Pó enamorado

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Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.

Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.

As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir. [Read more…]

Então, continuação…

É coisa para acontecer de vez em quando. Está um gajo muito sossegado e batem-nos à porta, ou param-nos na rua. É uma daquelas pessoas que não conhecemos mas que nos interpela ou conhecemos de forma distante. Lá trocamos uma ou outra palavra, mais ou menos de circunstância, e nas despedidas dizemos um longíquo ‘adeus’, um breve ‘até à próxima’, um amigável ‘até já’. Em troca recebemos um banal ‘continuação’.

Continuação? Mas continuação de quê?

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De um bom dia? E se ele estiver a correr mal? Quer, por acaso, o parvalhão que o nosso dia continue uma merda?

De uma boa carreira profissional? Mas e se estamos desempregados? Quer o magano que continuemos assim, a viver do subsídio?

De uma continuação do que estamos a fazer? Provavelmente, mas e se isto é dito a um gajo que se está a enforcar? “Vá lá à sua vida, tenha uma boa continuação do seu suicídio, que corra bem. Tenha em atenção ao nó e veja lá essa corda que já teve melhores dias. Continuação…”.

É ridículo, não é? Como aqueles relatadores ou comentadores de futebol que dizem que uma equipa que está a perder tem de “correr atrás do prejuízo”. Ó senhores, pelas alminhas, quem é que vai correr atrás do prejuízo?