Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 5 – Pedro Homem de Mello


«Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!…
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?…
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira…
Que triste e rouca a voz dos mercadores!…
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores…
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade…
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas…
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!…»

Pedro Homem de Mello, Poesias Escolhidas

Outros textos:
1 – Francisco José Viegas
2 – Guilherme Felgueiras
3 – Eça de Queirós
4 – Miguel Torga

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Todos contra a Barragem 0,1% – Depoimentos sobre o Douro e o Tua. 3 – Eça de Queirós


«Em 1880, em Fevereiro, n’uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas mais rijas»―me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha Nini deixára um espartilho embrulhado no Jornal dos Debates, censurei severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a flôr do meu Saber Juridico. Depois n’um Post-Scriptum elle accrescentava―«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas, e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque vai hoje em trinta e seis [20]annos que casámos, temos cá o abbade e o Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio, entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas, ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte e cheiroso de serra e de pinheiral. [Read more…]