Faz falta pensar devagar

Créditos: Susano Correia

Quantas vezes demos por nós a sentir algum tipo de ansiedade em relação ao mundo? Quantas vezes sentimos que estamos atrasados, que quem nos rodeia sabe mais do que nós, que não vamos conseguir cumprir os prazos, as resoluções, as tarefas, enfim, que andamos constantemente numa corrida contra o tempo?

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Medições penianas ou a zona confortável do pensamento

créditos: o genial Susano Correia

O que mais me incomoda nas discussões que vejo, ouço, ou tenho, é a concepção de medição peniana que elas acabam por ganhar, a certa altura. Parece algo tão certo como a morte ou os impostos.

Digo medição peniana porque, como este acto, tem origem na fragilidade. Se os homens que são obcecados pelo seu tamanho revelam, quanto a mim, uma fragilidade na sua masculinidade, as pessoas que adoptam a mesma postura, a mesma estrutura de pensamento, noutro tipo de discussões, têm a mesma fragilidade nas suas convicções.
É comum vermos este tipo de acontecimento na discussão política. [Read more…]

A magnânima arte de saber sair

Quando, em 2004, o FC Porto venceu a Liga dos Campeões, com José Mourinho, uma imagem ficou marcada na minha cabeça para sempre. Com 8 anos na altura, não sei se a minha primeira memória dos factos remonta ao dia da final, ou a uma visualização posterior na Internet. Mas, o que interessa é, então, essa imagem: o festejo praticamente inexistente de Mourinho, acabado de vencer a mais prestigiada competição de clubes do mundo.

Marcou-me essa imagem pelo pouco sentido que, aparentemente, teria. Como é que alguém que atinge o topo, na sua área, não esboça qualquer tipo de reacção? Não salta, não grita, não esperneia? Levantar estas questões era ver-me nelas, pois a minha reacção, naquele contexto, seria algo desse género.

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Da hiper-simplificação da realidade

 

@florencejimenezotto

Parece-me mais ou menos claro de que vivemos, actualmente, numa era de obscurantismo. Algo que a pandemia da covid-19 apenas veio agudizar. Esse obscurantismo nasce da forma como recebemos, tratamos e processamos a informação que nos chega sobre o mundo. Ou seja, esse obscurantismo nasce daquilo que é ser humano. A experiência do humano. Não sendo eu filósofo, antropólogo ou sociólogo, em princípio sou um humano, o que me permite dizer uma ou duas coisas sobre o assunto.

A experiência do ser (verbo) humano mudou radicalmente nos últimos anos com a introdução e massificação do mundo digital, nomeadamente das redes sociais. Como o próprio nome indica, a experiência social entre as pessoas alterou-se. Uma das diferenças que me parece mais clara foi o imediatismo que se gerou. Nasci em 1996. Se eu já achava que a minha geração e as suas “irmãs” eram pessoas de gratificações instantâneas, de pouco tempo de espera para alcançar um objectivo, o advento das redes sociais apenas veio intensificar essa situação.

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Sugar a essência da vida

@ Buena Vista Pictures/Photofest

 

O Clube dos Poetas Mortos era o grupo das pessoas que queria sugar a essência

da vida. Que queria extrair de cada pequeno momento tudo o que ele teria para dar.

O filme é aclamado pela crítica, é citado vezes sem conta, mas parece-me que nós, enquanto seres-humanos, nem sequer chegamos perto de o perceber.

Quando nascemos, a vida está-nos praticamente pré-estabelecida. Sabemos que temos um percurso escolar obrigatório, é-nos quase impingida uma ida para o ensino superior, por forma a construir uma carreira que dure 40 ou 50 anos, a reforma na casa dos 60 e depois o calendário, como nas prisões, de quantos dias faltam até morrermos.

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A Conceição o que é de Conceição

Foto: @ojogo

Há muito tempo que deixei de discutir futebol com a camisola vestida, ou seja, falando de lances, de polémicas, de casos e casinhos. Dou sempre por mim, quiçá como todos, a entrar numa dimensão paralela no qual deixo de ser um ser racional e passo à irracionalidade. Em vez disso, prefiro discutir o jogo, a estratégia, os golos, as jogadas. E está tudo bem.

Mas as últimas semanas têm sido prolíficas, a propósito do futebol, em demonstrações do servilismo bacoco que grassa neste país, há demasiado tempo.

O primeiro caso foi a passagem do FC Porto aos quartos de final da Liga dos Campeões. A equipa “dos intervencionados” fez tombar o eneacampeão italiano, onde joga um dos melhores jogadores de todos os tempos, mas também uma daquelas personagens que provoca o tal servilismo de comentadores e jornalistas.

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Diogo Faro ou o mundo em que gostava de viver

@liberty.edu

O incêndio da semana, nas redes sociais, foi o de Diogo Faro, humorista português que, nos últimos tempos, solidificou a sua imagem como activista dos direitos humanos e sociais, personificando a agenda identitária dos dias que correm. De uma forma legítima, note-se, até porque a maioria das questões que aborda são de uma extrema importância. No entanto, o meu problema com o Diogo Faro foi sempre o tom bélico das suas intervenções, criando uma divisão entre bons e maus. Ele próprio se identificou como um “pugilista digital”. Ou seja, nunca esteve em causa o conteúdo mas a forma que, a meu ver, soa a pregação para convertidos. Desconfio do facto de alguém que esteja do lado errado desses tópicos – porque sim, há um lado errado quando o tema são direitos humanos – tenha mudado a sua postura e opinião ao ler o Diogo Faro. Por isso, o humorista falha sistematicamente naquilo que para mim é um dever social de quem tem alcance público como ele: o de fazer a diferença. Amplifica a voz de muita gente? Talvez. Mas falta o passo seguinte, o de conseguir chamar à razão outras pessoas.

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Praticar o distanciamento de nós próprios: a questão do eu

 

@dougsavage

 

Não será de todo irreflectido pensar que vivemos uma constante e abrangente crise de identidade. A procura pelo significado do eu pintou a história de aventuras, da realidade à ficção ou mesmo na intersecção de ambas. Somos, afinal, eternos contadores da nossa própria história.

A ideia de sermos história cria, desde logo, uma crise de identidade: somos a nossa história ou os contadores dela? E se a contarmos, ela deixa de ser nossa?

Coloca-se o problema do distanciamento. Será proveitoso pensar que quanto maior o distanciamento, maior a incapacidade de encontramos o eu na história. Precisamos de estar próximos de algo para podermos dissertar sobre esse algo. A proximidade e a convivência garantem-nos experiência acumulada que se transforma em conhecimento de causa. Mas esta proximidade tem, em si mesma, encerrado um paradoxo existencial do distanciamento: não será a nossa visão mais clara quanto mais nos distanciarmos do objecto em análise, neste caso, nós próprios?

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Pense e Fique Rico

 

@luadepapel

Não consigo precisar com toda a certeza, mas penso que a primeira vez que li um livro que se enquadre na categoria de “auto-ajuda” ou de “desenvolvimento pessoal” foi por volta dos 13 anos. Na altura “O Segredo”, de Rhonda Byrne.

Fiquei fascinado com toda uma série de conceitos como a lei da atracção, a força do pensamento e tantos outros que, estando mais ou menos atentos, já ouvimos falar pelo menos uma vez.

Nestes 12 anos que se passaram, fui do fascínio por estes livros à crítica profunda e ao rótulo de “banha da cobra” e adjectivações semelhantes. Posso dizer que atingi o equilíbrio no que à perspectiva sobre estes livros diz respeito (será que eles ajudaram?).

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“Neste país é só artistas!”

 

@Imagem: Bryant Arnold

 

Oh, quantas vezes ouvimos o “artista” para nomear alguém pouco sério ou habilidoso para fugir aqui ou ali às responsabilidades. Concepções que criam uma ideia, no imaginário comum, do que é o artista verdadeiro, aquele que decide, muitas vezes contra o mundo, dedicar a vida à arte.

É ver miúdos com sonhos de música, de dança, de literatura, de teatro, enfim, de tanta arte ser-lhes dito que podem fazer isso, sim, mas como “hobbie”. Podem fazer isso, sim, mas depois de assegurarem a sua carreira dentro da “shortlist” de carreiras tidas por dignas e, claro, economicamente viáveis.

Porque, afinal, o problema será sempre o dinheiro que teima em ser resolvido. É ele que molda as nossas ideias e concepções. É ele que faz com que a arte não seja considerada trabalho mas ocupação de tempos livres. Se alguém se dirige à sua fábrica, à sua loja, ao seu escritório, vai trabalhar, por muito que passe 8h por dia com a cabeça na lua. Temos a percepção de que está a trabalhar e, afinal, a percepção é que interessa, não é?; pelo contrário, se alguém está sentado a escrever, a pintar um quadro, a esculpir uma peça, está a passar o tempo. Ou porque o ganho financeiro não é imediato (nem sequer garantido!), ou porque simplesmente “ninguém vive da arte”. [Read more…]

PCP tem medo de ficar atrás de Tino de Rans?

Imagem: RTP/Renascença

Já tinha ficado com a pulga atrás da orelha quando, no debate entre ambos, Vitorino Silva pediu a João Ferreira que aceitasse o convite para debater no Porto Canal. O candidato apoiado pelo PCP não respondeu. Soou estranho.

Hoje, o director de informação do Porto Canal, Tiago Girão, deu conta no Twitter (e mais tarde no próprio canal) que a candidatura de João Ferreira fez uma participação à Comissão Nacional de Eleições sobre os debates de Vitorino Silva contra os restantes candidatos, alegando que esses debates se transformariam numa vantagem de tempo de antena, favorecendo a candidatura de Vitorino.

A CNE emitiu, então, um parecer propondo à ERC uma medida provisória que impeça os debates em questão.

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Estão à espera da invasão à Assembleia da República?

Foto: @adn

A invasão que manifestantes pró-Trump fizeram ao Capitólio esta semana devia, não só fazer corar de vergonha todos aqueles que defenderam o (ainda) Presidente dos EUA, com argumentos sobretudo económicos, mas também reflectir sobre a complacência que existe, em Portugal, do mesmo tipo de discurso que levou um apresentador de televisão à presidência da “maior democracia do mundo”.

Hoje, no Plenário da Assembleia da República, foi a discussão uma petição assinada por cerca de 9000 cidadãos contra conferências de extrema-direita em Portugal (num caso que remonta a 2019) e pela ilegalização de grupos de cariz fascista, racista e neo-nazi.

Entre vários argumentos, os peticionários usam a Constituição como argumento máximo para defenderem as suas posições, citando o tão badalado art. 46º/4 que proíbe, e cito: “associações armadas nem de tipo militar, militarizadas ou paramilitares, nem organizações racistas ou que perfilhem a ideologia fascista.”

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Candidatos de primeira e candidatos de segunda

Créditos da Imagem: @Jornal Expresso

Imagem: @Expresso

O António Fernando Nabais já trouxe o assunto ao aventar, mas mesmo depois de algumas mudanças desde esse texto, continua a haver uma discriminação em relação ao candidato Vitorino Silva na candidatura à Presidência da República.

Sou um leitor assíduo do jornal Expresso e acompanho, desde o primeiro debate, na app do jornal, uma série de artigos conjuntos que pontuam os debates e os candidatos, num trabalho de vários jornalistas e cronistas do jornal. Embora estranhe o conceito quase futebolês da análise política, a verdade é que, no final, o que conta são os números.

Vitorino Silva não faz parte dessa análise. Ou seja, os seus debates não são analisados dentro desta estrutura de artigo, nem a sua foto acompanha a imagem que os ilustra (e que ilustra também este texto). Mesmo que existam artigos de análise mais extensos sobre os seus debates, como para os outros, neste particular é excluído.

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