O buraco ortográfico

Credits: Event Horizon Telescope collaboration et al. (https://go.nasa.gov/2Z2mJPS)

Sey. The Queene (my Lord) is dead.
Macb. She should haue dy’de heereafter;
There would haue beene a time for such a word:
To morrow, and to morrow, and to morrow,
Creepes in this petty pace from day to day,
To the last Syllable of Recorded time:
And all our yesterdayes, haue lighted Fooles
The way to dusty death.
— Shakespeare, “Macbeth” (Folio I, 1623)

***

Depois das notícias de ontem sobre o buraco negro (eis o artigo), regressemos ao buraco ortográfico aberto pelo poder político.

Repare-se neste exemplo clássico:

Exactamente:

Menção de que o candidato declara serem verdadeiros os fatos constantes da candidatura.

Trata-se efectivamente de exemplo que é genuinamente clássico, conhecido no Palácio de São Bento, pelo menos, desde o dia 7 de Fevereiro de 2013 (cf. página 7 em “Documentação entregue [formato PDF]“). Entre a entrega do documento que redigi e o dia em que escrevo estas linhas, portanto, é só fazer as contas, deixa cá pegar num lápis aguçado, ora bem, já lá vai uma, já lá vão duas, já lá vão três, já lá vão, deixa cá ver… 322 semanas.

Até hoje, como se vê,

nada se fez.

Todavia, fala-se muito (“Portugal fez a sua parte“). Aliás, fala-se imenso (“Orgulho-me de ter assinado o Acordo em 1990“). Declara-se abundantemente (“O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico“) e profere-se bastante («Portugal “aguarda serenamente” a conclusão da ratificação do acordo ortográfico pelos membros da CPLP que ainda não o fizeram»), com tiros pela culatra.

Enfim, muita conversa e o buraco a aumentar.

***

Espalhafatos e coisinhas assim

Lear. Get thee glasse-eyes, and like a scuruy Politician, seeme to see the things thou dost not.

— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)

A TextGrid is a collection of tiers (this rhymes with cheers, not with liars).

— Paul Boersma (p. 350)

… ’tás sempre a falar coisinhas assim.

— Rodolfo Reis, 2/9/2018

***

Mais imagens esclarecedoras.

A propósito, convém sempre regressar a este belíssimo texto de Donald Davidson, cujo trecho mais célebre é o seguinte (p. 47):

A picture is not worth a thousand words, or any other number. Words are the wrong currency to exchange for a picture.

oito anos, dois meses e dez dias, o Expresso anunciou a adopção do AO90. Eis um dos resultados tangíveis das grafias utilizadas por quem actualmente adopta esse modelo ortográfico [Read more…]

Dúvidas legítimas da Fenprof

Lear. Blow windes,& crack your cheeks; Rage,blow
You Cataracts, and Hyrricano’s spout,
Till you haue drench’d our Steeples, drown the Cockes.
You Sulph’rous and Thought-executing Fires,
Vaunt-curriors of Oake-cleauing Thunder-bolts,
Sindge my white head. And thou all-shaking Thunder,
Strike flat the thicke Rotundity o’th’world,
Cracke Natures moulds, all germaines spill at once
That makes ingratefull Man.
[…]
Heere I stand your Slaue,
A poore, infirme, weake, and dispis’d old man
— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)
Reg. We shall further thinke of it.
Gon. We must do something,and i’th’heate. 
— Shakespeare, “King Lear” (Folio I, 1623)
***

Segundo o Expresso, o secretário-geral da Fenprof duvida que esteja tudo preparado para uma abertura sem problemas do ano ‘letivo’. Mário Nogueira menciona uma visão idílica do ministro da Educação, por este garantir que tudo está preparado para que o ano ‘letivo’ comece com normalidade. De facto, se experimentassem uma abertura do ano lectivo, veriam que um dos problemas ficava logo resolvido.

Efectivamente, esta imagem actual do sítio do costume

deve-se a visões idílicas de anos ‘letivos’.

De facto, também a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, aparentemente, decorre com normalidade, ou seja, sem «estrangulamentos e constrangimentos».

Exactamente.

***

Shakespeare sem Acordo Ortográfico de 1990

Hamlet e Macbeth. Efectivamente, há esperança.

O coreto mais correcto

Crows swoop down into the empty bandstand. I don’t know what they could be looking for.

— Sam Shepard

“Cow that went into them boots musta had the measles, huh? What kinda hide you call that?”

“That’s belly ostrich, sir.”

“Belly ostrich. I’ll be. Ostrich ain’t even a cow, is it?”

Sam Shepard

***

Duvido que Ricardo Araújo Pereira tenha pronunciado o correspondente a correto, ou seja, [kuˈʀetu]. Muito provavelmente, pronunciou [kuˈʀɛtu], ou seja, correcto. Aliás, Araújo Pereira tem razões para estar irritado com o «politicamente correto», mas contente com Barreto [barrete+o], forreta, carbureto, jarreta, cloretocoreto e correto, perdão, correcto. Exactamente. Atenção aos ataques ramificados: porque o ‘coreto mais correcto’ funciona, mas o ‘coreto mais concreto’, variante do título, ou até «os teus segredos mais secretos», dos Rádio Macau, nem por isso. Porque, como os crows no coreto e a cow que não é avestruz, «there are more things in heauen and earth Horatio then are dream’t of in your philosophie».

O coreto mais correcto: o da minha infância (http://bit.ly/2G2EO9B). Foto via mapio.net: http://bit.ly/2FUZ0XX

No sítio do costume, já se sabe, não há problemas, é tudo facultativo:

***

As Lições de Português do Professor Expresso

Andrew ‘Andy’ Osnard: No paper trail.

— The Tailor of Panama

Domitius Enobarbus: And what they undid did.

— Antony and Cleopatra

Avanço por aí
No gelo salgado
O meu hálito derrete
O teu corpo congelado

— Rui Reininho

This is the glamorous life there’s no time for fooling around.

— Lloyd Cole & The Commotions, “My Bag“, Mainstream, October 26 1987 (obrigado, Nuno Miguel Guedes)

***

Por aí, leio o seguinte:

Há um discurso por aí que valoriza demasiado os erros ortográficos.

É verdade. Todavia, há outros discursos, como este (a reproduzir este), que os desvalorizam em demasia. Já agora, erros sintéticos?

De síntese? Ou sintácticos? De sintaxe? Ou *sintáticos? De nada?

Pelos vistos, o “por aí” criticado no texto será auto-referencial, pois o Expresso indica mais erros ortográficos do que “outros erros”:  

  • «A Joana foi há escola» é erro ortográfico;
  • «Ele tem uma obcessão por carros» também é erro ortográfico;
  • «É um fato que existem alterações climáticas» é um erro ortográfico;
  • «Eles vêm a dobrar» é efectivamente erro ortográfico;
  • «Derepente a zanga começou» é objectivamente erro ortográfico;
  • «É uma casa portuguesa, concerteza!» é de facto erro ortográfico;
  • «Hádes conseguir escrever um livro» não é erro ortográfico;
  • «Já fizestes os trabalhos de casa?» não é erro ortográfico;
  • «Quero duzentas gramas de fiambre!» não é erro ortográfico;
  • «A polícia interviu naquela confusão que houve na rua» não é erro ortográfico.

Curiosamente, como vimos, o texto em apreço debruça-se sobre [Read more…]

Pelo fato de não existir obra em curso

Eu falo com factos concretos.

— Rodolfo Reis, 28/5/2017

Cæs. The Ides of March are come.
Sooth. I sar, but not gone.

— Shakespeare, “Julius Caesar” (Folio I, 1623)

***

***

O regresso do motivo que determinou tal fato

Rich. Downe, downe I come, like glist’ring Phaeton,
Wanting the manage of vnruly Iades.
In the base Court? base Court, where Kings grow base,
To come at Traytors Calls, and doe them Grace.
In the base Court come down: down Court, down King,
For night-Owls shrike, where moũting Larks should sing.

— Shakespeare, “Richard II” (Folio 1, 1623)

Will you chew until it bleeds?

Trent Reznor

Rich. Now is the Winter of our Discontent,
Made glorious Summer by this Son of Yorke:
And all the clouds that lowr’d vpon our house
In the deepe bosome of the Ocean buried.

— Shakespeare, “Richard III”  (Folio 1, 1623)

***

Eis, de novo, o motivo que determinou tal fato.

Efectivamente.

De facto, já dizia o velho Spooner,

there are some people who appear to be strong, whose idea of what strength consists of is persuasive, but who inhabit the idea and not the fact. What they possess is not strength but expertise. They have nurtured and maintained what is in fact a calculated posture. Half the time it works. It takes a man of intelligence and perception to stick a needle through that posture and discern the essential of flabbiness of stance.

Exactamente.

***

Unidos de fato

Don’t you know the truth is killing you?

William Henry Duffy & Ian Robert Astbury

Shy. The villanie you teach me I will execute, and it shall goe hard but I will better the instruction.

— Shakespeare, “The Merchant of Venice” (Folio 1, 1623)

No one to blame always the same.

Trent Reznor

***

Unido de fato?

Com o titular de uma habitação pública já atribuída?

Exactamente: «unido de fato com o titular de uma habitação pública já atribuída».

Efectivamente, andamos nisto há muito tempo. [Read more…]

«É muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa»

CYRANO. Un baiser, mais à tout prendre, qu’est-ce ?
Un serment fait d’un peu plus près, une promesse
Plus précise, un aveu qui veut se confirmer,
Un point rose qu’on met sur l’i du verbe aimer.

Edmond Rostand, “Cyrano de Bergerac

***

«É muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa».

Efectivamente, parece propaganda ortográfica. Não é. Mas parece, até estilisticamente. «É muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa», de facto, neste caso, trata-se de propaganda futebolística. Contudo, vamos àquilo que nos interessa.

Em ‘reataram’ e ‘realizada’, o primeiro ‘a’ (= <a>) corresponde à vogal oral central média baixa [ɐ].  É escusado virem com o ‘reatam’, em que o primeiro ‘a’ (=<a>) não corresponde à vogal oral central média baixa [ɐ], mas à vogal oral central baixa [a], pois em em ‘reatam’, o primeiro ‘a’ (=<a>) encontra-se em posição tónica. Como diria o outro, «there’s the rub».

Exactamente.

De facto, um cê faz imensa falta.

Desejo-vos um óptimo fim-de-semana.

***

A vergonha habitual, no sítio do costume

Beat. he that hath a beard, is more then a youth: and he that hath no beard, is lesse then a man.

— Shakespeare, “Much Ado About Nothing” (Folio 1, 1623)

George: Good, better, best, bested. [Back to Nick] How do you like that for a declension, young man? Eh?

— Edward Albee, ‘Who’s Afraid of Virginia Woolf?’

Uma autêntica vergonha.

— Rodolfo Reis, 10/6/2015

***

Por razões habituais, óptimas, espectaculares, excelentes, formidáveis e estupendas (a lista de atributos algo aleatórios encontra-se activa),

não consegui ver em directo o Glorioso e não actualizei o ponto da situação no sítio do costume.

Efectivamente, [Read more…]

A Arca do Dilúvio e a Pipa Apocalíptica

It’s hard to focus on ordinary economic analysis amidst this political apocalypse.

Paul Krugman

Blessed is he that readeth, and they that hear the words of this prophecy, and keep those things which are written therein: for the time is at hand.

Ap 1, 3 (apud, KJV)

Deslargue-me.

— António Lobo Antunes (p. 270)

***

Hoje de manhã, li este belíssimo texto do António Fernando Nabais. Depois, regressei ao meu trabalho académico e devidamente arbitrado — felizmente, não tenho a infelicidade de ser nem autor nem promotor do Acordo Ortográfico de 1990.

Lido o texto do nosso Nabais e tendo terminado a minha table of contents, dei por mim a pensar: “efectivamente, chegou”. Ou seja, chegou o Apocalipse Now, isto é, o apocalipse agora. Apocalipse, sobre o qual, aliás, já tive a oportunidade de tecer breves comentários (e de citar os sempiternos GNR).

Apocalipse significa descoberta. Apocalipse significa revelação. Por esse motivo, depois de João Roque Dias ter indicado esta pergunta [Read more…]

Um dia diferente

E a razão é simples: Évora não conseguiu a medalha.

Contudo, quanto ao resto, tudo exactamente na mesma:

Na falta de oposição, presumem-se verdadeiros os fatos?

Efectivamente, presumem-se verdadeiros os fatos.

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E o contacto é directo? Não, o contato é direto. Direto? Aliás, contato? Contato? Exactamente: contato.

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Como perguntou Barnardo, «who’s there?».

Melhor e actualizado, «is there anybody out there?»

Aparentemente, não.

Uma pequena retrospectiva desencadeada por determinada “veracidade dos fatos constantes”

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Samuel West as Henry V: ‘Upon the king’ (http://bit.ly/24AVtoX)

O, be sick, great Greatnesse,
And bid thy Ceremonie giue thee cure.
Thinks thou the fierie Feuer will goe out
With Titles blowne from Adulation?
— Shakespeare, “Henry V” (Folio 1, 1623)

***

Os “fatos constantes” portugueses nasceram em 2012, no Diário da República, mantendo-se actuais e com óptimo aspecto, apesar de indicados (isto é, denunciados) na página 7 de documento entregue na Assembleia da República, em Fevereiro de 2013.

Efectivamente, tivemos “os fatos constantes” quer em  [Read more…]

O Acordo Ortográfico de 1990 e o perigo

Pol. What do you read my Lord?
Ham. Words, words, words.
— Shakespeare, “Hamlet” (Folio, 1623)

***

Como é sabido, iminente e não *eminente. Hoje, de novo, no sítio do costume.

dre21012016

Hoje? E ontem?

DRE 2012016

«Piada com Sporting obriga Marisa Matias a retratar-se»

MM retrata-se

Fonte: Jornal de Notícias (http://bit.ly/1RSJMFT)

 

At this point Hume really takes off. He says that we should examine the underlying principles of cause and effect, and he discovers two principles: the principle of causation and the principle of causality. The principle of causation says every event has a cause. The principle of causality says like causes have like effects. These, as he correctly sees, are not equivalent. For it might be the case that every event had a cause though there was no consistency in what sort of effects any particular cause might have, and no consistency in what sort of causes any effect might have.

— John Searle, Mind: A Brief Introduction, p. 196

though it makes the vnskilfull laugh, cannot but make the iudicious greeue
— Shakespeare, “Hamlet” (Quarto 2, 1604)

***

Segundo alguma comunicação social, Marisa Matias ter-se-á retratado, depois de uma piada sobre o Sporting:

«Uma piada de Marisa Matias que envolveu o Sporting incendiou as redes sociais, obrigando a candidata às presidenciais com apoio do Bloco de Esquerda a retratar-se». (Sol)

A frase de Marisa Matias, em entrevista ao ‘Observador’, gerou alguma polémica nas redes sociais e levou a candidata presidencial a retratar-se no ‘Facebook’. (A Bola)

Efectivamente, Marisa Matias retratou-se depois da piada sobre o Sporting: a entrevista em que a piada foi registada ocorreu no dia 7 de Janeiro e o retrato foi tirado em 14 de Janeiro. Contudo, verifique-se, a causa da retratação não é a piada.

Embora por razões grafémicas, também não encarei «o pedido de desculpas de João Pedrosa […] como uma retratação». Em português europeu, um pedido de desculpas não corresponde a uma retratação. Uma selfie, sim.

Post scriptum: [Read more…]

Alan Rickman, a voz

Alan-Rickman-alan-rickman-13116384-2560-1680Para os fãs de Harry Potter, morreu Snape, papel desempenhado por Alan Rickman. Muito antes de se ter celebrizado por andar a dar aulas de magia em Hogwarts, a voz e a presença deste actor deram corpo àquele que é, na minha opinião, o melhor Xerife de Nottingham da História do meu Cinema, mesmo se o filme era, no mínimo, sofrível. Reencontrei-o num teledisco dos Texas, com Rickman a encher a história com um sereníssimo mutismo.

Mais do que as suas qualidades como actor, no entanto, foi a voz que me marcou (a voz perfeita, como pude ler numa ligação encontrada no mural da Carla Romualdo). Timbre, força, serenidade, veludo escuro, a voz de Rickman transforma a de qualquer outro homem num soprano esganiçado. No meu arquivo sonoro, coloco-o na mesma sala das de Richard Burton ou de James Mason.

Ao ouvir o soneto 130 de Shakespeare, fico com a certeza de que o próprio Bardo está, neste momento, a pedir a Alan Rickman que não pare de o recitar. Ouça-se. [Read more…]

Os primeiros fatos do ano

alas poor yorick

Laurence Olivier, Hamlet, 1948 (http://bit.ly/1OwIaPs)

I guess some things never change
W. Axl Rose, Dead Horse

O throw away the worser part of it,
And liue the purer with the other halfe.
— Shakespeare, “Hamlet” (Folio 1, 1623)

A presente resolução do Conselho de Ministros determina a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no sistema educativo no ano lectivo de 2011 -2012 e, a partir de 1 de Janeiro de 2012, ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na dependência do Governo, bem como à publicação do Diário da República.

Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011

***

Enquanto, no mercado de Tsukiji, alguém adquiria o primeiro atum rabilho do ano, o Diário da República trazia-nos os primeiros fatos de 2016. Efectivamente, eis o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 em todo o seu esplendor e em plena aplicação, no primeiro número de 2016 do Diário da República — para quem não souber, Diário da República não é o Diário Oficial da União. Ou seja, ontem. Isto, é em Janeiro. Em Janeiro de 2016.

Exactamente: Janeiro de 2016 − Janeiro de 2012 = 4.

dre 412016

O New York Times e a falta de perspectiva

New York Times' Quarterly Profits Falls 58 Percent

© Ramin Talaie/Getty Images (http://for.tn/1O6S6ub)

Ficámos a saber, através do Expresso, que um artigo do Expresso chegou ao New York Times (o Expresso não faculta a ligação para o artigo do New York Times, mas faculto eu). Curiosamente, há dias, li no New York Times um artigo em que se citava Bernardo Mello Franco, um colunista da Folha de S. Paulo.

Igualmente curioso é, na última semana, ter sido possível ler, na Folha de S. Paulo, «o tribunal pode examinar a lei em todos os seus aspectos», «o espaço, que inclui recepção, biblioteca», «a falta de perspectiva», «um dos motivos da ruptura» ou «em situações excepcionais” e, no Expresso, “ainda que haja aqui outro aspeto“, «a Deco “divulgou publicamente” a receção», «na perspetiva da sua pré-campanha», «a rutura com a Primavera de Praga» (efectivamente, ‘perpetiva’ e ‘rutura’ no mesmo artigo) e «em situações “excecionais». [Read more…]

José Sócrates não deve responder

Sócrates1

Pol. and now remaines
That we finde out the cause of this effect,
Or rather say, the cause of this defect;
For this effect defectiue, comes by cause,
Thus it remaines, and the remainder thus.
— Shakespeare, “Hamlet” (Folio 1, 1623)

***

A entrevista que José Sócrates concedeu ontem à TVI terá, no mínimo, dois aspectos que merecem ser distinguidos. Contudo, hoje, em vez de nos debruçarmos sobre a entrevista propriamente dita e sobre os aspectos pertinentes, reflictamos acerca das 16 perguntas que o redactor Luís Rosa considera merecerem resposta do ex-primeiro-ministro.

Depois de terminado o exercício de reflexão, facilmente se conclui que a 13.ª pergunta pura e simplesmente não merece resposta. Encontra-se [Read more…]

Tristes grafias

RJ cls

R. Jakobson et C. Lévi-Strauss, Collège de France, février 1972 (http://bit.ly/1P3kXmF)

Most Potent, Graue, and Reueren’d Signiors,
My very Noble, and approu’d good Masters

— Shakespeare, “Othello” (Folio 1, 1623)

Mr. President and governors of the Academy, committee members, fellows, my very noble and approved good masters, my colleagues, my friends, my fellow students.

Olivier, Laurence Kerr, Baron Olivier of Brighton, 9 de Abril de 1979

***

Hoje, o ilustre Armindo de Vasconcelos desenterrou, algures, uma citação extremamente interessante dos Tristes Tropiques, de Claude Lévi-Strauss:

Il faut beaucoup de naïveté ou de mauvaise foi pour penser que les hommes choisissent leurs croyances indépendamment de leur condition.

É verdade, vem na página 169 da edição que possuo e, por incrível que pareça, apus-lhe uma nótula, há muitos, muitos anos, poucas semanas depois da minha chegada a Bruxelas.

Il faut beaucoup de naïveté ou de mauvaise foi…

Ingenuidade ou má-fé (sim, com hífen).

Sendo verdade que o magnífico discurso de Olivier nos conduz a um saudável regresso a Shakespeare (e ao Otelo interpretado por Olivier), esta deixa permite uma sempre agradável incursão nos textos de Lévi-Strauss: os Tristes Tropiques, sim, o famoso ponto de partida

Je hais les voyages et les explorateurs. Et voici que je m’apprête à raconter mes expéditions,

mas também o meu texto predilecto — “L’analyse structurale en linguistique et en anthropologie”,  (*) :

Dans l’ensemble des sciences sociales auquel elle appartient indiscutablement, la linguistique occupe cependant une place exceptionnelle : elle n’est pas une science sociale comme les autres, mais celle qui, de loin, a accompli les plus grands progrès ; la seule, sans doute, qui puisse revendiquer le nom de science et qui soit parvenue, à la fois, à formuler une méthode positive et à connaître la nature des faits soumis à son analyse.

Isto tudo a propósito de quê? Ora, bem, porque o fim-de-semana chegou ao fim.

Por esse motivo, podemos voltar ao sítio do costume e assistir ao espectáculo que se encontra em cena desde Janeiro de 2012.

dre 14122015

Exactamente: desde Janeiro de 2012 e estamos em meados de Dezembro de 2015 — ou seja, com Janeiro de 2016 à porta.

Portanto, Janeiro de 2016 − Janeiro de 2012 = 4.

Efectivamente, 4.

Andamos nisto há muito tempo.

(*) «L’analyse structurale en linguistique et en anthropologie», Word, Journal of the Linguistic Circle of New-York, vol. 1, n° 2, août 1945, pp. 1-21 ; republié dans Anthropologie structurale, Paris, Plon, 1958, chap. II.)

A ‘perspectiva’ e a ‘perspetiva’: a “unidade essencial”

paris

Gustave Caillebotte, Rue de Paris, jour de pluie (1877) © The Art Institute of Chicago (http://bit.ly/1EpPV3s) 

Mine eye hath played the painter, and hath steeled
Thy beauty's form in table of my heart;
My body is the frame wherein 'tis held,
And perspective it is best painter's art
— William Shakespeare, Sonnet 24

 

Na Folha de S. Paulo de hoje, Hélio Schwartsman escreve o seguinte:

Sob essa perspectiva, não só há lógica por trás do processo eleitoral como ela se mantém a mesma desde o início da corrida.

Ontem, no jornal O Estado de S. Paulo, ficámos a saber que, na opinião de João Bosco Rabello,

A perspectiva de chegar à Presidência pode ajudar a reverter parcialmente esse quadro, ainda que isso não seja provável em grande escala.

Depois de amanhã, a Universidade do Minho recebe a conferência “Perspetivas da Língua Portuguesa”.

Obviamente, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, como prometido, assegurou o tal “passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”.

Exactamente: “da unidade essencial”.

O fato do ano letivo

WS

http://bit.ly/15CJGJv

Ia debruçar-me sobre mais esta prova da grafia hipócrita por aí aplicada – e dedicar umas linhas ao “A Horſe, a Horſe, my Kingdome for a Horſe”–, quando, subitamente, me deparei com uma imagem que reflecte bem o estado da grafia actualmente adoptada no Diário da República: uma salsada com ortografia portuguesa europeia (‘selecção’), ortografia brasileira (‘fato’) e AO90 (‘setembro’ e ‘letivo’). 

DRE 1892013

Sim, está tudo a correr bem e sem problemas de maior”. “État anarchique”? De l’orthographe”? É verdade: até dizem que foi há 110 anos

Post scriptum: Sim, reparei na contracção e indiquei-a (), mas por descargo de consciência, pois nada tem a ver com o AO90 — já agora, voltando ao Shakespeare, convém sempre lembrar que ſ ≠ f.

peça de teatro procura autores

papagueno

Notas para uma peça de teatro plagiada a reescrever urgentemente… ajuda, precisa-se!

Reacção à *reação

Diz Vítor Cunha que “O Aventar é a reacção à reacção“. Discordo. Naquilo que me diz respeito, pretendo ser tão-somente uma “reacção à *reação“. Contudo, como João José Cardoso, “não sou o Aventar” e, confirmo, aturam-me cá por casa e, de facto, não sou muito de ler blogues.

Como dizia o Brad ‘Aquiles’ Pitt, “let no man forget how menacing we are, we are lions!”. Quanto a ‘verão‘, admito, só conheço a terceira pessoa do plural do futuro do indicativo do verbo ‘ver’.

Escrito isto, voltemos ao Homero (agora, ao autêntico) e às palavras de Ájax (‘Ἕκτορ νῦν μὲν δὴ σάφα εἴσεαι οἰόθεν οἶος οἷοι καὶ Δαναοῖσιν ἀριστῆες μετέασι καὶ μετ᾽ Ἀχιλλῆα ῥηξήνορα θυμολέοντα) — sirvamo-nos da tradução de Butler («Hector, you shall now learn, man to man, what kind of champions the Danaans have among them even besides lion-hearted Achilles cleaver of the ranks of men» ou da pièce de résistance (não, não é a Bombe Surprise), a excelente tradução de Frederico Lourenço (VII, 226-8):

Heitor, agora ficarás a saber em combate corpo a corpo

como são os guerreiros que existem entre os Dânaos,

além de Aquiles, desbaratador de varões, com ânimo de leão.

Post scriptum: Até para se perceber “O Homem que Matou Liberty Valance” (aqui, no Aventar, gostamos muito dele: pelo menos, eu e a Carla Romualdo) convém ter tudo isto bem presente. Quanto ao Dutton Peabody, aposto, por mera intuição, no Bardo.

As obras de Shakespeare

Documentário da BBC, legendado em português, sobre as principais obras de William Shakespeare.

Da série Filmes para o 8.º ano de História
Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI
Unidade 5.2. – Os novos valores europeus

Romeu e Julieta

Uma das obras mais importantes de Shakespeare, que segue muitas das características do teatro clássico. Das várias versões para teatro e cinema disponíveis na net, destaca-se a obra-prima de Zeffirelli, de 1968, legendada em português.
ficha IMDb

Carregue para ver o filme

Da série Filmes para o 8.º ano de História
Tema 5 – Expansão e Mudança nos secs. XV a XVI
Unidade 5.2. – Os novos valores europeus

Ter ou não ser (Memória descritiva)

Talvez Shakespeare pudesse ter formulado a famosa dicotomia deste modo – To have or not to be – that is the question. Contudo, para que assim tivesse sido, teria de conhecer a sociedade actual onde, para se ser, para se existir, é preciso ter. Nos nossos dias, perder tempo com introspecções sobre o ser ou o estar? Inútil, pois uma coisa e outra confundem-se – uma olhadela à conta bancária resolve a questão. Se tem, é e está. Não tem? Não existe, é como se não estivesse.

E, no entanto, ainda há poucas décadas, Jean-Paul Sartre e o existencialismo afirmavam a prevalência do ser e o primado da existência sobre a essência, afirmando que a primeira antecede e governa a segunda. Mas o bom William viveu a época em que os dados acabavam de ser, décadas antes, lançados por Lutero e a semente não produzira ainda os seus perversos frutos. O protestantismo vinha impor o dever da riqueza, o pecado de ser pobre e de um homem não poder prover todas as necessidades da sua família, por oposição ao catolicismo que defendeu sempre (e persiste) na pobreza como virtude. E a igreja de Inglaterra aderiu à Reforma, mas não às teses de Lutero. O anglicanismo erradicou o papa, mas conservou toda a restante parafernália herdada de Roma. [Read more…]

O próximo e todos nós

O palhaço

Jornal de Notícias – 2009-12-14

http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?opiniao=M%E1rio%20Crespo

“O louco tem-se por sábio, mas o sábio sabe que ele é um louco.” (William Shakespeare)

O que Mário Crespo descreve aqui tão magistralmente não só diz respeito a Portugal mas a toda a União Europeia e meio mundo, sobretudo aos EUA. Vale a pena ler, é profundo e divertido ao mesmo tempo.

Todavia, quando Mário Crespo, concluindo, escreve

“(…) Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples. Ou nós, ou o palhaço.”

falta diferenciar o seguinte: os nossos sociosistemas, devido a causas conhecidas, viraram às avessas. Isto é um facto. Tendo a sociedade esquecido como vencer a unidade polar (dualidade) entre os antagonistas inseparáveis e indispensáveis, o “sério” e o “palhaço”, ela ficou de índole “palhaça” no seu todo. É daí que resultou o grave desequilibrio da sociedade do qual todos nos ressentimos cada vez mais.

Quanto à forma de nos livrarmos do “palhaço”, porém, é preciso muito cuidado. Como ele faz parte do sistema, qualquer tentativa de irradiá-lo é inútil e levar-nos-ia pelos caminhos de George W. Bush de má memória. Portanto, não adianta tentar identificar, prender ou eliminar os “palhaços”, pois isto levaria a uma sociedade cada vez mais dividida que entrará em confrontação violente aberta. Basta retirar-lhes o “pio”, o poder. (Que alguns cidadãos que, sob o reinado do “palhaço”, cometeram crimes puníveis pela lei, tenham que ser julgados é natural mas não prioritário. Fica para depois porque as penas impostas em tempos de “palhaço” são…”palhaças). [Read more…]

A máquina do tempo: é a arte necessária?

 

 

 

 

 

Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso. Tal como Prometeu, o artista é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra, pela magia da cor, pelo sortilégio do som, cria a beleza para a ofertar aos homens. E produz esta magia usando as mesmas palavras que se utilizam, no dia a dia, para comprar pão, as mesmas cores com que se pintam muros e os mesmos sons que ecoam por campos e cidades. É o poder mágico do homem sobre a natureza hostil que o rodeia, transformando-a, adaptando-a a si. Humanizando-a. E como? Pelo poder da palavra, pela magia da arte. Por isso, enquanto a própria humanidade não morrer, a arte não morrerá. Esta, a natureza da arte, é uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, milhares de filósofos e de poetas discorreram longa e sabiamente sobre este tema. Não vou entrar por aí – o GPS da minha máquina não funciona em labirintos.

 

 

Por isso, a nossa viagem de hoje não nos levará para tão longe. Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, num trabalho com o título «A Necessidade da Arte», Ernst Fischer (1899-1972), o ensaísta austríaco,  dizia que «a arte é ela própria uma realidade social. A sociedade necessita do artista, esse supremo feiticeiro, e tem o direito de lhe pedir que tenha consciência da sua função social.» Na verdade, com o advento do capitalismo, surge pela primeira vez na história das civilizações uma classe dominante que não procura colocar, de uma maneira objectiva, a arte ao seu serviço. Pela primeira vez, o artista é livre de qualquer tutela e fica desvinculado das suas obrigações para com a comunidade de que faz parte.

 

Naturalmente que esta desmedida liberdade, longe do o libertar no sentido mais nobre da palavra, o sujeita a uma terrível tirania – à solidão, à angústia e ao desespero. Em alternativa, à submissão. É uma liberdade que, em última instância, o força a enfrentar sozinho toda uma sociedade orientada para o lucro. Das duas uma: ou o que produz é mercadoria vendível ou é rejeitado. Rectifico, portanto: o capitalismo não dá liberdade ao artista – abandona-o, rejeita-o, ignora-o. Dá-lhe a liberdade de aceitar as suas leis ou de não existir.

Voltemos a Fischer: «O artista na época do capitalismo encontrou-se numa situação muito peculiar. O rei Midas transformava tudo o que tocava em ouro: o capitalismo transformou tudo em mercadoria.» A arte passou, pois, a ser uma mercadoria e o artista um produtor. O sistema de mecenato foi substituído por um método de iniciativa privada e por um mercado livre onde a apreciação mercantil da obra ficou à mercê do gosto do público, gosto (de)formado por toda uma dinâmica de relações de mercado. Digamos que um livro, um quadro, uma partitura, têm de submeter-se às contingências da competição mercantil, às leis da oferta e da procura.

Fernão Lopes, Gil Vicente, Camões, viviam de tenças, de sinecuras ou de cargos atribuídos pela Corte. Shakespeare, ainda que burguês de origem, fazia parte da casa do conde de Leicester, submetendo-se a um estatuto feudal. Milton, que foi secretário dos negócios estrangeiros de Cromwell pôde guiar-se por uma norma burguesa, conciliando a sua poesia com as condições em que a criava, com uma total identificação entre a sua obra e as suas concepções políticas e sociais. Também manda a verdade que se diga que os artistas raramente foram gratos a quem os apoiava. Como disse Montesquieu «quase todas as monarquias foram instituídas na ignorância das artes e destruídas porque as cultivaram demais.» Por vezes a arte foi a víbora que tiranos distraídos alimentaram e que os veio a destruir.

Mas então não é um avanço o facto do artista poder criar a sua obra sem ter de agradar aos mecenas, ao rei, a senhores feudais, a burgueses ou ao Estado? Num certo aspecto,  é verdade. Porém, não esqueçamos que agora é a opinião pública que ajuíza do valor da sua obra. E como é formada (ou deformada) essa opinião? Por pedagogos, por gente de cultura? Não. Os chamados opinion makers são, em regra gente ou inculta ou desonesta, frequentemente as duas coisas. O «gosto popular» é formado pela imprensa – tablóides, revistas do coração – pela televisão, da forma que se sabe – telenovelas, reality shows, talk shows e toda essa tralha que nada tem a ver com a cultura. Em suma – o «gosto popular» é construído pelo marketing. No que se refere ao vestuário, à alimentação, a tudo – e também aos hábitos culturais.

Vejamos a literatura. A síndrome de Dan Brown leva a que se produzam em catadupa romances com a dimensão de tijolos competindo em acção e intriga, em teorias da conspiração e teses esotéricas com as séries televisivas e com os filmes de Hollywood. É este tipo de literatura que mais se consome. Está nas grandes superfícies a par com os iogurtes que regulam o trânsito intestinal, com os cereais que mantêm a linha, com o pão tipo esferovite, com as bebidas à base de aditivos… Terão estes livros alguma coisa a ver com arte? Acho que não. Mas têm tudo a ver com as necessidades do mercado.

Saramago, um bom e prestigiado escritor, recorre ao marketing para vender. O que vende milhares de livros seus não é apenas a inegável qualidade da sua escrita, mas a habilidade com que a promoção das suas obras é feita. Atente-se no exemplo recente de «Caim». As declarações que o Nobel produziu em entrevistas sobre a Bíblia são bem mais agressivas do que o livro propriamente dito que se limita a recontar uma história bíblica, virando-a do avesso, mas levando-a a sério. Resultado: a Igreja Católica, mesmo antes de ler o texto, saltou encolerizada, a polémica instalou-se, o livro vende-se a bom ritmo. Ontem, no décimo dia após o lançamento, esgotou-se a 4ª edição – 80 mil exemplares vendidos. É Saramago igual a José Rodrigues dos Santos ou a Margarida Rebelo Pinto? Claro que não. É um bom escritor. Mas numa coisa são iguais –  estão submetidos às leis do mercado, são tutelados pelas regras do marketing.

Dirão, «mas então uma das funções da arte não é precisamente a de entreter, a de distrair? Antes da escrita, quem contava histórias nas cavernas ou as pintava na rocha, não correspondia, nesse esforço de recrear, aos artistas actuais? Sim, uma dos objectivos  da arte será esse. Mas há um outro, mais importante – que é o de chamar a atenção para os problemas do ser humano e da humanidade – «abrir portas fechadas». Voltemos então a Ernst Fisc
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r.

Criar de acordo com o que o mercado pede é, como disse Fischer, «passar por portas abertas»: «A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. A cultura deve ser compreendida como todas as formas de expressão artística e todo o património material é simbólico da sociedade. Esse conjunto é fundamental para a nossa memória e identidade. Quando se promove oportunidade para que todos os grupos, inclusive as minorias, se exprimam culturalmente, fomenta-se o respeito pela diversidade. Assim, a cultura constitui-se como um veículo eficaz de promoção da paz, da cidadania, da coesão nacional». 

Quando o artista trabalha exclusivamente com a preocupação do mercado está a trair a arte. Pessoa escreveu os seus maravilhosos textos não para o mercado, mas para o baú onde os ia arrumando. Os anos 20 e 30 do século XX não estavam preparados para os receber. Morreu apenas tendo publicado o livro menor que foi a «Mensagem». Suspeito de que tinha consciência da sua grandeza. E, se assim foi, mais difícil lhe terá sido não ter destinatários para essa grandeza, gente que o lesse, críticos, leitores… Público, numa palavra.

*

Fischer salienta o carácter mágico da arte. Se for desprovida da magia que provém da sua natureza original, segundo ele, a arte deixa de ser arte. A arte tem a idade do homem e o homem foi, desde a sua origem e face à hostilidade da natureza, um mago. A magia da criação da ferramenta transforma um primata superior num homem. O homem produziu a magia que deu lugar à humanidade. É um produto de si mesmo. Só inventou deuses porque não entendia nem os mecanismos, nem o poder da sua própria magia. Não entendia também a natureza sobre a qual exercia essa magia. E precisava de explicar tudo isso. E a sua magia criou também os deuses e a lenda de que tinham sido os deuses a criar o homem.

A mão precedeu o cérebro no desvendar dos mistérios. A agilidade da mão fabricou o utensílio: mão e utensílio passaram a ser indissolúveis. Por isso disse aqui há dias que «no princípio era o trabalho». O homem primitivo não distinguia a sua actividade do objectivo que a determinava – actividade e objectivo formavam uma unidade. A abstracção veio depois com o advento da palavra. E a palavra veio substituir a magia. Transformou-se ela própria em magia. Os homens eram todos magos. Com a palavra consolidou-se o salto entre animal e ser humano.

Com a palavra nasceu a poesia, como referi num texto em que falei de George Thomson e do seu estudo sobre a origem e a evolução da poesia. Foi-me chamada a atenção para a antiguidade do texto de Thomson (e a primeira edição do texto de Fischer remonta já aos anos 60). As deduções que estabeleço não se baseiam nas últimas descobertas da antropologia, é um facto. Mas não é o estar em dia nessa informação que me preocupa. Há reflexões de Aristóteles que continuam a ser pertinentes. E ele não via a «National Geographic»…

Esta é precisamente um das maiores funções da literatura e arte contemporânea. Finalmente, o homem que se tornou homem pelo trabalho, que superou os limites da animalidade transformando o natural em artificial, o homem que se tornou um mágico, o criador da realidade social, será sempre o mágico supremo.  A arte, em todas as suas formas, era uma actividade comum a todos e elevando todos os homens acima do mundo animal. Mesmo muito tempo depois da quebra da comunidade primitiva e da sua substituição por uma sociedade dividida em classes, a arte não perdeu seu carácter colectivo. Somente a verdadeira e autêntica arte consegue recriar a unidade entre o singular e o universal. Somente a arte consegue elevar o homem de um estado fragmentado a um estado de ser íntegral, total. A arte é uma realidade social.

 

Embora não tenha consciência disso, a sociedade necessita do artista e da arte É a arte, entendida nos seus múltiplos aspectos, que leva o homem a compreender a realidade, e mais , a suportá-la e, até a transformá-la, tornando-a mais humana. A arte é indispensável. Sem ela a humanidade fica amputada e confinada à sua animalidade. Sem arte não há humanidade. Poderá haver robôs ou produtos da engenharia genética. Mas já não serão homens.  

Enquanto houver seres humanos, a arte não morrerá.