O infinito sem estrelas


“El electrón, en cambio, será emperador y mendigo, cantautor y labriego, cirujano y poeta surrealista, y todo lo que pueda ser.”

José Edelstein e Andrés Gomberoff, “Antimateria, magia y poesía”

Um dos cegos que tocam na rua de Santa Catarina tem agora um órgão eléctrico, ligado à tomada de um dos cafés com esplanada, e uma cadeira decente, um lugar, enfim, no grande alvoroço da rua. Com isso, desenvolveu uma postura profissional, compenetrada. Já não toca as músicas de que gosta, mas aquelas que poderão agradar ao seu público. Pomba branca, pomba branca. Então, bate, bate coração. A rosa que te dei.

Assemelha-se aos pianistas de bar de hotel, esses que parecem, a um tempo, conscientes do seu papel de animadores discretos, provedores de música de fundo para negócios, amores, revelações ou abandonos, e ausentes, porque mantêm o coração distante do que os dedos desenham no teclado. No nosso cego, apesar disso, revela-se um discreto orgulho por ser agora parte da instalação, um elemento mais de uma cidade aprazida e estonteada com a súbita atenção dos estranhos. Ei-lo, no seu posto, digno e útil. 

Detivemo-nos a meio da rua, entre a confusão das gentes, e perguntei ao meu companheiro: “Quantos electrões haverá aqui?” Os electrões, é sabido, possuem a qualidade espantosa de poderem percorrer todos os caminhos, em simultâneo. Os electrões irão do Marquês à Batalha, desviar-se-ao para todas as transversais, entrarão em todas as lojas, em todas as casas, e tudo e tudo, em simultâneo, porque é essa a sua natureza. Mas, se por acaso os observássemos, o seu comportamento seria distinto pelo simples facto de havermos introduzido o nosso olhar na experiência.

Se calhar, não é bem assim. Leio e não entendo livros de Física para leigos e gosto da vertigem de não perceber nada mas ter um vislumbre da compreensão das leis do cosmos. Os electrões podem ser tudo, numa única existência, todas as manhãs do mundo, todas as vidas, e como poderia isso não seduzir-nos?

Percorro a rua de Santa Catarina há tantos anos que posso dizer, que, como os electrões, já fiz todos os caminhos possíveis, tomei todos os desvios, fiz todos os percursos, não ao mesmo tempo, mas numa mesma vida, e o que ainda me falta. Sei que é mentira, mas agrada-me essa ilusão.

Aproveito a pausa entre canções para perguntar ao músico se conhece um bolero que Los Panchos tornaram célebre, mas que foi escrito pelo Bobby Capó, genial e ignorado compositor. Ele diz-me que sim, sorridente, solícito, tal qual os pianistas de bar de hotel, e começa a tocar esse bolero cujo verso inicial diz “Que se quede el infinito sin estrellas”. É o título de um dos capítulos do livro de Física que ando a ler. O mundo tem formas estranhas de fazer sentido.

Começam a então a juntar-se pares a meio da rua, ou não fosse tão difícil resistir a um bolero, não é? Dançam admiravelmente, jovens e não tão jovens, e vão-se juntando mais e mais, até que apenas resta um carreiro estreito para passar porque a rua fez-se uma clareira enorme em que deslizam os dançarinos, e também nós nos juntamos à dança, porque é difícil resistir a um bolero, não é?

Os electrões passam e voltam a passar, como loucos, por todos os dançarinos, por todos os caminhos, por toda a rua que é nossa.  E o cego, como se, não vendo, os pressentisse, sorri sempre e não falha uma única nota, solene e radioso.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / pestreita.wordpress.com

Comments

  1. miguel dias says:

    nem imaginas as saudades que me dão do Porto sempre que te leio

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