode “transferir” a sua responsabilidade de gestão e manutenção da “coisa” pública, se esta for apenas usada ou dirigida para as classes mais baixas.
E em segundo lugar, perpetua o papel das classes mais baixas enquanto classe sem papel ou poder reivindicativo. Porque se a condição para a não degradação é a existência da classe média em convivência com a classe baixa, então a classe baixa torna-se figurante do seu próprio direito, empurrada para um papel subalterno.
Nada disto põe em causa o que devem ser ambições em ter um ensino superior de qualidade, com o seu acesso garantido a quem o quiser frequentar.
O Estado pode e deve aspirar a que as residências universitárias se tornem espaços de diversidade social, abertas à comunidade, talvez até em competição com o sector privado, arrefecendo um mercado que configura a maior despesa de um aluno deslocado.
Mas o problema mais urgente a resolver é outro: tendo em conta a falta de residências, a prioridade absoluta deve ser direccioná-las para os alunos mais desfavorecidos, evitando que o acesso ao ensino superior se torne dependente da classe social; e garantindo a sua manutenção e gestão cuidadas e próximas, aplicando mecanismos de responsabilização quer com os utilizadores, quer com os gestores mais directamente envolvidos (as universidades e os seus departamentos de acção social).
Só assim poderemos ter um Estado equilibrado e que garanta a redução de desigualdades de origem, permitindo que o elevador social que o ministro fala possa funcionar, evitando que se criem, pelo caminho, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda.






O que o ministro diz é vox populi:
O ‘pra quem é bacalhau basta’ põe os getores/ servidores mais relaxados.
O ‘ cada um com o seu cada qual’, quem está habituado a pouco, exige pouco.
Mas logo a ganga opinativa se apressa a mudar o mundo pelo ruído…
A horde que o defende não recebeu o memorando.
Pois. Talvez o melhor…
Seria tornar esse tal Vox Populi ministro.
Para poupar o Professor Doutor Catedrático e Tal Fernando Alexandre á maçada de ter de o estar permanentemente a citar.
E deve ficar mais barato, porque não consta que seja de luxos alimentares, de indumentária, etc.
O “pra quem é bacalhau basta” seria muito Menos oneroso.
A bem da Nação.
O Estado está ao serviço da “esquerda” e do “centrão”: a uns garante-lhes, até à morte, uma renda medíocre e, a outros uma renda alta. Quem está fora, não sabe o dia de amanhã, seja porteiro ou banqueiro (em condições diferentes, claro). Como a falência de 2011 provou, só a gente do Estado beneficia da “tutela da confiança”. Os “serviços públicos” são um meio de o Estado justificar a sua dimensão e a do seu esbulho, e de controlar e premiar clientelas. A qualidade dos serviços é indiferente, pois o seu escopo não é servir, mas assegurar as rendas do Estado e da sua gente. Como o Ministro disse, eles têm, cada vez mais, “exclusivamente utilizadores de baixo rendimento, que não têm voz”. A isto chama-se socialismo, é bom, e é o que as boas pessoas defendem.
A isto chama-se capitalismo com características neoliberais: os ricos recebem subsídios e pagam poucos impostos, o resto paga o funcionamento de tudo que é cada vez mais arrendado por via das empresas familiares.
Se os “ricos recebem subsídios” (é um facto, e alguns até só são ricos por isso) é porque o Estado é suficientemente grande e rico para lhos pagar. Se as “empresa familiares” dos políticos prosperam é porque é o Estado, e não o mérito que define o sucesso e o insucesso. Quanto mais poder tiver o Estado, quanto maiores os subsídios e as rendas mais valioso é o “acesso”. É a antítese do liberalismo.
E quanto menos tiver o estado, mais têm os feudos dentro do país, que ninguém se queixa de terem planeamento central.
Os pobres vencerão.
Lucas 6:20-21?
… e garantirão a sua pobreza.
Ora pois!
É sempre melhor que vençam os ricos.
Garantem a sua eterna nababice e os pobres, continuam pobres, como sempre foram e serão, mesmo que vençam.
Por essa razão o Oliveira da Cerejeira fez um grande esforço por manter a pobreza geral. Foi para não iludir os pobrezinhos.
Estranho, normalmente são preciso invasões, golpes de estado, bloqueios, bombardeamentos indiscriminados, e/ou uma enorme quantidade de propaganda direcionada.
Para se perceber o que ministro terá “declarado” ou não, aqui vai uma transcrição da fala do senhor:
“E para a mobilidade social, que eu gosto muito de falar, se há coisa mais importante e é por isso que eu sou um grande defensor da Escola Pública, se há coisa que é importante para a mobilidade social e para a democracia é a mistura de extratos sociais e aquilo que nós fazemos no Ensino Superior é não misturar, é pôr nas residências universitárias os estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos e por isso também já agora é que depois elas se degradam, é por isso que elas depois se degradam, é por isso que elas depois não são cuidadas e é por isso que eu devo-vos dizer, eu pedi ao CNIPES [Conselho Nacional para a Inovação Pedagógica] essa reflexão e essas ações, mas confesso que eu não estou nada otimista, nada, porque quando nós metemos pessoas que são basicamente todas de rendimentos mais baixos a beneficiar do serviço público nós sabemos que esse serviço público se deteriora, é assim nos hospitais, é assim nas escolas públicas, nós sabemos que é assim. E por isso que aquilo que nós vemos nas residências e que eu – espero enganar-me –, mas que provavelmente vai continuar a acontecer, é que nós vamos ter residências todas renovadas que daqui a cinco anos vão começar a degradar. Eu espero que não, mas isso vai ser preciso um esforço muito grande, a reinvenção por parte dos gestores dos serviços sociais, das universidades e dos politécnicos, porque aquele elemento que verdadeiramente faz a diferença, que é nós termos os diferentes estratos socioeconómicos a beneficiar do serviço público, aqui não vai existir, não vai continuar a existir.»
Repete-se:
“pôr nas residências universitárias os estudantes dos meios socioeconómicos mais desfavorecidos e por isso também já agora é que depois elas se degradam, é por isso que elas depois se degradam”. Sozinhas?
Não, porque os bons alunos que nos governam os desfinanciam para agradar aos contabilistas. Quanto as coisas caírem ainda mais aos bocados pode ser que queiramos outra ideologia, mas não conte que seja para breve.