Ter ou não ser (Memória descritiva)

Talvez Shakespeare pudesse ter formulado a famosa dicotomia deste modo – To have or not to be – that is the question. Contudo, para que assim tivesse sido, teria de conhecer a sociedade actual onde, para se ser, para se existir, é preciso ter. Nos nossos dias, perder tempo com introspecções sobre o ser ou o estar? Inútil, pois uma coisa e outra confundem-se – uma olhadela à conta bancária resolve a questão. Se tem, é e está. Não tem? Não existe, é como se não estivesse.

E, no entanto, ainda há poucas décadas, Jean-Paul Sartre e o existencialismo afirmavam a prevalência do ser e o primado da existência sobre a essência, afirmando que a primeira antecede e governa a segunda. Mas o bom William viveu a época em que os dados acabavam de ser, décadas antes, lançados por Lutero e a semente não produzira ainda os seus perversos frutos. O protestantismo vinha impor o dever da riqueza, o pecado de ser pobre e de um homem não poder prover todas as necessidades da sua família, por oposição ao catolicismo que defendeu sempre (e persiste) na pobreza como virtude. E a igreja de Inglaterra aderiu à Reforma, mas não às teses de Lutero. O anglicanismo erradicou o papa, mas conservou toda a restante parafernália herdada de Roma. [Read more…]