O raio da partícula

Explicada a crentes e descrentes pelo Marco Santos.

Não há uma partícula de Deus

Não é para chatear que escrevo este post!

Mas esta expressão, ‘partícula de Deus’, atrai-me desde que ouvi falar nela há cerca de um ano.

Hoje, é capa dos jornais. O JN escreve: “Estamos mais perto de conhecer a origem do Universo”.

É que, afinal, essa partícula dita de Deus, existe.

A “partícula de Deus” tem ainda outro nome: «o bosão de Higgs», ou seja, a partícula das partículas, que dá massa às outras partículas. “O bosão de Higgs foi teorizado para explicar por que é que a matéria existe. Acontece que o chamado Modelo-Padrão, actualmente a melhor descrição das partículas subatómicas e das forças que as unem, exige que uma partícula confira massa às outras. Sem ela, o universo que hoje observamos, com as suas galáxias, planetas — e nós —, nunca teria surgido.”

Tolentino de Mendonça, padre e teólogo, comenta sobre o assunto do seguinte modo: “A Teologia explica o porquê da criação, a Ciência o como. O «como» é do domínio da Ciência. Não há uma partícula de Deus. Não há um segredo de Deus na Física. O segredo e a partícula de Deus são mais do domínio espiritual, do sentido da vida e da finalidade da criação do que a causa física do Universo”.

É interessante a ideia de que existe uma partícula que confere massa às outras!

E que, sem ela, nós não teríamos surgido!

E, mais curioso ainda, que essa “partícula” seja, justamente, atribuída ou designada como «de Deus»!!

E, finalmente, ocorre-me ver-nos como partículas, «coisas» minúsculas, pequeninas, grãos de areia fazendo parte de um Universo infinito (ou finito), imenso. E, no entanto, somos tão importantes!

Uma partícula subatómica a fazer falta, faz uma diferença do «caraças»!! Pode um puzzle estar completo sem uma peça? Até irrita, incomoda, quando nos falta logo uma e apenas uma peça e não há meio de saber onde está… o puzzle deixa de fazer sentido. Não está terminado…

P.S.- Por outro lado (e isto só para quem acredita), não seremos partículas de Deus? Ups…

Vaclav Havel

As ideias de Vaclav Havel (1936-2011) têm sido lembradas e sublinhadas por jornalistas (Henrique Monteiro no Expresso e Jorge Almeida Fernandes no Público) e até pelo padre Anselmo Borges (no DN).
Havel disse que 1) estamos a desenvolver desenfreadamente a primeira civilização ateia, uma vez que se “perdeu a conexão com o infinito e a eternidade” ; 2) preferimos o ganho a curto prazo; 3) somos arrogantes (achamos que conhecemos tudo e que “aquilo que ignoramos depressa o descobriremos, porque vamos saber tudo”; somos ingratos (” esquecemos o que as anteriores civilizações sabiam”); a recente crise financeira e económica “é um aviso contra a desproporcionada autoconfiança e o orgulho da civilização moderna” – ela é “como um pequeno apelo à humildade”; não tomemos nada como automaticamente garantido”; não somos Deus (a nossa “estúpida convicção de omnisciência”); é preciso convocar o “sentido de antecipação”.
Havel, que se dizia “meio crente”, tinha a “certeza de que tudo no mundo não é apenas efeito do acaso: “estou convencido de que há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina.”
Falava, por isso, em “transcendência”, que considerava ser “a única alternativa real à extinção.”
Não quis silenciar o que pensava ser a verdade.
Como político, reconhecia o défice de legitimidade da política, que deve orientar-se por valores éticos e espirituais.
Havel acreditava que Humanidade ainda teria que passar por mais sofrimento “ antes de compreender quão incrivelmente míope pode ser um ser humano ao esquecer que não é Deus”.
A propósito disto, vem-me à memória a notícia sobre a ‘partícula de Deus’ que o CERN procura isolar. O Bosão de Higgs ou a ‘partícula de Deus’ é, segundo os cientistas daquela organização europeia de Pesquisa Nuclear, “a peça que falta no puzzle” para explicar porque existe o universo.
Quantos milhões de euros serão necessários gastar (em detrimento de descobertas essenciais no âmbito da Saúde e /ou no sentido de minimizar o sofrimento real de milhões de seres humanos) para fazer entender ao Homem que não pode explicar tudo, embora possa fazer todas as perguntas
Primeiros votos para 2012: mais ética e mais sensibilidade/espiritualidade na política e que a ‘partícula de Deus’ seja reconhecida como sendo, efetivamente, a  peça que só Deus sabe onde guardou e a que o Homem não tem nem terá acesso por mais que queime as pestanas!!