Os limites da Propaganda e da Democracia

Comunicação e Propaganda são duas coisas distintas. Infelizmente estão cada vez mais confundidas e a propaganda tem ocupado o lugar que, numa Democracia pluralista, não lhe pode pertencer.

As instituições públicas têm que perceber que há limites para o uso de técnicas e truques que visam manipular os cidadãos que representam. E têm que perceber também que a Democracia marca linhas de fronteira na decência da comunicação, limites esses que um Estado fascista normalmente não respeita. É que um Estado fascista organiza-se e funciona de acordo com preceitos diferentes daqueles que são exigidos a uma Democracia.

A imagem que se reproduz acima foi recolhida durante um evento desportivo que reuniu dezenas de crianças oriundas de algumas escolas públicas de Vila Nova de Gaia, evento esse ao qual assistiram centenas de pessoas, a maioria das quais familiares.

Uma das equipas, composta por crianças cuja idade não ultrapassava os dez anos, apresentou-se no evento exibindo cartazes com a fotografia do presidente da Câmara de Gaia, Eduardo Vítor Rodrigues e do presidente de uma Junta de Freguesia.

Comunicação e Propaganda são coisas distintas.

A instrumentalização de crianças para fins de campanha política é outra coisa ainda, tão ignóbil e degradante que não caberá aqui classificá-la.

A “descentralização” como estratégia de privatização do Ensino Público

A proposta do governo que visa “descentralizar” recursos e competências do Sistema de Ensino público, entregando às autarquias “tudo menos professores e escolas da Parque Escolar” (DN), é algo extremamente preocupante e muito mais grave do que a polémica e aparentemente extinta questão dos contratos de associação.

Desde logo porque falta às autarquias a habilitação técnica, operacional, estrutural e democrática para assumir este nível de responsabilidade, e está colocada em causa a qualidade da Escola Pública, a sua gestão democrática, transparente e plural e, por essa via, o futuro do próprio país. O escrutínio da actividade autárquica, lugar privilegiado para o alastramento da corrupção, da opacidade e das redes de tráfico de influências, é extremamente difícil e limitado, sendo frequentes os casos de total impunidade ante comportamentos contrários à democracia, à “ética republicana” e, por vezes, à própria lei .

Finalmente, porque o verdadeiro objectivo desta proposta do governo é que os recursos e as competências “descentralizadas” vão parar às mãos das IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social) que gravitam em torno de algumas Câmaras Municipais e dependem, em grande medida, não só dos orçamentos municipais, mas do poder de influência que detêm junto dos aparelhos partidários locais e dos próprios executivos camarários.

Ou seja, sob o disfarce de uma pretensa “descentralização” de recursos e competências, assiste-se, na verdade, à privatização do Sistema Público de Ensino.

Degrau a degrau…

Um terço da população escolheu o mal. Já ouvi dizer que não se deve culpar o eleitorado; que as políticas até aqui seguidas é que estão a conduzir a este cenário. Em primeiro lugar, chegámos até aqui como resultado de políticas que foram votadas. E, em segundo lugar, o poder é do povo – por enquanto. Use-se.

França agrilhoada pelos políticos do medo

Os franceses elegem hoje o sucessor de Hollande, tendo, por opção de 45,31% deles na 1ª volta, a escolha entre Marine Le Pen e Emmanuel Macron. O sistema presidencialista francês, optou, constitucionalmente, por uma eleição dualista numa 2ª volta entre os dois candidatos mais votados, com o objectivo de proteger o seu país do vazio de poder e de presidentes eleitos sem uma maioria simples que legitime o seu poder.
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Evitando cair em crítica fácil por reducionismo, aponta-se, desde já, a principal virtude deste sistema – assegurar e reforçar a legitimidade do futuro Presidente, num sistema que o privilegia relativamente aos Parlamentos, sejam eles simples ou composto de câmara alta e baixa, como é o caso de França. No entanto, não podemos deixar de apontar alguns perigos para a Democracia que tal sistema comporta, nomeadamente dois, a saber:
1 – uma minoria pode obrigar uma maioria a votar em quem não se identifica [Read more…]

A entrevista de Passos Coelho

A recente entrevista do Dr. Passos Coelho à televisão só pode ser classificada como pungente.

A Democracia portuguesa precisa de oposição. Para que o sistema funcione de modo minimamente saudável, é necessário que haja um discurso de contra-poder e que esse discurso contenha um vestígio de racionalidade, de propostas alternativas, de crítica política sustentada na inteligência e na análise objectiva da realidade. Nada disso existe no discurso do Dr. Passos Coelho, que chega a ser confrangedor mesmo para quem apoia a actual solução governativa.

Se a liderança, cada vez mais ilusória, do Dr. Passos Coelho, representa, por agora, um seguro de vida para o governo do PS, ela é muito prejudicial à Democracia.

Contra a cobardia do assédio moral

Chegam notícias preocupantes, embora não surpreendentes, de um conjunto significativo de processos disciplinares instaurados a alguns dos seus trabalhadores por uma grande autarquia socialista. Estes processos são, segundo essas notícias, acompanhados por outras acções persecutórias, como a mudança compulsiva de local de trabalho, o esvaziamento de funções, a vigilância permanente da actividade nas redes sociais e diversos tipos de instrumentos punitivos e pidescos, característicos de outros tempos, de outras culturas e de outros regimes políticos, ofensivos da dignidade humana.

Sendo o processo disciplinar um mecanismo previsto na lei e que, como tal, está por ela formalmente legitimado, a perseguição laboral fundada em razões políticas, delito de opinião ou motivos que se prendam com a irascibilidade incontrolada de tiranos disfarçados de homens de bons costumes, não é aceitável numa Democracia. Constitui, aliás, a sua negação e é totalmente contrária à matriz doutrinária, cívica e humanista do Partido Socialista ou de qualquer organização que se funde no primado da dignidade humana. Acresce que estes factos não podem deixar de ser do conhecimento das forças políticas que compõem a oposição ao executivo autárquico em causa, tornando, evidentemente, essas forças políticas cúmplices de uma actuação totalmente inaceitável, ilegal e anti-democrática.

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A luta de classes no PSD

Passamos dias a fio a ouvir Passos Coelho e respectiva corte falar na ameaça que a Geringonça representa para a democracia. Estalinismo para aqui, ataque às instituições para acolá, o paleio é sempre o mesmo, os profetas são sempre os mesmos e a profecia, apesar de revestida de vincada parvoíce, lá vai sendo propagada pela imprensa de esquerda que é controlada pela direita. Um festim para quem gosta de se rir com estas coisas.

Mas eis que, no meio da confusão em que se transformou a estratégia do PSD para as Autárquicas, somos confrontados com um exemplo de autoritarismo de Passos Coelho, que após várias tentativas falhadas, parece ter finalmente encontrado o seu candidato à maior autarquia do país. Se a escolha irá recair sobre Teresa Leal Coelho, um nome literal demais para correr bem, em breve ficaremos a saber. O que já sabemos, pelo menos a julgar pelo desabafo indignado de Mauro Xavier, publicado ontem no Facebook, é que a concelhia lisboeta não foi tida nem achada nesta escolha.  [Read more…]

Por um país asseado

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António Costa, secretário-geral do Partido Socialista, esteve ontem a presidir à inauguração da nova sede do PS Gaia. Segundo relata o jornal Expresso, o primeiro-ministro centrou a sua intervenção na análise de alguns acontecimentos que têm vindo a dominar a agenda mediática nacional e no modo como certos agentes políticos actuam no exercício das suas funções e intervêm no espaço público e mediático, através do uso da palavra, do debate de ideias e da confrontação democrática de propostas políticas alternativas.

António Costa acusou a oposição ao governo de andar muito irritada com aquilo que ele classifica como sucesso do país, e de recorrer a “um exercício artificial de guincharia e insultos” para atacar o executivo e a maioria parlamentar que o apoia.

O secretário-geral do PS e primeiro-ministro de Portugal tem, obviamente, toda a razão. O espaço público democrático não existe sem o debate aberto e a confrontação plural de ideias, mas a própria democracia, a República e a dignidade das instituições que a constituem, não podem tolerar a virulência, tantas vezes delinquente, de verdadeiros caceteiros de rua que, frequentemente atolados na vigarice mas mascarados de gente séria, utilizam o insulto repugnante, o ataque pessoal infame e a mentira cobarde, para confrontar adversários políticos, internos ou externos, ou para simplesmente enganar o eleitorado mais desatento.

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Andas com pouco sentido de humor, comentador do Aventar

Como sabes, comentador do Aventar, eu sou de Esquerda. Mas de Esquerda mesmo Esquerda. Não deste PS travestido de Esquerda que hoje governa o país com o apoio da Esquerda mesmo Esquerda. Eu é mais PCP ou Bloco.
Mas desde que deixei de ser um aspirante a betinho do Pinheiro Manso sem qualquer consciência política, nunca mudei.
No blogue, também não. Bati sem descanso em José Sócrates e dei descanso à Direita. Bati como se não houvesse amanhã em Pedro Passos Coelho e esqueci os ontens de José Sócrates. E agora, para dizer a verdade, comentador do Aventar, não quero saber de Pedro Passos Coelho para nada e interessa-me é o que está este Governo a fazer. E sempre que estiver a fazer mal, António Costa há-de levar como levaram os outros. Isto porque tenho uma ideologia, mas não tenho grandes ilusões acerca do ser humano.
Sabes, vou dizer-te um segredo: o meu maior sonho era ver um Governo de Esquerda mesmo Esquerda a governar Portugal. Um Governo do PCP e do Bloco! Mas nesse mesmo dia, estaria na linha da frente para lhe bater sempre que fosse preciso.
Eu não mudei, pois. Mas algo mudou.
É que a certa altura, comentador do Aventar, vinhas para cá fiado de que ias ler coisas de Esquerda. E ultimamente – e como rejubilo! – a Direita voltou finalmente à luta e agora volta a haver um certo equilíbrio.
Isso não deve tirar-te o sentido de humor. Por exemplo: [Read more…]

E se os linguistas dão o alarme? Dêem ouvidos

deemNo Público de hoje, Rui Tavares, de modo muito avisado, chama a atenção para a importância de, no mínimo e com espírito crítico, darmos ouvidos aos historiadores, tendo em conta as perigosas semelhanças entre alguns acontecimentos da actualidade e outros que, no passado, vieram a dar origem a ditaduras ou a confrontos bélicos. O título do texto é “E se os historiadores dão o alarme? Dêem ouvidos”.

Esta tendência para não ouvir precisamente os especialistas é geral. Nos mundos profissionais em que me movo, é, até, grave. Na Educação, por exemplo, as opiniões dos professores são frequentemente desvalorizadas, com a desculpa de que são parte interessada e, portanto, desinteressante, deixando o espaço público inundado por especialistas de gabinete que tudo sabem (ou julgam saber) sobre o que deve ser uma aula ou uma escola.

Acontece que Rui Tavares é um defensor do chamado acordo ortográfico (AO90), tendo-se já pronunciado sobre o assunto com a frontalidade e o voluntarismo que o caracterizam, o que o leva, em relativa coerência, a declarar que adopta o AO90 nas suas crónicas, num jornal que continua a resistir ao uso desse instrumento, numa sã convivência de diferentes visões sobre a ortografia. [Read more…]

O Bem e o Mal, Soares.

Nasci depois de Abril e há experiências que, até por isso, não tive.

Tal como a Bárbara, também eu tive a bandeira na mão. Mas, a minha não era do mal. Com 12 anos a explicação que me davam em 86 era simples – o Soares é o bom. O Freitas? É o mau.

É a primeira experiência política de que me lembro. Tinha uma “espécie de colete” com sacos do Soares é Fixe. Os mesmos que deitaram abaixo a palmeira do Sr. José, pendurados num fio, que o camião do lixo, se calhar de direita, puxou até ao chão.

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Os comícios no Porto!!! Brutal!

A Avenida dos Aliados COMPLETAMENTE (mas mesmo COMPLETAMENTE!) cheia pelo povo, pelas pessoas boas. Recordo também, com saudades, as conversas que ouvia sobre o Freitas do Amaral e o que ele significava de regresso a 23 de Abril. Falava-se de política.

Daí, dou um salto ao dia em nos vimos (pensava eu na altura) livres do Cavaco. Corri para a mesma Avenida festejar a chegada de Guterres ao poder. Sem qualquer vida partidária até então, via em Cavaco um inimigo, o mau. Guterres era uma forma de libertação e, ao mesmo tempo, de esperança. Com Sócrates fugi da casa mãe. Senti um afastamento muito grande e, anos mais tarde, acompanhei de perto e por dentro o nascimento do Bloco que era, para mim, uma espécie de geringonça onde gente diferente se juntava em torno de um projecto comum.  [Read more…]

Subversão

2017-01-11

Donald Trump, goste-se ou não, foi eleito Presidente em eleições cujo resultado não sofreu dano de legitimidade por qualquer decisão judicial, ou outra de instância para tal competente. O que se está a passar na América é a total subversão da Democracia. O interminável folhetim Obama, com dedicatórias comovidas da primeira dama, últimos discursos intermináveis e uma ocupação total do espaço mediático, faz parte de um verdadeiro processo de Impeachment do presidente eleito, que teve início imediatamente após a sua eleição e decorre à revelia de qualquer mecanismo constitucional ou judicial.

O espectáculo que a América oferece ao mundo é o da implosão institucional de uma Democracia totalmente dominada por processos anti-democráticos, de guerrilha política, contra-informação e propaganda. Obama não fica bem na fotografia e os Democratas ficam pior.

Portugal, Soares e os outros

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Não é o momento para fazer julgamentos. Tivemos e usamos décadas para o fazer, continuaremos a fazê-lo dentro de alguns dias, mas a quantidade de ódio que se tem visto por aí, num país onde um tirano foi eleito, por esmagadora maioria, como o grande português da nossa história, soa-me algo bizarro. Temos sido salteados por diferentes actores políticos ao longo dos anos, incessantemente, e poucas são as personagens que granjeiam tamanha aversão, a ponto de haver quem celebre a sua morte em paragens supostamente democratas e honradas. Não obstante, devemos-lhe muito. Não acho que Mário Soares seja o maior, como tenho lido por aí, mas será, não tenho dúvidas, um deles. [Read more…]

Em defesa da democracia

Na sua forma actual de partido, o PS foi fundado em 1973, através da transformação da Acção Socialista Portuguesa, que havia sido criada em 1964. Nasceu e cresceu na luta contra o fascismo e pela instauração da democracia. A sua história identifica-se com a resistência à ditadura e a construção de uma democracia pluralista e socialmente avançada. Para o PS, a liberdade foi sempre o elemento essencial do combate por uma sociedade mais solidária, justa e fraterna, mais igualitária e coesa; e o pluralismo das ideias e das opiniões foi sempre a marca característica, não só do seu funcionamento e da sua acção como partido, como também do projecto que concebe para a organização política e social de Portugal e da União Europeia.

in Declaração de Princípios do Partido Socialista

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Medo e democracia

Sim, o referendo italiano era uma distorção redutora e maniqueísta de um conjunto complexo de problemas. Um golpe, portanto. Que, entre outras questões, evidencia a impossibilidade de discutir em profundidade o mérito das propostas em confronto, já que elas jamais se reduziriam a uma dicotomia tão simplória.

Terminados os actos, vejo, não sem surpresa, muitas pessoas a verberar aqui os votantes que escolheram o “não”, acusando-os de abrir as portas a eleições e, portanto, à ofensiva eleitoral da extrema direita. Ora, se nos lembrarmos que a Itália era governada por um comissário político não eleito e imposto pela força hegemónica na União Europeia, pergunto: desde quando este terror pela possibilidade de eleições tomou conta da nossa razão? O que vale o argumento segundo o qual os votantes do “não” estão ao serviço da extrema-direita pelo facto de quererem eleições?

Perguntando de outro modo e tentando compreender estes receios: o que é, agora, a democracia? Ou: o que vamos fazer do que fizemos da democracia? Era bom trocarmos umas ideias sobre o assunto.

Ideias feitas

Carlos Araújo Alves

Nunca a direita entrincheirada aceitará que Estaline, ao derrotar Hitler, permitiu que a Europa continuasse a viver em Democracia, nem a esquerda entrincheirada aceitará que Fidel, apesar da inicial libertação do seu povo do colonialismo, da constituição de um dos melhores sistemas públicos de saúde e de ensino, fosse um ditador feroz.
A vida é tecida destas contradições, cuja falta de liberdade de quem se mete em trincheiras de ideias feitas não consegue ver, quanto mais aceitar.

À espera de Le Pen

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O centrão político – conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas – anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o “comércio livre”, menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela “mão invisível” dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?

Facebook Ricardo Paes Mamede

Imagem via Financial Times

Taxi Driver

Das redes sociais às televisões, passando pelas conversas de rua e de café, parece existir hoje um consenso muito amplo acerca da personalidade de Donald Trump, o candidato do Partido Republicano à Casa Branca.

Talvez sentindo o perigo de uma eventual eleição de Trump, e querendo evitá-la, o mítico actor Robert De Niro gravou um vídeo onde profere um conjunto violento de insultos ao candidato, chamando-lhe, entre outras coisas, “cão”, “porco” e “vadio”. De Niro parece ter momentaneamente encarnado um dos seus muitos personagens sub-mundanos, que de forma tão sublime interpretou várias vezes ao longo de décadas, para fazer uma intervenção de natureza política, na pele de um cidadão como os outros.

FILM TITLE: Taxi Driver. STUDIO: Columbia Pictures. PLOT: Disrguntled war vet and cabbie Travis Bickle is a lonely man obsessed with pornography and violence. He longs to connect with a blonde goddess office worker, and to rescue/liberate a 12-year old prostitute named Iris from her predatory pimp. Both resist his efforts, and soon his frustration and alienation gives way to violence. PICTURED: MARTIN SCORSESE, ROBERT DE NIRO. (Credit Image: © Entertainment Pictures/Entertainment Pictures/ZUMAPRESS.com)

Credit Image: © Entertainment Pictures/Entertainment Pictures/ZUMAPRESS.com

Acontece que Robert De Niro não é um cidadão como os outros. É um actor extraordinário com notoriedade universal que, inevitavelmente, é admirado e tomado como exemplo por milhões de pessoas em todo o mundo. Independentemente das razões que tenha para atacar politicamente Donald Trump, e há muitas, De Niro tinha obrigação estrita e redobrada de o fazer de modo civilizado, de acordo com os padrões de urbanidade e respeito democrático que são a base dos próprios valores que parece defender a Constituição dos Estados Unidos da América. Estranhamente, ou talvez não, os seus insultos foram replicados pelas redes sociais como sinal e manifestação de assentimento e concordância com este modo inaceitável de defender a democracia e a liberdade de expressão. Isso diz tudo sobre o grau de degenerescência que atingiu a nossa ideia de cidadania e intervenção política.

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Peniche

Forte de Peniche, Portugal

Forte de Peniche, Portugal

 

Esta notícia do Observador dá conta de uma série de edifícios históricos que são ou vão ser concessionados a privados. Muita coisa se podia dizer em relação a este assunto. Podia dizer-se que se por um lado há formas de rentabilizar edifícios históricos que não incluem a transformação em hotéis ou restaurantes, por outro, na actual situação económica e até cultural do país, é inevitável que isso aconteça. E na realidade esta é uma forma fácil e rentável de aproveitar edifícios com excelente potencial e que estariam condenados ao abandonado e à degradação. Eu compreendo. Eu até concordo.

Em Oeiras por exemplo, o Palácio dos Arcos esteve abandonado durante anos e anos e agora é um hotel. O hotel não mudou a traça exterior do Palácio. De qualquer forma, o Palácio não é muito relevante historicamente – o máximo a que se pode arrogar é de que teria sido do Palácio que Dom Manuel teria visto as naus a partirem para a Índia. Bonito mas uma lenda. O caso do Palácio dos Arcos e a sua transformação em hotel é uma decisão acertada. O hotel veio dinamizar a região. Reformou e manteve um edifício pelo qual a autarquia nunca tinha mostrado interesse. E de facto, com todo o respeito pela memória histórica do Palácio dos Arcos, não se pode dizer que seja um marco importante da história de Portugal. Poderá sê-lo em termos de história local mas Oeiras tem outros grandes marcos como o próprio solar do Marquês.

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O Meio

© Público

© Público

O Partido Socialista é uma força social que cumpre um papel determinante no sistema político português. A sua acção doutrinária e operativa assenta numa matriz filosófica de grande relevância histórica, quer no contexto nacional, quer no contexto internacional, devendo-se à sua família política e filosófica alargada uma parte muito significativa daquilo que hoje é conhecido por “civilização ocidental”.
Ao Partido Socialista tem cabido a responsabilidade de ser um factor de equilíbrio dinâmico entre várias correntes de pensamento político, sendo o grau de dificuldade dessa tarefa singularmente elevado pela multiplicidade de tendências e visões do mundo que cabem dentro de uma organização plural, de génese humanista e tradição republicana.
Cabendo-lhe a função de ser o “meio”, de assegurar que a sociedade portuguesa é dirigida tendo em conta os princípios doutrinários e constitucionais de uma Democracia pluralista, não foram raras as ocasiões em que o PS pareceu ter adoptado posições políticas de “direita”, agindo num sentido que a muitos pareceu contraditório com a sua matriz ideológica e com os interesses específicos de uma significativa parte da população portuguesa que via no PS, legitimamente, um defensor dos seus direitos sociais.

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Queixa-crime contra o presidente da Câmara de Gaia

Entregarei amanhã, dia 30 de Setembro de 2016, nos órgãos judiciais competentes, uma queixa-crime contra Eduardo Vítor Rodrigues, actual presidente da Câmara Municipal de Gaia, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e membro do Secretariado Nacional do Partido Socialista.

A 28 de Agosto de 2016, o presidente da Câmara de Gaia publicou nas redes sociais um texto da sua autoria com o título “Gollum ou o culambismo”, documento que ficará seguramente a marcar o seu percurso enquanto homem e cidadão mas, mais do que isso, a figurar entre as maiores abjecções morais produzidas por um alto responsável político em exercício de cargo público.

Eduardo Vítor Rodrigues, presidente da Câmara de Gaia, não só atacou publicamente, de modo ignóbil e criminoso, o destinatário do seu escrito e a respectiva família, como rebaixou ao nível do grotesco a dignidade exigida à actividade cívica e política, a respeitabilidade do municipalismo português, da democracia representativa e dos órgãos de poder do Estado, aviltando pelo caminho a honorabilidade do próprio Partido Socialista, de que é um destacado dirigente nacional.

O dano causado pelo actual presidente da Câmara de Gaia será objecto de competente avaliação criminal, ficando, de todo o modo, evidente que Eduardo Vítor Rodrigues não possui os atributos políticos, éticos e humanos, indispensáveis à liderança de uma das mais importantes autarquias do país e a sua presença em orgãos dirigentes do PS é uma mancha na história deste importante partido da democracia portuguesa.

Redes de conspiração

Não é necessário ser particularmente versado nos mistérios da Sociologia para compreender a importância que as Redes Sociais e as plataformas digitais assumem hoje nos diversos planos da nossa vida comunitária.
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Lições do Brasil

Carlos Araújo Alves

1 – A Democracia não se basta com uma Constituição, com um aglomerado jurídico que a suporte, com eleições livres e universais; precisa de tudo isso, mas para ser efectiva a Democracia tem de estar fundada numa larga maioria de cidadãos democratas prontos a construí-la e a defendê-la.

2 – A descoberta e exploração de petróleo ajudou o PT a melhorar as condições de vida dos mais desfavorecidos; o “dumping” no preço do petróleo arrasou com o PT, com o Brasil e com a esperança de milhões de brasileiros em fugir à miséria.

3 – O PT falhou redondamente na sua promessa de erradicar a corrupção económica e política do Brasil; falhou e acomodou-se a ela. Imperdoável para quem defende ideais de justiça económica e social.

Esconder, encobrir, ocultar e impor!

parliamentsImagem: Iniciativa Europeia contra o TTIP e o CETA

Na sexta-feira passada, a bancada do partido alemão „Die Linke“ (digamos, o BE português) apresentou no parlamento alemão uma moção contra a aplicação provisória do CETA, o acordo de livre comércio e investimento da UE com o Canadá (correspondente ao TTIP com os EUA). Numa sala quase vazia, foram discutidos os prós e contras, a natureza mista ou não-mista do CETA e ainda pretensamente divisadas as partes que são da competência exclusiva da UE. No fim, como era de recear, em vez de ser votada no parlamento, a moção foi remetida para as comissões relevantes. [Read more…]

Angola: à direita, nada de novo

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Em teoria, MPLA e PSD professam da mesma ideologia: ambos se assumem como social-democratas. No mundo real, os primeiros agem como os colonos que outrora combateram, explorando um país vasto em recursos, enquanto a esmagadora maioria da população definha. Os segundos, reféns de uma variante muito particular de liberalismo, sacrificaram o Estado Social em detrimento dos apetites do capital privado. Muito mais é o que os une, do que aquilo que os separa.

Sem surpresas, o PSD integrou a coligação (im)provável que chumbou os votos de condenação apresentados por PS e BE contra a prisão dos activistas angolanos que ousaram debater e lutar pela liberdade. Tal como o CDS-PP, a argumentação dos “social-democratas” não difere muito da argumentação dos comunistas: soberania e não-ingerência nos assuntos internos de Angola. [Read more…]

Respostas para a crise no Brasil?

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Escrevi, há dias, um post sobre a crise no Brasil que, mais do que respostas, fornecia perguntas. A minha ignorância, a distância, o desconhecimento de muitos dos protagonistas e dos seus interesses e ligações, a não verificação da verdade ou da mentira nos “factos” mediáticos, a velocidade dos acontecimentos e a minha própria estupefacção, tudo isso me aconselhava a ter mais dúvidas do que certezas.

Nestes dias vertiginosos fui procurando entender melhor a situação. Avancei pouco e, separado o joio, quase não me sobra  trigo.

Duas ou três certezas,  tenho: o país está divido, a Política e a Justiça não estão devidamente separadas (e ambas albergam muita gente pouco recomendável), o regime (não me refiro ao governo) precisa de refundar-se, a corrupção é transversal e endémica – chegando-se ao ponto de indiciados e pronunciados por corrupção se atreverem, sem um pingo de vergonha ou de oposição no interior dos seus próprios partidos, a acusar, apreciar, votar e pertencer a comissões de investigação de corrupção (aqui chegados, estamos no grau zero da credibilidade)-, a democracia corre riscos evidentes de sequestro. [Read more…]

Brasil: o povo na rua?

Brasil

Flutes, iates, limousines e extrema-direita. Eis a face visível da agenda política que procura aproveitar o tiro no pé do governo de Dilma para regressar ao passado de opressão e exploração do povo brasileiro. Os tais que se manifestam pelo fim da democracia. Que se manifestam contra o direito de se manifestar. Irónico e triste.

Fotomontagem via Diário de uma Cadeirante Cinefila

A degenerescência da República

É perigosíssimo o circuito fechado da partidocracia, que tende a criar uma espécie de Estado paralelo não sujeito à vigilância ou julgamento democráticos. Os construtores deste Estado totalitário e paralelo, em tudo idêntico a uma grande associação secreta, perdem totalmente a noção do que é o país, sequer que ele existe, e vivem uma narrativa fechada sobre si própria, cuja lógica funcional é a da conquista, partilha ou manutenção do poder.

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A União Europeia e a Democracia

O caso grego já tinha demonstrado que a União Europeia só é compatível com a Democracia quando há governos de direita no poder, ou seja, quando as escolhas livres dos povos coincidem com os dogmas de Bruxelas, Berlim e Estrasburgo. A médio prazo esta situação não é modificável. Ao governo português e à maioria que o apoia será exigido um esforço e uma capacidade de resistência inéditos, quer na nossa história democrática, quer na de cada um dos partidos em causa.

A ditadura da democracia

Consta que Churchill terá dito na Câmara dos Comuns, a 11 de Novembro de 1947, que “A democracia é a pior forma de governo, à excepção de todos os outros já experimentados ao longo da história.”

A tónica a reter é forma de governo, já que fora da política muitas outras formas de organização existem na sociedade.

Quando eu era músico, o meu maestro dizia que ele era o ditador da batuta. E era.  Imaginem o que seria, por exemplo, uma valsa ter a cadência decidida por maioria. Ou pensemos numa empresa gerida democraticamente, sendo as decisões estratégicas tomadas por votação. Ou, ainda,  o que seria da coesão de um grupo se os seus elementos não fossem unanimemente aceites por todos.

Poderá haver quem ache que todos os grupos se devam reger como se fossem organizações políticas ou projectos de poder, mas há que ter a inteligência suficiente para perceber que a realidade é outra. E isto é um facto, seja em que século for.

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