O infinito sem estrelas

“El electrón, en cambio, será emperador y mendigo, cantautor y labriego, cirujano y poeta surrealista, y todo lo que pueda ser.”

José Edelstein e Andrés Gomberoff, “Antimateria, magia y poesía”

Um dos cegos que tocam na rua de Santa Catarina tem agora um órgão eléctrico, ligado à tomada de um dos cafés com esplanada, e uma cadeira decente, um lugar, enfim, no grande alvoroço da rua. Com isso, desenvolveu uma postura profissional, compenetrada. Já não toca as músicas de que gosta, mas aquelas que poderão agradar ao seu público. Pomba branca, pomba branca. Então, bate, bate coração. A rosa que te dei.

Assemelha-se aos pianistas de bar de hotel, esses que parecem, a um tempo, conscientes do seu papel de animadores discretos, provedores de música de fundo para negócios, amores, revelações ou abandonos, e ausentes, porque mantêm o coração distante do que os dedos desenham no teclado. No nosso cego, apesar disso, revela-se um discreto orgulho por ser agora parte da instalação, um elemento mais de uma cidade aprazida e estonteada com a súbita atenção dos estranhos. Ei-lo, no seu posto, digno e útil.  [Read more…]