Pó enamorado


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Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.

Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.

As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir.

Nessa manhã, o grande volume de cinzas foi despejado no jardim, e, apesar do cuidado que se pôs na operação, formou-se uma nuvem de pó que me fez espirrar. Quanto se teria rido o meu pai se soubesse que a última coisa que fiz com ele foi espirrá-lo. Foi, aliás, a primeira vez que senti a falta dele, ao pensar que faltava ele ali para rir comigo. No recipiente disponibilizado pela funerária, um vaso negro, solene, as cinzas são qualquer coisa de sagrado, um despojo nobre. Num frasco transparente, as cinzas são comezinhas e domésticas, quase se pode falar com elas, dizer-lhes “Para já, vão ficar aqui na estante, têm luz, à beira da janela, e depois a gente leva-vos para aquele sítio.” Mas não cheguei nunca a falar com elas, não se apoquentem.

Trouxe comigo, portanto, o frasquinho com uma pequena parte das cinzas e pousei-o na estante, atrás da mesa onde escrevo. Se espreitarem, agora, por detrás do meu ombro, talvez consigam vê-lo. Nunca tinha visto cinzas humanas e reconheço que fiquei desconcertada. Creio que imaginava algo que pudesse assemelhar-se ao “pó enamorado” de Quevedo e afinal tudo se reduz a uma matéria cinzenta, algo granulosa, e cuja origem é indecifrável. É certo que a matéria se transforma, mas que o meu pai, mais o seu fato favorito, a sua gravata azul, o seu cachecol do FCP, sejam este pó cinzento que restou parece-me difícil de acreditar.

Como não choveu pouco nos meses seguintes, fomos adiando levar as cinzas para o outro sítio, porque a ideia de que as cinzas se fizessem lama era-nos desagradável. E, assim, o frasco foi ficando na estante. Não tenho nenhum interesse mórbido nas cinzas, quando penso no meu pai não penso nas suas cinzas, passam-se muitos dias em que nem me lembro que estão ali, e só mexo no frasco quando ele está mesmo em frente ao livro que quero tirar da estante.

Tal como o meu pai, eu também gosto de dizer que já sei o que dirá a lápide que não vou ter. Como, apesar de tudo, sou menos rezingona do que ele, a minha dirá:

“Gostei muito deste bocadinho.”

Penso que ele seria a única pessoa no mundo a achar verdadeiramente graça a isto. Acreditávamos ambos que uma piada pode resistir pelo menos tanto como o mármore.

No outro dia, perguntaram-me se sempre vou levar as cinzas ou deixá-las ficar e espantei-me com a pergunta. O plano não mudou, as cinzas têm destino. Mas não estão mal onde estão, lá isso é verdade, e continuo à espera do dia em que um visitante inadvertido perguntará: “Ah, esta areia trouxeste de donde?” e eu vou gostar de observar a sua expressão quando lhe explicar de que se trata. O que estou disposta a mudar é de frasco, até porque consigo ouvir o protesto do meu pai: “Meteste-me num frasco de champô?! Tem algum jeito?”

Nenhum de nós teve, alguma vez, jeito para o solene, lá isso não.

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. eu avento says:

    risos … risos … risos …
    (é por textos como este que não largo o Aventar)

    • Victor Nogueira says:

      Muito interessante. Gosto de ler as suas crónicas. Tb e à espera de ocasião para entrega á Natureza e janto a livros tenho um pote de matéria idêntica

  2. Afonso Valverde says:

    Humano, muito Humano.
    Para além das cinzas, está a relação de amor. As vidas vividas e a viver.
    Elas são o pretexto para que a relação continue.
    Nós leitores “petiscamos” essa relação através da sua excelente escrita.
    Agradecido.

  3. António Ferreira says:

    Texto lindíssimo! Que beleza … e aparente desprendimento!
    Parabéns.

  4. helena says:

    Amei… Deixar partir os entes queridos é tão dificil …

  5. Konigvs says:

    É curioso como ainda por estes dias pensava na Carla. Relembrava aquele seu texto em que que dizia que, apesar da impossibilidade, por vezes, quase acreditava estar a ver o seu pai, e em que eu comentei que me acontecia precisamente o mesmo, apesar no meu caso, a pessoa não me ter morrido fisicamente.
    E também eu converso muitas vezes com aquela mulher que voou para muito longe dos meus braços. Já me aconteceu ir a conduzir, olhar para o banco ao lado e vê-la ali, a olhar para mim. Muitas vezes até tenho conversas parvas com ela, e imagino o riso dela tão caraterístico, e depois também rimos os dois. Acho que na verdade nunca encontrei mulher que me achasse tanta graça como ela. “Tu és demais” dizia-me constantemente, e apesar de eu achar que sim, que tenho sentido de humor, mas não posso ter tanta graça assim.
    Também muitas vezes escrevo sobre ela. Acho que primeiro de tudo, para eu mesmo acreditar, que o que vivi com aquela pessoa, naquele curto período do tempo, aconteceu mesmo, e não é tudo da minha cabeça. E depois porque para mim acaba por ser terapêutico.
    A dor da perda nunca é fácil, e não é pelo menos para aqueles que como eu se ligam às pessoas de quem gostam. “Não é que isso seja mau, mas tu apegas-te demais às pessoas e depois é tudo muito mais complicado” disseram-me. Mas para mim não há outra forma de viver que não seja aquela de nos entregarmos aquelas tão poucas pessoas com quem na vida criaremos fortes laços de amizade ou de amor.
    E depois eu provavelmente devo fazer tudo ao contrário do que os livros de auto-ajuda e os psicólogos dizem que se deve ou não fazer. Até do que os amigos me dizem. Mas cada um sente e faz o luto à sua maneira e procede da forma que acha melhor para si. É que, em pessoas diferentes, nem sempre o mesmo medicamento resulta de igual forma.
    E tudo isto para lhe dizer que, por estes dias pensava na Carla, porque gostaria de lhe dizer que, se tudo correr bem, daqui por algumas horas – oito meses e quatro dias depois – irei mesmo ver esta mulher, e irei até tê-la de novo nos braços, mas só durante o tempo que durar o abraço apertado que certamente iremos dar.
    Sabe Carla, apesar da dor de já não podermos ter aquela pessoa da forma que gostaríamos, eu acho que nós só perdemos mesmo as pessoas que amamos, quando elas se esquecerem definitivamente de nós, quando deixarem de se preocupar connosco ou deixarem de nos querer bem.

  6. Obrigada pelos vossos comentários. Fizeram-me sentir que valeu a pena publicar este texto e a verdade é que hesitei muito antes de fazê-lo.

    • xavier says:

      Não hesite, Carla, não hesite…, pois quantas coisas tanto ou mais interessantes podem ter-se perdido. Sabe, as vezes é preciso não ter medo do aquilo que pensamos ou descobrimos na vida. Eu já tive medo de algumas coisas que pensava, ou melhor que nunca acreditei poder pensar…
      xavier

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