Os talibans de Varsóvia e o futuro da democracia

O governo polaco quer impor penas de prisão até dois anos para quem for apanhado a blasfemar. Isso mesmo: quem fizer piadas sobre a Igreja Católica vai dentro. Aquela vibe sharia. E a União Europeia, que se apresenta hoje como o último reduto de liberdade e democracia, continua a revelar uma tolerância preocupante com estas manifestações de despotismo e fundamentalismo religioso, sem impor qualquer tipo de consequência à deriva autoritária que é contrária aos seus princípios fundadores. Tal como acontece com Orbán, que há dias fez um discurso tão racista, tão xenófobo que uma colaboradora de longa data se demitiu e acusou o PM húngaro de usar um discurso que não se distingue do nazi.

É mais um teste de resistência às democracias liberais, num momento de profunda fragilidade, de guerra e de provável mudança radical no status quo internacional. Os estragos que o nacionalismo protofascista causou nos últimos anos, e em particular nos últimos meses, da tentativa de golpe de Estado nos EUA à invasão da Ucrânia, poderão facilmente atirar-nos para uma distopia orwelliana, que de resto já se começa a desenhar do outro lado do Atlântico, onde uma guerra cultural e ideológica ameaça o equilíbrio de forças do concerto das nações.

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Bolsonaro acusa polícia brasileira de incompetência

Mais um golpe de Estado em marcha.

A NATO e a farsa democrática que nos rebentará nas mãos

O ano de 2022 tem sido fértil em tragédias e desilusões, com a invasão da Ucrânia à cabeça, perpetrada por esse antigo investidor de referência do neoliberalismo dirigente, hoje convertido em hitleriano ditador, a quem, ainda assim, continuamos a comprar commodities.

Contudo, do Kremlin nunca esperei democracia. Daí que considere mais preocupante, no que ao nosso modo de vida e à democracia diz respeito, assistir à capitulação da Suécia e da Finlândia, que se ajoelharam e ofereceram a democracia numa bandeja a outro ditador, que só não rosna mais por não se lhe conhecer arsenal nuclear.

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Tiananmen-Ocidente-Kiev

O “incidente” de Tiananmen, eufemismo que o regime chinês usa a propósito deste horrendo episódio, fez ontem 33 anos. Foi um massacre, sobretudo de estudantes, que lutavam pela liberdade e por uma China democrática. Não sabemos quantas pessoas morreram, mas estima-se que possam ter sido alguns milhares.

E o Ocidente, sempre disponível para acudir às aspirações democráticas alheias, o que fez?

Fez o que sabe melhor: assobiou para o lado durante anos, para depois abrir as portas da OMC ao regime, garantindo lucros extraordinários a um punhado de aristocratas do capitalismo, cujo custo foi a destruição da capacidade produtiva de muitos Estados ocidentais, como é o caso do português.

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A escolha fácil entre Macron e Marine Le Putin

A vitória de Macron era expectável, mas não estávamos livres de uma desagradável surpresa. Felizmente, a extrema-direita fez aquilo que sabe fazer melhor: não passar. E não passou.

Se Macron seria o meu candidato, fosse eu francês? Seguramente que não.
Se eu votaria nele na segunda volta?
Sem pestanejar.
Quando as escolhas são todas más, opta-se sempre pelo mal menor. E Macron, na pior das hipóteses, era o mal menor. Infinitamente menor que a emissária de Putin no centro da Europa.

No Kremlin, as garrafas de champanhe voltaram para o frigorífico. Havia esperança, proporcional ao medo do lado de cá, mas Putin acabou por ser o grande derrotado da noite. Putin, Salvini, Orbán, Farage, Gauland, Wilders, Abascal, o coiso e todos os novos fascistas que sonham com uma Europa dividida, à mercê do Kremlin. Como diria o grande Diego Armando Maradona, “que la chupen y sigan chupando”.

P.S: Para aqueles que continuam a normalizar o CH, a começar pelo PSD de Rui Rio, notem que Ventura e Putin estiveram no mesmo coro de apoio a Le Pen. Porque, no fundo, jogam todos na mesma equipa, diga o CH o que disser no Parlamento. Querem sentir o pulso à extrema-direita portuguesa? Ide ler a carta de amor de Maria Vieira ao regime russo.

Viva o 25, sempre!

Viva o 25 de Abril porque nos abriu a porta da liberdade, da democracia. Viva o 25 de Novembro porque iluminou o caminho da mesma. Viva. Sempre.

The Daily Show: Macron vs Le Pen

Fotografia retirada de opendemocracy.net

Ela (Marine Le Pen) revê-se em Putin? Quer dizer, sendo justo, perguntaram-lhe sobre Putin em 2017, e na altura ele só adulterava eleições e envenenava pessoas. Era demasiado cedo para estar contra Putin. Fora de brincadeiras, foram visões como esta que levaram a que Le Pen não vencesse as eleições presidenciais francesas em 2012 e em 2017. Mas, tal como um Terminator, Le Pen fica mais esperta a cada sequela e é isso que a torna realmente perigosa. Depois das últimas eleições, Le Pen começou a reformular-se, agora como uma ‘afável e gentil’ racista. Sim… ‘será que o posso levar de volta para a sua terra, cavalheiro?’… E a forma como o fez foi simplesmente deixar de falar tanto sobre esses assuntos, sem nunca abandonar as visões fascistas. Basicamente, é como quando estamos numa reunião no Zoom e o enquadramento só mostra aquele canto muito arrumadinho do nosso apartamento; mas isso não apaga o facto de continuar a haver uma família de doninhas a comer restos de comida chinesa no nosso sofá. Percebem o que digo? É o mesmo mundo. E Le Pen não começou a ‘moderar’ apenas as suas palavras, mas também renovou a sua imagem para cultivar uma imagem mais ‘amável’ dela própria. E é aqui que se encontra a França, a caminho das eleições do próximo Domingo: um candidato à reeleição, um moderado que com fraca aprovação por parte do povo, espera derrotar uma aliada de Putin, xenófoba, que regressa para uma última tentativa de eleição. É por isto que gosto tanto da política francesa: é tão diferente da dos EUA…

Trevor Noah no seu The Daily Show.

Quanto a ligações e/ou adorações a Putin, não nos esqueçamos (apesar desta panóplia de batedores no PCP): do VOX de Espanha a André Ventura e ao seu CHEGA em Portugal; de Marine Le Pen na França a Viktor Orbán na Hungria, passando por Trump, nos EUA, sabemos quem depende, directa ou indirectamente, do proto-czarista russo, por mais ou menos maquilhagem que coloquem – nada vos tapará a real face. 

Não te enterres mais, PCP

Acho piada, mesmo muita piada, àquela malta do PCP que fica muito indignada por ver o seu partido debaixo de fogo, devido às posições ambíguas e altamente duvidosas sobre a invasão da Ucrânia, quais caixas de ressonância da propaganda do Kremlin, a dizer que o Zelensky é um facho e um nazi e mais não-sei-o-quê, e que o PCP fez muito bem e não estar ontem na Assembleia da República a ouvi-lo, porque ele baniu partidos e até levou um peido nazi da escumalha Azov ao parlamento grego. Sim, tudo isso é verdade. Imagino que Estaline também não terá morrido de amores quando teve que dar as mãos aos capitalistas para derrubar Hitler. Mas permitam-me um “foda-se” introdutório para vos dizer isto: quantos partidos existem mesmo no parlamento daquele regime que todos os anos é convidado para a Festa do Avante, chamado Coreia do Norte? E quem é que anda mesmo a financiar tudo o que é facho por essa Europa fora?

Exactamente.

Vá, deixem-se lá de merdas e não se enterrem mais.

Elon Musk, o Twitter e os outros

A tentativa “hostil” de Elon Musk tomar conta do Twitter tem sido tópico de discussões acesas. Podemos confiar tão poderoso instrumento de geração e partilha de informação a um homem só, ainda por cima tresloucado? Que ameaça poderá representar este homem, tão poderoso, com ainda mais poder?

É interessante assistir a esta discussão, quando o próprio Twitter tem, entre os seus accionistas, um príncipe Saudita e vários fundos abutres. Quando Bezos é dono do Washington Post e a grande maioria da imprensa mundial está nas mãos de oligarcas do bem. E mesmo que Musk tomasse conta do Twitter, que é uma empresa privada como outra qualquer, ainda ficaria a anos-luz de Mark Zuckerberg.

Qual será, então, a nova ameaça que o dono da Tesla representa?

Suspeito que nenhuma. Suspeito, aliás, que terá incomodado alguém com poder, para estar agora debaixo de fogo. Ou então é circo para entreter o povo, que se vai esquecendo que o essencial não é quem manda nas redes, mas a ausência de regulação sobre o imenso poder das tecnológicas.

Até onde estamos dispostos a ir para defender a democracia?

Pensar o futuro das relações entre o mundo democrático e as várias ditaduras na dependência das quais nos colocamos, em maior ou menor grau, é um debate que já devia ter feito correr rios de tinta. Ao invés disso, assistimos ao reciclar dessa relação tóxica, quando vemos, por exemplo, Boris Johnson a anunciar ao mundo o embargo à energia russa, que será substituída pela saudita. E uma pessoa fica logo mais tranquila, por saber que o ditador que envenena opositores no estrangeiro e está a tentar esmagar a Ucrânia será substituído por um ditador que fatia opositores no estrangeiro e está a tentar esmagar o Iémen. É reconfortante.

O próprio conjunto das democracias é, em si mesmo, uma agremiação sui generis. Inclui a Hungria e a Polónia, como se iliberalismo e autocracia não fossem uma e a mesma coisa, apresenta Singapura como um modelo elogiável e ignora os abusos das monarquias absolutas do Médio Oriente, não vá a liberdade dos mercados sentir-se ameaçada. Tirando um par de regimes que, por razões que a própria mão invisível desconhece, são excluídos. Temos ainda o elefante que nunca saiu da sala, e que no plano interno é uma democracia, no doubt about that, apesar de uma política externa que acumula invasões mais ou menos oficiais, falsas bandeiras, golpes de Estado, orquestrados ou patrocinados, e inúmeros crimes de guerra e violações do direito internacional, de My Lai a Guantanamo, com escala em Bagdad, Bagram e Abu Ghraib. Em todos estes casos, ainda que de formas diferentes, os princípios democráticos e liberais que nos definem – ou deviam definir, para bater a bota com a perdigota – foram e são constantemente violados, servindo posteriormente de argumentário para eficientes manobras de whataboutism, por parte das diferentes máquinas de propaganda das autocracias, como a russa, que aposta na China e noutros inimigos ou lesados do Tio Sam. Há boa informação disponível sobre o seu funcionamento, e inúmeros testemunhos de soldados e civis que estão absolutamente convencidos que todos os ucranianos são nazis, disparam mísseis contra a sua própria infraestrutura e são a encarnação moderna do III Reich.

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Le Pen, uma bomba-relógio

A crónica de Daniel Oliveira na TSF é um excelente exercício que merece ser lido ou ouvido. Não estamos imunes a igual desfecho.

Conversas Vadias 52

Na quinquagésima segunda edição das Conversas Vadias, marcaram presença os vadios António de Almeida, Carlos Osório, José Mário Teixeira e Orlando de Sousa, que conversaram sobre programa de Governo, cultura, mérito, esperteza, chico-espertismo, Manuel Pinho, habilidade, tartarugas, Ricardo Salgado, avença, alzheimer, fé, mentalidade, F. C. Porto, marés, bipolaridade, Pedro Passos Coelho, mitologia, infantilidade, individualidade, grupo, sociedade, liberalismo, formação de preço, selvajaria, regulação, ambição, ganância, justiça, prioridades, funções do Estado, administração pública, promiscuidades, democracia, código de conduta, sistema eleitoral, educação, ideologia, radicalismo, programas e Estado de Direito Democrático.

No fim, e para variar, as habituais sugestões:

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Aventar Podcast
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Conversas Vadias 52







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Zelenskyy VS Putin: o herói acidental e o odioso tirano

Existe um motivo, quer-me parecer, que faz com que Vladimir Putin não queira encontrar-se num frente a frente com Volodymyr Zelenskyy. Mais do que ser a personagem mais odiada do planeta, no presente momento, o que contrasta com a aura de último grande herói do presidente ucraniano, Zelenskyy é, literalmente, a antítese de Putin.

O primeiro é um actor e humorista que decidiu enveredar pelo mundo da política, como é seu direito (eu “punha” muito rápido o RAP, o Bruninho, a Cátia Domingues, o Markl, a Joana Marques ou o Diogo Batáguas no lugar de 80% dos deputados que estão na AR, sem pestanejar), e que agora lidera, com bravura e uns imensos tomates, a resistência à violenta invasão de um tirano que não pode argumentar estar rodeado pela NATO para invadir, esmagar e ocupar um Estado soberano que nem sequer integra a Aliança. Até porque os mísseis dele também estão apontados para cá. O argumento é real, mas não legitima, de forma alguma, a destruição em curso. Para “libertar” o Donbas, não precisa de sitiar Kiev ou bombardear Mariupol. Putin, um dos maiores financiadores da extrema-direita europeia, ele próprio um ultranacionalista, não quer desnazificar coisa nenhuma. Quer, apenas e só, decapitar e substituir o poder político ucraniano, para lá colocar outro do seu agrado.

Nenhum argumento, real ou ilusório, justifica uma invasão militar. Resistir é a única saída, mais ainda para quem recusou uma extradição segura e um exílio de luxo no outro lado do oceano. E essa é a grande afronta, talvez a maior de todas, que Zelenskyy poderia fazer ao rei-sol do Kremlin, que o olha com desdém e indigno, ele ao seu povo, de existir como nação. E eles a resistir, outnumbered and outgunned:

  • If I was in World War III they’d called me Spitfire.

A música anda sempre à frente do seu tempo.
Adiante.

O segundo é um carreirista de dois regimes, sendo hoje proprietário de facto do segundo. Começou nos serviços secretos, fez-se a vida, subiu até onde pôde e deu o salto para a política, como qualquer carreirista que se preze. Foi, desde sempre, do sistema. Mas a escalada foi impressionante, seguramente apoiada nos mesmos métodos que aprendeu e desenvolveu – com mestria, diga-se – no KGB, e é hoje o senhor absoluto da Federação Russa. Algo que lhe poderá até correr mal, mas outro dia lá iremos.

Putin é o sistema. No seu expoente máximo. O grande irmão que tudo controla, que corrompe, que persegue, que discrimina, que agride. O sistema elitista que dizima quem se lhe opõe. Que tortura, envenena e mata. Putin é a negação da democracia. E a democracia também tem os seus pequenos putin-minions, que o digam iraquianos, iemenitas ou vários povos da América Latina. Acontece que, por cá, temos o poder de lhes tirar o poder. Algo que não acontece na Federação Russa. Não é uma diferença de somenos. Faz toda a diferença. Toda.

Há muito que pode ser dito e apontado a Zelenskyy. Deixarei esses factos para outro dia. Mas não existe comparação possível entre um tirano e um político imperfeito, como o são todos, em maior ou menor grau. Em todo o caso, Zelenskyy é hoje a figura mais aproximada a líder do mundo livre, ainda que acidentalmente. Pela coragem, pela determinação e pelo exemplo. Quando os americanos saíram cobardamente do Afeganistão, ainda “ontem”, Ashraf Ghani foi o primeiro a pôr-se a milhas. Com uma mala cheia de dólares. Zelenskyy podia ter seguido a mesma via. Podia ter sido o Puidgemont que fugiu para o exílio em Bruxelas. Mas ficou. E talvez venha a morrer nas próximas semanas. Mas é ele, não as armas “cedidas” pelo Ocidente, um dos poucos que poderão dar a vitória, altamente improvável, à Ucrânia. A História contará a sua história. Cantará a sua história, concorde-se ou não com ela. Já Putin será apenas mais um merdas do Hall of Fame das abominações, à mesa com Hitler e Estaline. No esgoto da História. Para ser odiado para sempre, excepto por aquela malta que, por motivos variados, opta por branquear o ocasional ditador. A democracia tem destas coisas. É uma brincalhona.

Entretanto em Cuba…

Em Julho do ano passado (11 e 12) na cidade de Habana muitos cubanos manifestaram-se a exigir democracia, liberdade. Muitos foram espancados e outros foram mesmo presos. Ontem, o Supremo Tribunal de Cuba anunciou as sentenças: 31 manifestantes pela liberdade foram condenados a penas de prisão entre os 20 e os 30 anos. Outros 25 foram condenados a penas de prisão entre os 15 e os 19 anos. Já 48 manifestantes pela democracia apanharam penas de prisão entre os 10 e os 14 anos. Só um dos manifestantes presos foi absolvido. Em Cuba.

Sobre as manifestações pela liberdade e pela democracia levada a cabo pelos cubanos em Julho de 2021, o PCP reagiu com uma nota à imprensa onde, para além de outros “potantoto” dizia o seguinte:

O Partido Comunista Português expressa a sua solidariedade com Cuba, o Governo e o povo cubanos que, enfrentando uma situação exigente e complexa inseparável da intensificação da acção de ingerência e de agressão do imperialismo, se empenha de forma determinada no combate à epidemia, na defesa da sua soberania e independência e dos seus legítimos direitos, incluindo ao desenvolvimento.

Realmente, o PCP é como o algodão….

 

 

 

 

Margaret Thatcher sobre as sanções aplicadas à Federação Russa

O problema do capitalismo de casino é que ele só dura até acabar o dinheiro dos regimes ditatoriais.

Margaret something

O que vale é que podemos sempre salvaguardar os princípios democráticos e substituir o Putin pela joia de moço que é o Bin Salman.

De ditador em ditador, até à descredibilização final

Muito se tem falado sobre os PCPs desta vida, e respectivas posições sobre a invasão da Ucrânia (e muito bem), mas muito pouco sobre certos e determinados quadrantes ideológicos, que conseguem fazer igual ou pior, sempre daquela forma hipócrita e dissimulada que os caracteriza. São todos muito democratas excepto quando a economia exige a capitulação perante os interesses económicos que mandam nisto tudo. E eles capitulam, sem pestanejar. Ou, parafraseando o CEO da Volkswagen, “Limitar a actividade a países democráticos não é um modelo de negócio viável para os fabricantes”. Esclarecedor.

Vejamos, por exemplo, o caso dos impolutos conservadores britânicos, grandes guardiões da democracia, que passaram anos a receber milhões de rublos da oligarquia russa, sabendo perfeitamente a proveniência desses financiamentos, o que nunca os fez recuar. Nem cleptocracia oligárquica nem os envenenamentos de opositores de Putin por terras de Sua Majestade, como os casos de Alexander Litvinenko e Sergei Skripal.

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Somos todos de Esquerda ou de Direita mas….

Os mandamentos do pensamento único:

Se és de direita não te podes manifestar contra o capitalismo selvagem que prefere produzir onde os direitos dos trabalhadores são uma miragem. Se és de direita não podes denunciar os desmandos dos dirigentes dos partidos ideologicamente próximos do teu pensamento político (deve ser por isso que o PCP não pode criticar a Coreia do Norte). Se és empresário e ainda por cima de direita não podes criticar as empresas, sejam ou não tuas concorrentes, por produzir em países não democráticos com tudo o que isso significa de concorrência desleal e de asfixia aos direitos mais elementares (sejam eles laborais ou humanos). Não podes.

Caso contrário, és um sacana de um comunista. É isso? Com ou mais molho? Agora percebo melhor a posição do PCP. Realmente, não pode criticar. Porque são os seus. Uns sacanas mas são os seus sacanas. Ainda não tinha percebido essa regra. Caramba, andei eu a criticar o PSD, o CDS ou a IL de quando em vez e não podia. Raios… Tenho de colocar umas palas para ser politicamente correcto como exige o mainstream…

É o Capitalismo, Fernando!

O meu camarada Fernando Moreira de Sá ficou chocado com as declarações do CEO do Grupo Volkswagen, que afirmou que a empresa não pode vender apenas em países democráticos. Mas a coisa consegue ser ainda mais complexa e desavergonhada. A Volkswagen, como outros gigantes dos mercados ditos livres, não se limita a vender carros aos regimes mais violentos e totalitários. Consegue ter a distinta lata de distinguir entre ditaduras do bem (China, Federação Russa, Arábia Saudita, Qatar) e ditaduras do mal (Cuba, Coreia do Norte), provando que, mais do que o regime, importa saber o preço certo em euros das multinacionais ocidentais. A este respeito, o capitalismo é uma prostituta da mesma categoria do mini-Putin que anda pelas TVs a debitar propaganda pró-Kremlin.

Miguel Esteves Cardoso sobre a importância do PCP

Grande comuna, este Miguel Esteves Cardoso. Na volta também anda às ordens do Kremlin. Ou então, como a senhora embaixadora da Ucrânia, poderá ter um familiar refém na Soeiro Pereira Gomes. Nunca se sabe…

Markos Leivikov: o oligarca preferido do jet set português

Já passaram dez anos, desde aquele réveillon em Cascais, marcado pelos diamantes e pela boa disposição. O anfitrião, proprietário do chiquérrimo Farol Design Hotel, era Markos Leivikov (na foto, à esquerda), oligarca russo com ligação directa a Putin e a outros oligarcas da rede de crime organizado dirigida a partir do Kremlin.

Não surpreende, esta proximidade entre Leivikov e o jet set português, também ele repleto de tios e tias, maridos e mulheres dos oligarcas locais, pendurados nos negócios do Estado e nas mais variadas formas de corrupção e tráfico de influências. Fazem parte do mesmo habitat natural. Leivikov, no fundo, é aquele animal selvagem, proveniente de um destino longínquo para dar um toque de exotismo ao zoológico da cleptocracia nacional, e ser admirado pela corte de percevejos eco-chiques da Comporta, agora que os oligarcas angolanos estão em vias de extinção.

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Há mais vida para além do medo # 1 – O exemplo do Tenente Columbo

Num passado recente, disse-se que “há mais vida para além do défice”. Mais tarde, e paulatinamente, começou a desenvolver-se a ideia de que “há mais vida para além da pandemia”. Hoje, diria que “há mais vida para além da guerra”.

Curiosamente, existe um denominador comum ao défice, à pandemia e à guerra, enquanto temas fulcrais – para não dizer únicos – da actualidade, em cada um dos momentos: o medo.

Enquanto instrumento que mantém activo o nosso sistema de vigilância, o medo é essencial para que estejamos atentos ao que se passa em nosso redor e às interacções com o tempo, o espaço e os outros, que fazem parte do nosso quotidiano. É o que nos mantém em alerta quando atravessamos a rua, quando falamos com alguém, quando tomamos uma decisão.

Mas, o medo é, também, um ancestral instrumento de condicionamento comportamental quer no âmbito da educação quer no âmbito da vida em sociedade. Seja o medo do papão ou do bicho mau, para que se coma a sopa toda, seja o medo de expressar opinião ou tomar posição pública sobre certo assunto.

Ditaduras e democracias, através de métodos variáveis e com graus de severidade diversos, usam o medo como modo de modelação de comportamentos quer individuais quer colectivos. Seja propaganda, seja publicidade, a indução de comportamentos por via do medo, visando acção, omissão ou reacção, é transversal a qualquer organização social, corporativa ou religiosa.

Aqui, existe um papel fundamental por parte da comunicação social, no modo como o medo é transmitido ao indivíduo visando a sociedade. Reiterando mensagens de conteúdo pré-estabelecido, a ordem da percepção, e a percepção da ordem, constroem-se com vista ao estabelecimento de uma realidade quase sempre conducente a uma só verdade.

Sem querer recuar ao Estado Novo, em que o medo era, desde logo, um instrumento de perpetuação do poder instalado e dos respectivos interesses económicos, corporativos e económicos circundantes, bastará apreciar como, em democracia, o medo tem sido um recorrente mecanismo de condicionamento social, quer em matéria de pensamento quer em matéria de comportamento. [Read more…]

O Império (do mal?) contra-ataca

O meu camarada aventador, Fernando Moreira de Sá, escreveu aqui um texto interessante, sobre o qual me apraz deixar aqui sete notas, tipo sete pecados mortais. Aqui vão eles:

1) A discussão extremada que o Fernando refere é real, dura há anos, para não dizer décadas, e continuará bem viva, enquanto a dualidade de critérios imperar. Arrisco dizer para sempre. No caso presente, é interessante notar que há quem fique muito ofendido quando outro alguém ousa trazer para a discussão sobre a presente invasão os antecedentes que dela são indissociáveis, como se isso implicasse, necessariamente, legitimar a invasão ou defender Putin. Até porque, de uma maneira geral, as pessoas que recusam ouvir falar desses antecedentes, alguns dos quais bem presentes, são as mesmas que estão constantemente a falar – e bem – na barbárie estalinista, tendo Estaline morrido há mais de 60 anos.


2) Sobre a ideia do Império do Mal, importa referir que o Ocidente não é um império uno e indivisível. Os criminosos ocidentais estão bem identificados e não é a pertença à NATO que os define. É, por exemplo, invadir um país sem consultar todos os seus parceiros, e com base num pressuposto fabricado, como os EUA fizeram com a segunda invasão do Iraque. É, também, orquestrar um golpe de Estado contra um governo democraticamente eleito, pelo motivo de esse governo não ser favorável aos interesses de Washington. É, igualmente, nunca ter respeitado o plano de partilha da Palestina, aprovado por uma larga maioria dos membros de então da ONU, e continuar a construir colonatos ilegais na Cisjordânia, impondo uma verdadeira ditadura ao povo palestiniano. Dito isto, ninguém considera uma Noruega, uma Islândia ou Portugal como fazendo parte de um qualquer Império do Mal. Portanto não é de Ocidente que falamos, mas de agressores patológicos, como os EUA e Israel, que sim, devem ser criticados e moralmente condenados pelas suas acções, que alguns teimam em desculpar.

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A invasão da Ucrânia e o novo politicamente correcto – O Equilíbrio do Terror #13

Andamos há anos a ouvi-los, aos berros, a anunciar o fim do mundo, porque a maleita do politicamente correcto se abateu sobre nós. Já não se pode gozar com homossexuais, não se pode poluir à vontade, não se pode ser nazi descansado, não se pode ser racista sem aparecer um woke zangado. Uma tragédia de proporções só comparáveis às do Holocausto.

Fora de tangas, é verdade que o policiamento da linguagem, em alguns momentos, tem ido longe de mais. Que a linguagem dita inclusiva, não raras vezes, atropela a integridade da língua portuguesa e a liberdade de expressão, para não falar em episódios absolutamente ridículos como aquele em que os seus proponentes defendem a substituição da palavra “mãe” por pessoa lactante, para não incomodar a ala mais radical da génerosfera.

O politicamente correcto tem sido associado à esquerda, criando, à direita, uma espécie de contra-cultura de inconformados, que não aceitam nenhum dos pressupostos associados ao conceito. No entanto, desde o início desta guerra, emergiu um novo politicamente correcto, com um nível de policiamento da linguagem sem precedentes. Já não se trata de apontar o dedo a quem discrimina ou agride verbalmente. Trata-se de rotular de ditador quem ousa meter o dedo numa ferida, que é real e factual.

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Queremos paz!

Queremos paz…
Queremos construir una vida mejor para nuestro pueblo…
Independiente…

Pausa

Está na altura de parar um pouco, só uns minutos bastam, e rever o que se tem passado, o que temos sentido e o que temos feito. Conheço minimamente a humanidade e mesmo confessando a minha surpresa por esta reacção tão global e muito mais enérgica que o expectável, sei que esta vontade tenderá a abrandar com o decorrer do tempo.

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Capitalismo e crime

Credit Suisse, uma das maiores e mais poderosas instituições bancárias do planeta, é o centro do Suisse Secrets, o novo escândalo ético-financeiro que foi hoje revelado. Segundo a investigação do Süddeutsche Zeitung, o banco suíço terá servido de esconderijo para os milhões de criminosos ligados ao tráfico de droga, a violações gravíssimas de direitos humanos, a corrupção e lavagem de dinheiro. Se não servir para outra coisa, que sirva para que nunca nos esqueçamos que os bancos têm poder a mais para que os deixemos sem escrutinio. E enquanto permitirmos que instituições da dimensão do Credit Suisse sejam albergue das fortunas de ditadores e mafiosos, não manchadas, mas a pingar sangue, argumentando que os Estados não podem interferir no sector privado, a nossa capacidade de dar lições de moral aos regimes autoritários está e estará comprometida. E não é só na banca, e muito menos se resume ao Credit Suisse. É na energia, nas telecomunicações, nos fundos de investimento, na têxtil, na automóvel, na aviação e, claro, no futebol. Quem pactua com este estado de coisas escolhe um lado, e não é o lado da democracia.

Ao cuidado daquela malta que acha que o Facebook é uma entidade pública eleita por sufrágio universal

Acho muita piada, muita piada mesmo, à malta que se queixa da falta de democracia do Facebook, quando a plataforma restringe ou censura um conteúdo. Como se o Facebook fosse uma entidade pública eleita por sufrágio universal. A coisa torna-se ainda mais engraçada quando este tipo de críticas parte daquela malta que defende, com unhas e dentes, a liberdade absoluta das empresas privadas de fazer o que lhes dá na real gana. Pois bem, meus amigos, não sei se já deram conta, mas o Facebook é uma empresa privada. De maneira que, se não estão bem com as regras do tio Zuck, a minha sugestão é que fechem a conta e mudem de rede. Não é que não se passem as mesmas coisas nas outras redes, também elas – preparem-se para o choque – propriedade de empresas privadas, que decidem em função dos seus interesses, não da democracia ou do bem comum, mas sempre dá aquele arejo virtual. Agora misturar democracia, liberdade de expressão e decisões racionais feitas por empresas privadas no sentido de maximizar o lucro é só parvo.

Diogo e as carpideiras do botas

Andam por aí umas quantas carpideiras, a rasgar as vestes da Mocidade Portuguesa que estavam no baú com as traças, porque a esquerda poderá não votar favoravelmente a eleição de um deputado eleito pelo CH para o cargo de vice-presidente da AR. Segundo estas pessoas, isto é pouco democrático. Democrático seria votar como as carpideiras pretendem. Percebe-se: são saudosistas de um tempo em que a União Nacional decidia como se votava e o votante não tinha voto na matéria. Faz sentido.

Ora, o indivíduo proposto pela Unipessoal do Ventura é nada menos que Diogo Pacheco de Amorim. Dos 12 deputados, o CH decidiu-se precisamente pelo mais extremista de todos, aquele que tem provas dadas. Pacheco de Amorim foi militante do MDLP, organização terrorista de extrema-direita que levou a cabo centenas de atentados em solo nacional, na década de 70, incluindo ataques bombistas que mataram vários inocentes. A escolha não é inocente. É uma provocação e um insulto a todos os que sofreram às mãos do Estado Novo e do MDLP.

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O primeiro derrotado destas Legislativas

É o abstencionismo.

Rui Rio prestou um péssimo serviço ao regime democrático português

Rui Rio prestou um péssimo serviço ao regime democrático português, ao não ter tido a vontade, a coragem e a determinação de se demarcar categoricamente de André Ventura e do discurso desonesto, manipulador e de ódio da extrema-direita. Para quem tanto gosta de aludir à Alemanha, e elogiar o seu sistema político, Rio deveria estar mais atento ao exemplo de Angela Merkel, que sempre defendeu o cordão sanitário em torno da AfD, mesmo quando isso significou entregar o poder ao Die Linke, o homólogo alemão do BE, na Turíngia.

Rio falhou quando se enterrou em ambiguidades para se esquivar a dizer aos portugueses se conta ou não com a extrema-direita, deixando a porta aberta a entendimentos. Falhou ao ser incapaz de enumerar as características extremistas do Chega, que são inúmeras e evidentes, situação que vem reforçar a ideia de que a porta está e estará aberta a entendimentos. Falhou quando se deixou enredar na teia de Ventura, permitindo-lhe marcar o passo do debate, fazendo o seu jogo e respondendo às suas perguntas. Falhou quando gastou tempo precioso, que nestes debates é escasso, para responder a vacuidades como a questão da prisão perpétua. Quem não consegue debater com Ventura sem ser capturado por ele não tem condições para liderar o país. Vice-primeiro-ministro de António Costa é o máximo que poderá aspirar. E mesmo assim…