A nota de pesar

Já lá vai imenso tempo, há 40 anos e alguns dias, abri a pesada porta de casa, saí para o passeio e vi um homem a subir a minha Rua de Santa Catarina, cabisbaixo, quase curvado. Ao passar por mim, vislumbrei-lhe um cachecol do Futebol Clube do Porto a protegê-lo do frio desse longínquo Janeiro de 1985 e, mais impressionante, uma bandeira do Futebol Clube do Porto. Nesse momento, este benfiquista, prestes a sofrer o primeiro gravíssimo dissabor futebolístico doméstico (o terceiro lugar de 84/85), pressentiu os passos da avó materna no granito dos degraus que desaguavam na porta da entrada, olhou para a esquerda, vendo o homem que lentamente se afastava, e perguntou:

— Não há jogo hoje. Porque é que aquele senhor leva um cachecol e uma bandeira do Porto?

— Vai ao funeral do Pedroto —, respondeu-me a minha avó.

Pois. Soubera da morte do Pedroto, dias antes, pela telefonia da cozinha. E o meu pai, portista doente, dera-me então uma longa palestra sobre o jogador Pedroto e o treinador Pedroto. Fosse como fosse, os meus 12 anos de vida reservavam bonés, cachecóis e bandeiras de clubes de bola a acontecimentos desportivos, logo, excluíam-nos de funerais. Por isso, a minha pergunta à porta de casa. Comecei a fazer contas simples. Daí a poucos minutos, o enlutado portista iria chegar ao Marquês e apanhar um autocarro (o 20? o 21?) para a Rotunda da Boavista e, apeado, rapidamente chegaria a Agramonte. Ou seja, em princípio, deveria ser meu vizinho, para não apanhar um transporte em Gonçalo Cristóvão. Como diria o Sherlock, when you have eliminated the impossible, whatever remains, however improbable, must be the truth. Talvez. Há mais variáveis. Nunca saberemos.

Não sei quais são as razões para a direcção do Glorioso não endereçar uma nota de pesar pela morte de Pinto da Costa. Se fosse presidente do Benfica, teria escrito imediatamente uma nota de pesar, sem mais quês, exactamente no momento em que soube do funesto acontecimento, ontem, no final do Santa Clara 0-1 Benfica, pelo amigo do meu amigo David. Mas a verdade é que não sou, nem quero ser, presidente do Benfica. Desconheço o porquê de não se enviar uma, mesmo que sinceramente lacónica, nota com um “O Sport Lisboa e Benfica, através do seu Presidente, expressa as suas mais sentidas condolências ao FC Porto e à família e amigos de Jorge Nuno Pinto da Costa”. Sem descrições, excepções, hipocrisias, exageros. Lacónica. Não sei quais são as razões para a ausência da nota de pesar. Ainda por cima, sem conflito explícito. Gostaria de saber quais são os motivos, para poder validá-los ou não. Na ausência de justificação minimamente aceitável, discordo em absoluto. Agradecido.

Como diria o outro, disse.

 

Hoje, 9 de Dezembro de 2024, dia dos 170 anos da morte de Garrett

Foto: Maria António Gonçalves (8 de Dezembro de 2024)

O Benfica é o melhor clube português — no entanto, sem sombra de dúvida,

o Porto é a cidade mais importante do país.

O Porto ao sabor dos caprichos de quem o transformou em adereço de um clube desportivo

Há dez anos. Exactamente. Claro que o azul não tem qualquer conotação clubística. São “os típicos azulejos azuis e brancos que cobrem tantas igrejas da cidade”. Sim, sim: “yuk-yuk-yuk (…) hahaha”.

 

Campeonato ortográfico

Pedro Levi Bismarck 10 Rui Moreira

Trânsito condicionado na Rotunda da Boavista devido a queda de árvore

Uma pessoa de família enviou-me hoje uma mensagem, dizendo-me que a médica (com consultório na zona da Areosa) ia chegar atrasada: uma árvore tinha caído na Rotunda da Boavista e o trânsito estava um caos.

Cheguei a casa e fui ler as notícias.

Portanto, confirma-se que, efectivamente, caiu uma árvore na Rotunda… Não?

Ah! OK. Siga.

Ponte Almeida Garrett

O autor aborreceu-se muito com as alusões políticas pessoais que inimigos e maus amigos se empenharam em achar no primeiro volume deste romance.
Almeida Garrett

***

A ponte Almeida Garrett será a nova ponte sobre o rio Douro e ligará o portuense Campo Alegre à gaiense Arrábida e, obviamente, a gaiense Arrábida ao portuense Campo Alegre. Irá  servir a linha Rubi do metro de superfície, que terá oito estações: Casa da Música, Campo Alegre, Arrábida, Candal, Rotunda, Devesas, Soares dos Reis e Santo Ovídio.

Apesar do meu empenho, a ponte Almeida Garrett ainda não tem nome. Curiosamente, entregaram a uma comissão de selecção a tarefa de dar nome à dita cuja. A comissão é composta por Amândio Barros, Hélder Pacheco, Germano Silva, Humberto Varum e Rui Veloso.

Ontem, Pacheco propôs e eu sugeri: ponte Almeida Garrett. Garrett é o maior escritor nascido no Porto e criado em Gaia. Como o próprio escreveu:

Ora eu nasci no Porto e criei-me em Gaia.

 

Hoje, durante o pequeno almoço, algures em Lavadores, enquanto folheava o Jornal de Notícias de ontem, dei por mim a rir-me às gargalhadas, ao ler [Read more…]

A horta do Garcia e o Garcia de Orta

ORTA
Si fazem, mas não em o mesmo dia, senão em outro dia despois, o qual banho he de preceito aos Bramenes e Baneanes, e a todo o Gentio, que nenhum dia comão sem lavar o corpo primeiro, e os Mouros lavamse, estando sãos, ao menos cada três dias.
Garcia de Orta, Colóquios dos simples e drogas da Índia. Ed. dirigida e anotada pelo Conde de Ficalho. – Lisboa : Impr. Nacional, 1891-1892.

***

Ontem, foi divulgado o traçado do Metrobus, “a nova mobilidade urbana verde” do Porto. Pelos vistos, começam hoje as obras na Linha Boavista – Império, etc., etc. Podeis ler tudo quer na página dedicada ao assunto, quer, mais concretamente, neste documento em pdf, onde se encontra um mapa com umas cores parecidas com as do Diário da República, quando passa pelas minhas mãos.

Por seu turno, Garcia de Orta, além de ser o nome de uma escola secundária do Porto e de um hospital em Almada e de aparecer aqui na moeda de 200 escudos,

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Ao cuidado da CMTV

Isto não é a Ribeira. E o <i> de Fontainhas não leva acento. É como o <i> de ladainha, rainha, grainha, etc. Siga.

Bloco Central

Foto: Lusa/Mário Cruz

Viva o Porto

Ora eu nasci no Porto e criei-me em Gaia.
Almeida Garrett

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Sou do Porto, adoro o Porto e adoro ser conterrâneo de Garrett. Por adorar o Porto, ando atento a plataformas que divulgam a História do Porto e que me trazem conhecimento e alegria. Todavia, por vezes, lá vem um travo amargo.

Há uns anos, avisei que a eliminação da letra ‘p’ de palavras como excepção levaria a um aumento de ocorrências de *excessão em vez da grafia pretendida pelos autores do AO90 (exceção), com a consequente necessidade de, em publicações portuguesas, se indicar, como já acontecia antes do AO90 em publicações brasileiras, que «’excessão‘ (com dois ss) constitui erro grosseiro» (cf. Manual de Redação [sic] e Estilo do jornal Estado de S. Paulo).

Nessa altura, acrescentei que seria igualmente necessário um aditamento, exclusivo para a norma portuguesa, com a menção da diferença entre concessão e conceção (sem o ‘p’). Exclusivo para a norma portuguesa, efectivamente, pois, em português do Brasil, a concepção mantém-se imaculada.

Noutra altura, com os exemplos recepção, percepção e concepção, expliquei a importância grafémica da letra ‘p’, não só devido à função diacrítica , mas também por causa da correspondência com morfemas presos (“bound morphemes”), neste caso concreto, -ceber e -cepção.

Ora, o mesmo acontece com -ceder e -cessão. A confusão, criada por regras mal concebidas e mal explicadas, leva a que vários escreventes de português europeu grafem seção, em vez de secção.

Eis um exemplo fresquíssimo, no sítio do costume.

Ora, da seção à interseção, [Read more…]

Daqui vê-se a minha casa

Foto: Francisco Miguel Valada (25 de Junho de 2021)

As situações “não podiam ter acontecido”,

mas aconteceram: “aglomerados”, “andar sem máscara”, “consumo de álcool nas vias públicas”. Efectivamente.

O chilreio do dia

De Sara Barros Leitão: «Como é que eu sei que os turistas chegaram ao Porto? São 9h10 da manhã, fui comprar pão ao café da esquina e sai um pedido de uma Francesinha com meia de leite para uma mesa na esplanada».

O FC Porto não é o clube da cidade do Porto

O FC Porto é o Porto, quer queiram quer não!
— Pôncio Monteiro (1940-2010), 7 de Março de 2002

O FC Porto é o FC Porto e é o clube da cidade.
— Rui Moreira, 12 de Maio de 2018

… e quem tiver amor à cidade não pode deixar de ter ao FC Porto.
— Pinto da Costa, 31 de Maio de 2020

***

Como muito bem escreve Ana Gomes, «Rui Moreira e acompanhantes na lista do Conselho Superior do FCP não se enxergam». Efectivamente, depois do blá-blá-blá (“o azul não tem qualquer conotação clubística“) e da afronta (“o FC Porto é o FC Porto e é o clube da cidade“), só faltava mesmo a Rui Moreira a rampa de lançamento no conforto da estrutura do FC Porto e uma inadmissível espargata entre o comando dos destinos da cidade do Porto e a ambição de ser presidente do FC Porto. Com a rampa de lançamento montada, é claro, veio a anunciada passagem de testemunho. Tudo isto é, obviamente, ridículo e, pior, esta promiscuidade política/futebol é inaceitável.

O FC Porto é um clube da cidade do Porto e merece da parte de Rui Moreira exactamente o mesmo respeito, carinho e interesse que merecem todos os outros clubes onde se pratica futebol na cidade do Porto. Clubes como o Boavista, o Pasteleira, o Salgueiros, o Bom Pastor, o FC Foz, o Académico, o Ramaldense, o Desportivo de Portugal, o S. Vítor ou o Sport Clube do Porto merecem tanto respeito como o FC Porto. O Porto não tem clube de futebol. A Associação de Futebol do Porto tem uma selecção e é muito boa. Mas o Porto, como tereis ainda agora lido, não tem clube de futebol. Dois dos melhores futebolistas portugueses de sempre (o Humberto Coelho e o João Vieira Pinto) são portuenses, nunca jogaram no FC Porto, não são portistas e foram ídolos do Glorioso. Sou portuense, sou benfiquista ferrenho e até sou sócio do Benfica, mas Rui Moreira e Pinto da Costa, garanto-vos, não gostam mais do Porto do que eu. Convém que haja menos propaganda e menos mistura de assuntos sérios (a gestão da cidade e as condições de vida de quem mora e trabalha nessa cidade) com futebolices, vaidades pessoais e rampas de lançamento.

***

Eu e Augusto Santos Silva temos duas qualidades em comum:

somos do Porto e temos aversão ao azul. Só falta saber se, como eu, Santos Silva tem a terceira qualidade: ser mouro. Ser mouro é a suprema virtude do verdadeiro Portuense.

Os factores da TVI e o distrito do Porto

I’m not asking you to believe anything you can’t prove. I’m just asking you to prove it.
Will Graham

***

O pedido de desculpas da TVI levou-me a ver um bocadinho do Jornal das 8 de ontem e a encontrar mais uma prova quer da utilidade grafémica das letras consonânticas cê e pê, quer da concomitante inutilidade do Acordo Ortográfico de 1990. O direto, fixado por alguém na moldura daquele oráculo informativo, borra a pintura. Contudo, como sabemos, ‘factores’ são uma prova de que há esperança.

Há muitos anos, no Manhunter, houve um diálogo extremamente interessante entre o Hannibal Lecktor (exactamente, Lecktor e não Lecter) e o Will Graham. No mais recente Hannibal, tivemos o Will a fazer de Lecktor e a Beverly Katz a fazer de Will.

O Will perguntava:
Do you have the file with you?

A Beverly respondia:
Yes.

O Will retorquia:
And pictures?

E a Beverly repetia:
Yes.

É verdade: felizmente, há imagens.

***

Nótula: Por uma questão de clareza quanto ao número de pessoas infectadas com COVID-19 em Portugal, talvez fosse bom que o Ministério da Saúde e a comunicação social portuguesa deixassem de tratar os casos do distrito do Porto dentro da região NORTE DE PORTUGAL (assim, com maiúsculas, como nos oráculos sensacionalistas da TVI).

Neste caso concreto das pessoas infectadas com COVID-19, o distrito do Porto deve ser analisado à parte.

O NORTE DE PORTUGAL é identificado no mapa do Ministério da Saúde como a região que, para quem vem de Barcarena, começa nos concelhos de Espinho [Read more…]

A bexiga *iperativa

In particular, in the case of aviation disasters that are caused by linguistic problems, it would be important to distinguish different ways of pronouncing and representing the same numeral: In English there are different ways of saying the numerals of the accident flight USAir 427: either four hundred twenty-seven or four two seven (in the style of a telephone number), where in the latter case, it would be most interesting to determine whether the cipher 4 (phonology /fo/) had the phonetic realisation [fo:], [for], [faʊə], [faʊ’ər], or the like.
Claudia Sassen

nobody, not even the rain, has such small hands.
e. e. cummings

***

*Hiperativa? Efectivamente, o ‘m’ de imperativa indica [ĩ] em vez de [i]. De facto, o ‘c’ de hiperactiva indica [a] em vez de [ɐ]. Com efeito, o ‘h’ inicial de hiperactiva é inorgânico. De simplificação em simplificação, obter-se-á *iperativa.

Há poucas semanas, comprei um slide igual a este do Jeff Beck, na Macari’s (que saiu da Denmark Street e foi para a Charing Cross Road, quase em frente à Foyles, que fica ao lado deste templo). Se reparardes bem, entre 1:33 e 1:39, o Jeff Beck pega nesse slide com o mesmo à-vontade com que eu pego nos meus lápis e na minha esferográfica Faber-Castell, ou seja, sem o desleixo de quem aniquila letras com valor grafémico.

Exactamente.

Nótula: Apesar de as minhas canções predilectas do Rui Veloso serem o saiu para a rua e o não me mintas (embora haja aquele desnecessário verso com o Jardel…) e apesar de preferir mil e uma vezes o nova gente ou o made in oporto dos GNR ao porto sentido como hino pop da minha cidade (o Jardel ainda é como o outro, mas para o “lampiões tristes e sós”, francamente, não há pachorra), não podemos nem devemos ignorar a voz das varandas. Viva o Porto! Os meus agradecimentos à Alexandra Martins.

***

Padrões & grafias: o desejo de entrar em *contato

We ordinarily obey a rule according to which anyone who finds an empty seat first is entitled to that seat.
Jesse Prinz

In the literature on the phonological complexity of listening input, contracted forms (e.g., can’t) have been proposed to have a potentially negative impact on decoding auditory information, because the recognition of lexical items and syntactic constructions might pose a greater challenge due to decreased phonological information (e.g., Rubin, 1994).
— Brunfaut & Révész (2014)

***

Há muitos anos, ao volante da minha excelente Volkswagen Passat azul — mas azul à Benfica, note-se — , algures na B 419 alemã, ali pertinho do Mosela, ouvia frequentemente o ‘adagio sostenuto’ do concerto para piano n.º 2, em dó menor, do Rachmaninov, sempre na expectativa (e na esperança) desse all by myself avant la lettre e muito mais interessante do que o próprioAliás, já algo de semelhante me acontecera, muitos anos antes, no 35, a caminho da Rua do Heroísmo. De facto, quando saiu o não posso mais do Pedro Abrunhosa, houve ali um breve momento who pays the price dos INXS. Depois, a sensação passou. Anteontem, enquanto estudava, ouvi o início deste excerto do danúbio azul e lá veio a gran partita. Recentemente, estive envolvido numa violenta discussão sobre um caso quase tão bem conhecido como o de Rachmaninov & Eric Carmen, o do pour some sugar on me dos Def Leppard e do we will rock you do Axl Rose (sim, pois, OK, dos Queen).

Resta acrescentar que não estamos a falar nem, por um lado, de homenagens implícitas (tvmural para tvc15), explícitas (submissão para sub-mission), cómicas (sol da caparica para california sun), hilariantes (bué de baldas para baggy trousers), esforçadas (judgement day para while my guitar gently weeps), esforçadíssimas (universal para o navio fantasma), trágicas (jorge morreu para damaged goods), auto-referenciais (hangar 18 para the call of ktulu, [1] a 4.ª sinfonia para o evgeni onegin ou the hands para i don’t believe in love), confessadas ([2] the phoenix para i wanna be your dog [a prever o Iggy Pop no new york city?] e californication para carnage visors), [3] deliciosas por abrandamento (Quebra-Gelo para London Calling), nem, por outro, de carreiradas (l’idiot, city of new orleans…). Também anteontem, antes de dedicar uns minutos da hora de almoço à defesa Cunningham, pus-me a ouvir o i want you (she’s so heavy) dos Beatles e, logo no início, lá estava um dos meus momentos predilectos dos Mötley Crüe. Entretanto, voltei a preocupar-me com as diferenças entre a Lisboa de Madonna e a Lisboa de Letterman.

Adiante.

O fim-de-semana está à porta. Isto significa que acaba hoje mais uma série de dias úteis de vergonha para o Governo de Portugal e para os seus cúmplices. Efectivamente, desta vez, além dos exemplos habituais no sítio do costume

e alhures,

tivemos a bonita homenagem [Read more…]

Rui Moreira teve razão

For example, in cases where investigators of language change express violent disagreement with their predecessors, a closer look tends to reveal that a strong rebuttal of an earlier position may still crucially presuppose some determinative phrasing of scholarly questions, an indispensable collation of the facts, or pioneering paleographic spadework by the previous researcher being criticized.
Janda & Joseph

“Somos Porto”. É fácil dizer [ˌsomuʃˈpoɾtu].
Rodolfo Reis

***

Segundo o Record, Rui Moreira retorquiu

Isso é mentira,

depois de Fernando Madureira ter escrito

Houve falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem.

Se virmos o episódio pela perspectiva de um leitor do Record, o presidente da Câmara do Porto teve razão, pois Fernando Madureira escreveu houveram. Efectivamente: houveram:

Houveram falhas de segurança graves e tiveram de ser os seguranças e os populares a restabelecer a ordem!

De facto, é mentira que Fernando Madureira tenha escrito ‘houve’.

 Continuação de um óptimo domingo.

***

GIGO e AO90: imagens da rentrée

Some meta-analysts have opted to only include published or so-called high-quality research, citing what is known in the meta-analysis literature as the garbage in, garbage out (GIGO) validity threat (e.g., Truscott, 2007).
Plonsky & Oswald

Let’s put it this way: if successful, a CL approach may serve as a high-speed train to Word City, but its terminus is in a suburb. That’s okay, as long as one realises it’s still a bit of a stroll downtown, where the real action is.
Frank Boers

That’s right! Cristiano Ronaldo. He’s that new kid … uh… from Benfica… (Porto…?)
Ian Astbury

***

Ontem, vi um resumo do PSG-Real Madrid e lembrei-me, imagine-se, de uma recente menção ao fato de Zidane, feita pelo jornal A Bola. Efectivamente, no momento em que experimentava sistemas diferentes, Zidane envergava um fato, de acordo com as palavras grafadas nessa ilha ortográfica do Dr. Moreau, nesse maravilhoso espaço de resistência silenciosa cercado por liberdade de expressão:

Aliás, a foto que ilustra o texto mostra Zidane (como Monti, há uns anos) de fato:

Quanto ao sítio do costume…

Ora bem, portanto, vejamos:

Tudo na mesma. OK. Siga.

Nótula: Agradeço a Manuel Monteiro o envio deste engomadíssimo fato de Zidane.

***

Ninguém para a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”?

Nada disso! Ninguém pára a “Mui Nobre, Sempre Leal e Invicta Cidade do Porto”. Efectivamente. Apesar de atualiza, Seleção, afetar, correto, outubro, atos, etc.

Porto, 22 de Fevereiro de 2019

Foto: Francisco Miguel Valada.

Reflexão acerca dos azulejos

Segundo  do Boston Globe, «visitors to Portugal will see tiles throughout the country». Ainda bem, porque «o azul não tem qualquer conotação clubística». Efectivamente.

O coreto mais correcto

Crows swoop down into the empty bandstand. I don’t know what they could be looking for.
— Sam Shepard

“Cow that went into them boots musta had the measles, huh? What kinda hide you call that?”
“That’s belly ostrich, sir.”
“Belly ostrich. I’ll be. Ostrich ain’t even a cow, is it?”
Sam Shepard

***

Duvido que Ricardo Araújo Pereira tenha pronunciado o correspondente a correto, ou seja, [kuˈʀetu]. Muito provavelmente, pronunciou [kuˈʀɛtu], ou seja, correcto. Aliás, Araújo Pereira tem razões para estar irritado com o «politicamente correto», mas contente com Barreto [barrete+o], forreta, carbureto, jarreta, cloretocoreto e correto, perdão, correcto. Exactamente. Atenção aos ataques ramificados: porque o ‘coreto mais correcto’ funciona, mas o ‘coreto mais concreto’, variante do título, ou até «os teus segredos mais secretos», dos Rádio Macau, nem por isso. Porque, como os crows no coreto e a cow que não é avestruz, «there are more things in heauen and earth Horatio then are dream’t of in your philosophie».

O coreto mais correcto: o da minha infância (http://bit.ly/2G2EO9B). Foto via mapio.net: http://bit.ly/2FUZ0XX

No sítio do costume, já se sabe, não há problemas, é tudo facultativo:

***

Horas do diabo

Ninguém diria, aqui, recostados ao sol como esse gato gordo que quase morreu de tantas sardaniscas que comia, mas agora passa os dias a dormir encostado ao muro. Ninguém diria que era daqui que saltavam para a linha, homens e mulheres, velhos e novos, gente daqui do bairro e doutras paragens, porque havia quem viesse de propósito para matar-se aqui. Desde que puseram este gradeamento alto, os suicidas desistiram da ideia ou buscaram outros lugares.

À mesa, sou a única forasteira. Os homens não dizem nada,  fala a Maria, a mais velha.

– Nunca mais me esquece o dia em que vi muita gente debruçada no muro, fui espreitar e vi uma mulher caída, com a cabeça a deitar tanto sangue… Andei meses a pensar nisso, nem dormia em condições. Eu devia ter uns 14 anos e aquilo impressionou-me tanto…

O comboio está a passar debaixo dos nossos pés, estremece-nos.

A Maria puxa o xaile para os ombros. É o comboio que a arrepia. [Read more…]

Stop

Foi centro comercial nos anos 80, com cinema, lojas, restaurantes. Depois começou a perder fôlego para a múltipla concorrência e decaiu. Foram encerrando-se lojas, houve algum episódio de violência, o local tornou-se indesejável. Esteve fechado, a apodrecer lentamente aos olhos de quem passava, uma ruína mais numa cidade que acumulou demasiadas. Mas há poucos anos, ganhou uma nova vida quando os músicos da cidade começaram a alugar as antigas lojas e a convertê-las em salas de ensaio. A porta da rua reabriu-se, voltou a ver-se gente por ali, um segurança, um café à entrada –  sintomas de vida num corpo que estivera inerte.

A vida deste local, a sua experiência distinta de todos os outros grandes espaços comerciais da cidade, tornou-o um lugar especialmente interessante. Desde logo, essa nova vida não se fez acompanhar de uma renovação estética. O Stop continua a parecer um local abandonado. Há paredes grafitadas, zonas mal iluminadas, beatas no chão, lojas que ainda exibem os seus antigos cartazes, agora arruinados, montras que deixam ver salas vazias, janelas tapadas, algum caixote abandonado pelos últimos inquilinos, uma lista telefónica manchada de humidade, um calendário de um ano longínquo. Os estúdios dos músicos, tapados dos olhares de quem passa, não se distinguem das salas para alugar. Os elevadores funcionam, mas as escadas rolantes estão paradas. As casas de banho, de paredes cobertas de rabiscos, estão reduzidas ao mínimo. Aí não há espelhos, não há sabonete e é quase com espanto que confirmamos que há retretes e água corrente. [Read more…]

É muito fácil

Every word I said is what I mean
Chris Cornell & Hunter Shepherd

May I continue?
— Noam Chomsky

“Somos Porto”. É fácil dizer [ˌsomuʃˈpoɾtu].
— Rodolfo Reis, 14/5/2017

***

De facto, também é fácil dizer “Portugal vinculou-se ao Acordo Ortográfico“.

Repare-se: [puɾtuˌɡaɫ vĩkuˌɫosɨˌau̯ ɐˌkoɾdu ɔɾtuˈɡɾafiku].

Muito fácil.

Efectivamente.

***

Chris Cornell (1964-2017)

[Read more…]

Porto!

porto

Autor: Thomas Pesquet. Obrigado, Público.

O infinito sem estrelas

“El electrón, en cambio, será emperador y mendigo, cantautor y labriego, cirujano y poeta surrealista, y todo lo que pueda ser.”

José Edelstein e Andrés Gomberoff, “Antimateria, magia y poesía”

Um dos cegos que tocam na rua de Santa Catarina tem agora um órgão eléctrico, ligado à tomada de um dos cafés com esplanada, e uma cadeira decente, um lugar, enfim, no grande alvoroço da rua. Com isso, desenvolveu uma postura profissional, compenetrada. Já não toca as músicas de que gosta, mas aquelas que poderão agradar ao seu público. Pomba branca, pomba branca. Então, bate, bate coração. A rosa que te dei.

Assemelha-se aos pianistas de bar de hotel, esses que parecem, a um tempo, conscientes do seu papel de animadores discretos, provedores de música de fundo para negócios, amores, revelações ou abandonos, e ausentes, porque mantêm o coração distante do que os dedos desenham no teclado. No nosso cego, apesar disso, revela-se um discreto orgulho por ser agora parte da instalação, um elemento mais de uma cidade aprazida e estonteada com a súbita atenção dos estranhos. Ei-lo, no seu posto, digno e útil.  [Read more…]