O bonezinho

À porta do restaurante, deparei-me com uma discussão entre um controlador de estacionamento e um arrumador, ambos muito solenes no exercício das suas funções, à volta de um carro com proprietário ausente. Desde que a Câmara do Porto concessionou o estacionamento a uma empresa privada, as ruas encheram-se de homens e mulheres apetrechados de coletes fluorescentes e com a identificação garrafal, nas costas: CONTROLADOR DE ESTACIONAMENTO. Os arrumadores não desapareceram, antes procuraram adaptar-se aos novos “partners”, como se diz em empreendedorês. Mas o arrumador, pelo menos este, o da discussão, possui por vezes um vínculo tácito com os seus clientes e rapidamente se solidariza com eles contra a figura do controlador. A discussão era toda cheia de salamaleques, porque o arrumador é um moço que está limpo há anos, e tem orgulho em trabalhar só com doutores e engenheiros. Era “o indivíduo” para cá, “a viatura” para lá, “o tiquê de estacionamento” para acolá, com o controlador muito imbuído do seu papel institucional e o arrumador inflado de uma dignidade que não dependia de coletes. Tive pena de não poder almoçar lá fora só para poder acompanhar a discussão. Mas não tinha tempo a perder e era dia de tripas. Já no restaurante, cruzei-me com um velhinho, de saída, mas que logo voltou atrás porque lhe faltava o chapéu. [Read more…]