Horas do diabo

Ninguém diria, aqui, recostados ao sol como esse gato gordo que quase morreu de tantas sardaniscas que comia, mas agora passa os dias a dormir encostado ao muro. Ninguém diria que era daqui que saltavam para a linha, homens e mulheres, velhos e novos, gente daqui do bairro e doutras paragens, porque havia quem viesse de propósito para matar-se aqui. Desde que puseram este gradeamento alto, os suicidas desistiram da ideia ou buscaram outros lugares.

À mesa, sou a única forasteira. Os homens não dizem nada,  fala a Maria, a mais velha.

– Nunca mais me esquece o dia em que vi muita gente debruçada no muro, fui espreitar e vi uma mulher caída, com a cabeça a deitar tanto sangue… Andei meses a pensar nisso, nem dormia em condições. Eu devia ter uns 14 anos e aquilo impressionou-me tanto…

O comboio está a passar debaixo dos nossos pés, estremece-nos.

A Maria puxa o xaile para os ombros. É o comboio que a arrepia. [Read more…]

Stop

Foi centro comercial nos anos 80, com cinema, lojas, restaurantes. Depois começou a perder fôlego para a múltipla concorrência e decaiu. Foram encerrando-se lojas, houve algum episódio de violência, o local tornou-se indesejável. Esteve fechado, a apodrecer lentamente aos olhos de quem passava, uma ruína mais numa cidade que acumulou demasiadas. Mas há poucos anos, ganhou uma nova vida quando os músicos da cidade começaram a alugar as antigas lojas e a convertê-las em salas de ensaio. A porta da rua reabriu-se, voltou a ver-se gente por ali, um segurança, um café à entrada –  sintomas de vida num corpo que estivera inerte.

A vida deste local, a sua experiência distinta de todos os outros grandes espaços comerciais da cidade, tornou-o um lugar especialmente interessante. Desde logo, essa nova vida não se fez acompanhar de uma renovação estética. O Stop continua a parecer um local abandonado. Há paredes grafitadas, zonas mal iluminadas, beatas no chão, lojas que ainda exibem os seus antigos cartazes, agora arruinados, montras que deixam ver salas vazias, janelas tapadas, algum caixote abandonado pelos últimos inquilinos, uma lista telefónica manchada de humidade, um calendário de um ano longínquo. Os estúdios dos músicos, tapados dos olhares de quem passa, não se distinguem das salas para alugar. Os elevadores funcionam, mas as escadas rolantes estão paradas. As casas de banho, de paredes cobertas de rabiscos, estão reduzidas ao mínimo. Aí não há espelhos, não há sabonete e é quase com espanto que confirmamos que há retretes e água corrente. [Read more…]

É muito fácil

Every word I said is what I mean

Chris Cornell & Hunter Shepherd

May I continue?

— Noam Chomsky

“Somos Porto”. É fácil dizer [ˌsomuʃˈpoɾtu].

— Rodolfo Reis, 14/5/2017

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De facto, também é fácil dizer “Portugal vinculou-se ao Acordo Ortográfico“.

Repare-se: [puɾtuˌɡaɫ vĩkuˌɫosɨˌau̯ ɐˌkoɾdu ɔɾtuˈɡɾafiku].

Muito fácil.

Efectivamente.

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Chris Cornell (1964-2017)

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Porto!

porto

Autor: Thomas Pesquet. Obrigado, Público.

O infinito sem estrelas

“El electrón, en cambio, será emperador y mendigo, cantautor y labriego, cirujano y poeta surrealista, y todo lo que pueda ser.”

José Edelstein e Andrés Gomberoff, “Antimateria, magia y poesía”

Um dos cegos que tocam na rua de Santa Catarina tem agora um órgão eléctrico, ligado à tomada de um dos cafés com esplanada, e uma cadeira decente, um lugar, enfim, no grande alvoroço da rua. Com isso, desenvolveu uma postura profissional, compenetrada. Já não toca as músicas de que gosta, mas aquelas que poderão agradar ao seu público. Pomba branca, pomba branca. Então, bate, bate coração. A rosa que te dei.

Assemelha-se aos pianistas de bar de hotel, esses que parecem, a um tempo, conscientes do seu papel de animadores discretos, provedores de música de fundo para negócios, amores, revelações ou abandonos, e ausentes, porque mantêm o coração distante do que os dedos desenham no teclado. No nosso cego, apesar disso, revela-se um discreto orgulho por ser agora parte da instalação, um elemento mais de uma cidade aprazida e estonteada com a súbita atenção dos estranhos. Ei-lo, no seu posto, digno e útil.  [Read more…]

Ensaio sobre os centrais

rodolfo-reis

O Luisão escorrega, não é? No golo. Toda a gente pode escorregar. Escorregou. Escorregou. Quer-se dizer, estes centrais já estão um bocado ó tio, ó tio!

— Rodolfo Reis, 4/12/2016

Le fait que l’acte de porter une lettre à la poste est un comportement différent de celui de se promener dans la rue est dû à l’objet-but de l’acte.

Joseph Nuttin

 

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Efectivamente, Fevereiro, mas direto. Sim, estamos em Dezembro de 2016 e já terá havido tempo para a consolidação dos conhecimentos obtidos durante as acções de formação anunciadas, onde provavelmente até terão sido proferidas barbaridades como «se disser Egito escreve sem ‘p’, mas se disser Egipto escreve com ‘p’». Aliás, recordemos que a grande divisão da doutrina era entre «não mais que 15 minutos» e «basta uma meia hora».

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O desastre prossegue, imparável. Imparável? Nem por isso. Temos sempre [Read more…]

Ninguém comparece ao meu rendez-vous

Assim de repente, lembro-me de quatro ou cinco malucos que desapareceram da cidade. Demoramos tempo a dar pela falta deles, só os vemos quando calha, mas sabemos quem são, que tipo de maluqueira é a sua, qual a melhor forma de tratá-los. Por exemplo, há dois que andam sempre a correr. Um com aspecto de corredor (perdão: runner) profissional, roupa desportiva, todo apetrechado, mas quando se olha mais de perto vê-se que a roupa está gasta de tanto vento e chuva que apanha, a faixa fluorescente à volta da cabeça é claramente excessiva, e a expressão dos seus olhos é de quem está para lá de Marraquexe. O outro, um velhote que suspeito sofrer de Tourette, sempre muito inquieto, o rosto convulso, sempre a correr como quem vai salvar os bens de uma casa em chamas, dá aflição vê-lo. Não sei que será feito deles. [Read more…]