Viktor Orbán e derrota da oligarquia nacional-populista

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A queda de um autocrata é sempre motivo de celebração. Melhor ainda quando cai por dentro, sem derramamento de sangue. Sem violência policial ou tentativas de golpe de Estado. Sem terrorismo, vá.

Mas não foi só Orbán que perdeu.

Perdeu Putin, que ficou sem o seu cavalo de Tróia no Conselho Europeu.

Perdeu Trump, que viu cair o aliado mais importante em solo europeu, após se ter envolvido directamente na campanha e ter enviado Rubio e Vance a Budapeste.

Perdeu Netanyahu, que tinha em Orbán um defensor do genocídio em Gaza e da colonização da Cisjordânia.

Até Xi Jinping, que tem privilegiado a relação com a Hungria, pode sair a perder desta eleição.

Ganhou a democracia.

 

Porque Orbán não é um autocrata qualquer. É o padrinho de uma máfia de oligarcas que enriqueceu de forma espectacular à custa de fundos europeus, canalizados pelo partido de Orbán para ocupar a administração pública, ocupar empresas, formar think tanks, açambarcar os grandes contratos do Estado, disciplinar faculdades e adquirir quase todos os meios de comunicação privados, sendo que os públicos estão e continuarão a estar, mais algum tempo, nas mãos do Fidesz.

A descolonização não será fácil. Nunca é.

Este modelo mafioso, muito idêntico ao russo, foi exportado, de forma parcial ou total, para outras geografias. Influenciou a extrema-direita europeia, de Le Pen a Wilders, Salvini ou Abascal, é um dos ídolos do nosso conterrâneo André Ventura, e um dos políticos mais respeitados por Putin, Trump ou Xi. Goodfellas.

Ontem, na Hungria, esse modelo ruiu.

Esta é também uma derrota do nacional-populismo europeu. O Patriots for Europe, grupo de Orbán no Parlamento Europeu (que também inclui o CH) perdeu o seu único chefe de Estado no Conselho Europeu. Perda que partilha com Vladimir Putin, que tinha em Orbán o seu mais importante conselheiro na UE.

E, finalmente, é uma derrota dos inimigos da integração europeia. Após 16 de governação assumidamente eurocéptica, apesar dos braços sempre abertos para os fundos europeus, os húngaros escolheram o lado da União Europeia e não o lado daqueles que a querem destruir. Esmagaram Orbán nas urnas. E saíram às ruas, cantaram, dançaram, abriram champanhe e lançaram fogo-de-artifício. A democracia tem muitos defeitos, mas uma oligarquia corrupta e autoritária tem muitos mais.

Celebre-se o momento. A extrema-direita não é imparável. Mesmo com o dinheiro do seu lado. E não é todos os dias que vemos Putin, Trump, Xi, Netanyahu, Meloni, Le Pen, Wilders, Abascal, Farage e Weidel serem derrotados em simultâneo, de uma assentada. Abril tem destas coisas. Bonitas.

Comments

  1. JgMenos says:

    Como sempre, tudo que pareça a pior direita logo incendeia a esquerdalhada e a motiva a alastrar a tudo que se diga direita.
    Já na esquerda, convive com todo o mal como se não existisse ou estivesse em meritório caminho para atingir a perfeição – na idiota presunção que chegará a construir-se o homem/novo!

    • Qual homem novo, a direita existe para definir quem é homem e quem é outra coisa qualquer, numa hierarquia artificial que lhe convenha.

    • POIS! says:

      Pois claro, é preciso rigor!

      Há direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas e direitas!

      Esquerda é que só há uma!

  2. Ora bem, a oligarquia tem que passar para controlo de quem nem sequer é eleito em Bruxelas, onde é directamente comprada pelos lobbies imperiais e sionistas.
    Der Leyen bem celebra, com mais um empurrão para acabar com a democracia e a soberania acabando com o direito de veto.
    O que vale é que Lammy a encontrar-se com o “amigo JD Vance”, a pirataria marítima, o uso das bases para logística de crimes de guerra, leis a proibir críticas à colónia, violência policial contra protestos a genocídio e massacres, sanções extrajudiciais a jornalistas que ficam impedidos de todos os direitos, destruição dos direitos laborais, contratação de software de espionagem dos cidadãos, e outros mimos dos valores europeus não são a agenda da extrema-direita, senão não havia nada para celebrar.

    • “A derrota do nacional-populismo europeu” na véspera do cada país por si habitual na eurolândia, mas no contexto de uma enorme recessão, já salta a fase da comédia directamente para a da farsa.

    • «…a soberania acabando com o direito de veto»

      Não te chega o direito de sair e de te fazeres à vida?
      Pois…

      • POIS! says:

        Pois muito bem visto!

        O direito de veto é uma coisa muito perigosa!

        Já viram o que seria a Turquia a vetar? Ainda bem que há países de bem que a vetaram!

      • Chega, porque herdei para comer. Os meus colegas nem por isso, e vai continuar a acelerar o ritmo a que perdemos rendimento.

  3. Ah, os autocratas que se apresentam a eleições, perdem, e vão à vidinha deles… Até agora havia o Pinochet (mas esse, como era mesmo autocrata e mau como as cobras, ainda tentou dar o golpe), agora, a acreditar neste post, há o Orban. Quem anda nisto há algum tempo sabe que, gajo de direita que ganhe muitas eleições é logo promovido a “autocrata”, do De Gaulle ao Cavaco, passando pela Thatcher e pelo Tony Blair (que era de “direita” e um “criminoso de guerra” para a extrema-esquerda), e a acabar nos tipos da direita conservadora da Polónia, Eslováquia, República Checa, Croácia e Eslovénia. Tudo “autocratas”, até perderem as eleições e irem à vidinha deles.

    • Tou-me a borrifar para o resto, mas Pinochet “tentou” dar um golpe? Blair não recebeu elogios de Bush e Thatcher, não vendeu metade do estado e cortou o financiamento ao resto, não cortou direitos laborais, não apoiou uma guerra ilegal com motivos falsos e cheia de crimes documentados e por documentar?
      Saudades do tempo em que os autocratas eram quem impunha respeito à nobreza e burguesia rentista, agora só quem defende o sistema com um bocadinho mais de força e corrupção.

      • Pinochet “tentou dar o golpe” depois do referendo de 1988, que perdeu. Não sou um terraplanista dos que para aqui escrevem, para negar o golpe de 1973.

        • POIS! says:

          Pois mas…

          Olhe que está muito enganado. O golpe era mesmo mandar a malta esquerdeira da Terra abaixo, com uns safanões valentes!

          Como toda a gente sabe, o Chile está numa ponta da Terra. É só empurrar!

  4. balio says:

    O João Mendes parece ignorar que o tipo que ganhou a eleição húngara é um ex-membro do partido de Orbán. É um tipo com ideias políticas muito próximas das de Orbán. A diferença principal, que eu saiba, é que Orbán é um adversário da União Europeia e impede que a Hungria receba fundos da U.E., enquanto que o tipo que ganhou a eleição quer abrir a torneira desse fundos. Não é para mim claro que haja muito maior distinção entre eles do que esta.

  5. Netanyahu perdeu tanto que já foi convidado para uma visita oficial. A Rússia perdeu tanto que lhe vai continuar a comprar energia para não ficar sem país. Trump até treme com o armamento que lhe vai continuar a comprar.
    Já Xi vai continuar a abanar a cabeça e perguntar porque é que a Europa está tão interessada em tentar manter-se subimperialista que aceita voltar ao fascismo, mas em modo de auto-destruição rápida.

  6. José says:

    “Ganhou a democracia.”
    Com Magyar? Essa faz-me rir.

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