Um país civilizado faz leis contra mim

Se uma besta qualquer agredisse alguém que me seja querido, independentemente das razões, o meu desejo mais profundo e superficial seria o de conseguir levar a dita besta a sofrer dez vezes mais do que a vítima. Se fosse possível, gostaria, ainda, que todo o processo fosse lento, demorado e publicado em todas as redes sociais, com vídeos e fotografias suficientemente horripilantes para que o mundo inteiro pudesse assistir a todas as sevícias a que sujeitaria sadicamente a besta.

Isto faz de mim uma má pessoa? Sim, faz. Faz de mim uma pessoa normal? Penso que sim, porque o animal que está dentro de nós convive mal com o perdão. A lei de talião está-nos no sangue.

Ora, a civilização é um esforço, não é uma natureza, mesmo que queira sê-lo. O mundo é, no fundo, a ilha do Dr. Moreau: se não houver regras, comemo-nos uns aos outros. As leis existem para que o lobo que (também) sou seja obrigado a comportar-se como um homem.

Um homem, especialmente se for um agente da autoridade, não publica fotografias de criminosos em situação de fragilidade, porque isso já é uma forma de vingança, é, para ser meigo, feio. As leis obrigam à defesa da dignidade mesmo daqueles que se comportaram de modo indigno. As leis feitas contra mim impedem-me de agredir – e há fotografias que são agressões – os criminosos.

Defender isto não é o mesmo que defender o direito de roubar, agredir ou torturar. Concordo, em princípio, com a afirmação da Associação Sócio-Profissional da Guarda: os criminosos não são merecedores do mesmo respeito que o cidadão comum. Por isso é que devem ser condenados, que esse é o respeito que merecem os criminosos. O que for para além disso é indefensável.

Finalmente, não porque seja politicamente correcto, mas só porque é correcto, leia-se a Posição do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas sobre a divulgação de imagens de suspeitos em situação humilhante.