Não me embalem

“Pelo quadro, dou-lhe um conto de réis; pela moldura, dou-lhe cinquenta contos”, dizia o potencial comprador de um quadro medíocre ornado de uma magnífica moldura. Lembrei-me desta cena enquanto assistia à enésima referência edulcorada à memória do presidente Kennedy. Verdade, verdadinha, é que em vão procuramos entre os disparates e dislates políticos – e, até, crimes – que tal personagem protagonizou, algo que justifique a adoração e mitificação a que se assiste. Já quanto ao cenário cultural, político e social do tempo não se pode dizer o mesmo.

Final da década de 50, inicio da década de 60. É o tempo dos sonhos, do emergir de uma nova era. É o tempo das lutas pelos direitos civis nos EUA, pela libertação do Vietname, de Cuba,das colónias em África. É o emergir da juventude como sujeito social. Na música, na literatura, na arte em geral, exalta-se o novo dia. É o tempo das revoltas poéticas. Tudo parece possível. Durante algum tempo, fomos melhores do que somos. Por razões pouco claras, quer-se que Kennedy surja como uma referência iconográfica desta época. Nada mais errado. Para lá do folclore, para lá de tudo o que envolve a sua morte, Kennedy não está com os que sonham. Está com os que os transformaram esses sonhos em pesadelos.