Há um problema que me persegue no dia-a-dia, sobretudo quando saio de casa e tenho de frequentar locais públicos, ou locais que implicam a interacção com outras pessoas.
Este problema manifesta-se de várias formas: ou estou na estrada e alguém decide fazer uma rotunda completamente pela direita; ou estou num transporte público a ouvir, sem ter pedido, a sucessão de sons irritantes do telemóvel da pessoa ao lado, presa no scroll infinito num TikTok desta vida; ou então, fruto da destruição de todos os microfones de telemóveis, tenho de ouvir os dois lados de uma vídeochamada, como se ouvir um deles não fosse já castigo suficiente.
Lembrei-me destes e de outros exemplos ao ouvir Steven Pinker, no podcast 45 Graus, falar sobre a destruição do chão comum, a propósito do seu novo livro “Quando Todos Sabem Que Todos Sabem…”. Tendo por base o episódio do podcast apenas, os exemplos são claros o suficiente para merecerem uma reflexão.
Pinker argumenta, num racional bastante defensável, que se a grande maioria das pessoas começar a conduzir à esquerda, a nossa melhor decisão será fazê-lo também. Um argumento de coordenação, logicamente correcto, e aparentemente irrefutável, se pensarmos individualmente.
No entanto, se aplicarmos este racional a outros âmbitos, facilmente começamos a desvendar um problema que, em último caso, poderá colocar um fim à Humanidade conforme a conhecemos. E isto leva-me, sobretudo, às redes sociais.
Também nas palavras de Pinker, antigamente as televisões e os jornais eram um meio de propagação de informação que, sendo de massas, criavam um chão comum. As pessoas viam, genericamente, as mesmas coisas, o que criava uma teia que sustentava a sociedade. Não apenas no sentido informativo, mas também de entretenimento. Viam as mesmas séries, os mesmos filmes, e havia um corpo comum de cultura que era massificado e, por isso, importante para o diálogo entre a espécie.
O advento das redes sociais veio trazer montras individuais construídas via algoritmos que são, eles próprios, controlados por empresas tecnológicas que têm na mão o poder político. E isto cria um problema para a Humanidade: a destruição do chão comum que nos abrange a todos.
Findo o chão comum, o que resta? Um conjunto de indivíduos atomizados, o fim da verdade como conceito genérico e um mundo fragmentado em pequenas ilusões individuais, enfraquecendo a teia que une os humanos, salvo quando é assegurada por um ponto de contacto entre dois algoritmos individuais.
Este é o sistema para o qual a Humanidade caminhou. Um sistema assente numa ideia de capitalismo metabólico, fase presente e quiçá última, em que a própria crítica ao sistema (como esta que o leitor acede de momento) é feita dentro do sistema, utilizando as ferramentas do sistema — a internet, as redes, dependendo delas para chegar ao máximo número de pessoas —, entregue acriticamente apenas àqueles que já estão, à priori, interessados no assunto, quer a favor, quer visceralmente contra.
E visceralmente é a palavra certa. Porque nós, humanos, não estamos preparados para este estado de coisas. Continuamos a ver a informação que nos é individualmente servida como a verdade absoluta e inquestionável, e respondemos de uma forma tribal. A partir do momento em que estamos tribalizados, deixamos de orientar a crítica para cima, e passamos a orientá-la para o lado, para os pares. A teia destruída, por fim.
E quando a teia se destrói, perdemos o chão comum. Se a verdade individualizada que nos chega é para nós inquestionável enquanto verdade absoluta mas chega apenas a nós, o outro, aquele a quem a teia me ligava, passa a ser o inimigo. Vitória do sistema.
Um sistema que é uma ditadura encapotada. Há 8 anos, num evento inserido nas comemorações do dia mundial do livro e do 25 de Abril, questionaram-me se ainda vivíamos numa ditadura. Disse que sim. Mas pior, porque mais difícil de identificar. Um levantamento popular para a derrubar é impossível, pois a destruição do chão comum implica a mudança do inimigo de cima para o lado. Desse sistema para o nosso concidadão.
E termino este texto como saí do podcast: pessimista. A destruição do chão comum poderá levar ao fim da Humanidade como a conhecemos. E talvez como diz Pinker, a nossa melhor opção seja mesmo aceitar conduzir também à esquerda.







O camarada das viagens de Epstein e sionista fanático não fez carreira a dizer que o mundo estava cada vez melhor graças ao capitalismo liberal com valores ocidentais? É uma chatice que, de facto, esse chão comum desapareça; apesar de todo o esforço e dinheiro a ser gasto para que se torne tão fiável como a comunicação social que nos vende o que vende sobre o médio oriente, fora tudo o resto.
Se há um fundo de verdade, nunca haverá dali uma análise de que é uma inevitabilidade do sistema que necessita de crescente individualismo e da alienação.
Capitalismo não liberal sem valores ocidentais – China -seguramente o Marques nos dirá quais os seus méritos, logo que resolva escrever coisa que se entenda.
Sim, é redundante, mas há muitos dinheiro para ter a certeza que as pessoas acreditem que não.
Quanto à China, bem, produz, cresce, melhora as condições de vida, e consegue ser vista como um parceiro para a maior parte da população e governos mundiais, nenhum dos quais está nas cartas para o ocidente.
Pois, capitalismo…
Liberal ou não liberal? Com valores ocidentais ou sem valores ocidentais? Eis a questão!
Como diria o saudoso Dengue Xau Pingue (*) “tanto faz que JgMenos seja preto ou branco desde que cace ratos”.
E tinha muita razão! Foi o esquecimento deste ditado que deu origem ao problema do MV Hondius.
(*) Assim chamado porque inoculava os chineses, lavava-os com detergente a arranjava-lhes uns trocos ao fim do mês para se entreterem.
Conduzir à esquerda já está em curso desde há muito, quando exige que o disparate seja acolhido como regra, e que seja prestigiada a negação do real.
Daí a que todo o idiota se sinta ideólogo é mera consequência.
Com os meios disponíveis, a idiotice vê-se expressa quotidiana abundantemente.
Pois não se pode exigir mais clarividência! E com demonstração imediata!
Este brilhante comentário de JgMenos prova-se a si mesmo!
Se o César se sente incomodado com o ruído de um telemóvel, deve pedir à pessoa que o usa que o ponha mais baixo. A minha experiência pessoal diz-me que a maior parte das vezes isto funciona, ou seja, as pessoas colocam efetivamente o telemóvel mais baixo.
Pois, e no caso da condução pode-se também pedir “por favor, podia conduzir um bocadinho mais à direita, se faz favor?”.
Até para que ambulância e o carro de desencarceramento possam estacionar em melhor posição.
A maior parte das vezes isto funciona.
Muito bem. É um sentimento que partilho. O de pessimismo. Esse chão comum não existe mais. Resta-nos, como diz, conduzir pela esquerda.
Chão comum?
É um chão que não pertence a privados.
Tendes bom remédio:
é meter o vosso telemóvel no máximo com Pink FLoyd ou Genesis, e se os indivíduos näo perceberem a dica, é ouvir “Whole Lotta Love” dos Led Zeppelin ou “00” dos Aphrodite’s Child.
Quando näo podes vencê-los, junta-te a eles.
Como se diz lá na terrinha, ou há moral ou comem todos.
Apoiado!
Eu até proponho que se faça um “loop” com aquela parte do “Whole Lotta Love” em que o Robert Plant se manda do terceiro anel (muitos desconhecem, mas o tema foi mesmo gravado no antigo Estádio da Luz”).
Nem me lembrava era do “00”. Tenho o tema, mas já ouvi melhor, e não foi preciso escutar de ouvido na parede. Foi uma vizinha que tive há uns dois anos. Podia-se tentar encontrar e pedia-se para gravar uma ou duas vezes. Iam ver que batia a Irene Papas num instante!