O Evangelho segundo Quentin Tarantino

Nada disto surpreende. Até porque a religião, para um extremista, raramente é convicção. Regra geral, é um meio para atingir um fim. E, no caso dos nacional-populistas americanos, é evidente que personagens sinistras como Trump, Thiel, Bannon ou Miller são a absoluta negação dos valores do Cristianismo. De todas as formas possíveis.

Mas não deixa de ser mais uma prova factual do quão vazio, mal encenado e patético tudo isto é, ver Pete Hegseth, o troll fundamentalista que dirige o Pentágono, usar o monólogo do Samuel L. Jackson na cena do apartamento do Pulp Fiction, durante uma oração do próprio perante militares e familiares do soldado resgatado no Irão, como se de uma passagem bíblica se tratasse.

Spoiler alert: não é Ezequiel 25-17. É Quentin Tarantino.

Para lá do patético, há um profundo desrespeito pela fé da qual se afirma guardião. Vender Tarantino por Bíblia, numa cerimónia solene, revela que nem Hegseth, nem os seus assessores se deram minimamente ao trabalho de construir um discurso e preparar uma intervenção com a elevação e o respeito que a ocasião exigia. Estão-se literalmente a cagar para tudo e para todos. Não se dignaram sequer a verificar se a fala daquele filme que um deles viu era mesmo uma passagem bíblica.

Isto, sim, é a bandalheira total.
O desrespeito absoluto.
A instrumentalização ordinária e canalha da fé cristã.
E, para um cristão verdadeiramente crente, um chorrilho de blasfémias e pecados sem paralelo.

Trump, Hegseth e restante seita, sempre a acusar os seus adversários de atacar a fé cristã, são, a este respeito, uma aberração.

À Segunda ataca-se o Papa.
À Terça ameaça-se exterminar uma civilização.
À Quarta-feira temos Paula White a vender indulgências e escolta angelical nas redes sociais. Sem se rir.
À Quinta é dia de Trump receber 20 pastores de outras seitas para lhe pôr as mãos na cabeça e encenar uma bruxaria qualquer.
À Sexta, a Gula, a Soberba e a Luxúria instalam-se em Mar-a-Lago.
Ao Sábado joga-se golfe e mandam-se uns tweets a ameaçar tarifar, invadir ou matar pessoas.
E ao Domingo, por respeito, publica-se uma imagem de Trump retratado como Jesus Cristo, a curar um doente, enquanto centenas fogem e morrem no conflito que o profeta do fascismo moderno decidiu começar no Médio Oriente. Por gut feeling e para fazer o frete ao amigo Netanyahu.

Sim, muito cristão. Foi mesmo isto que Jesus nos disse para fazer. Não há dúvidas que esta quadrilha é um instrumento de Deus na Terra.

Comments

  1. Dizem que ele e a audiência sabiam que era brincadeira e riam-se, mas o resto quase não se altera. E o quase é tudo; a culpa não é dos grandes homens da história, senão não só não estavam onde estão, como tinham resistência popular, cultural, política, judicial, ou militar. Não têm, muito pelo contrário, o terrorismo é eficiente sob os idiotas chapados porque o sistema já lá estava. Onde se inclui o apoio de facto e de jure da eurolândia.

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