Ter ou não ser (Memória descritiva)

Talvez Shakespeare pudesse ter formulado a famosa dicotomia deste modo – To have or not to be – that is the question. Contudo, para que assim tivesse sido, teria de conhecer a sociedade actual onde, para se ser, para se existir, é preciso ter. Nos nossos dias, perder tempo com introspecções sobre o ser ou o estar? Inútil, pois uma coisa e outra confundem-se – uma olhadela à conta bancária resolve a questão. Se tem, é e está. Não tem? Não existe, é como se não estivesse.

E, no entanto, ainda há poucas décadas, Jean-Paul Sartre e o existencialismo afirmavam a prevalência do ser e o primado da existência sobre a essência, afirmando que a primeira antecede e governa a segunda. Mas o bom William viveu a época em que os dados acabavam de ser, décadas antes, lançados por Lutero e a semente não produzira ainda os seus perversos frutos. O protestantismo vinha impor o dever da riqueza, o pecado de ser pobre e de um homem não poder prover todas as necessidades da sua família, por oposição ao catolicismo que defendeu sempre (e persiste) na pobreza como virtude. E a igreja de Inglaterra aderiu à Reforma, mas não às teses de Lutero. O anglicanismo erradicou o papa, mas conservou toda a restante parafernália herdada de Roma.

Não estou a apoiar o elogio da pobreza que mais não foi do que uma maneira hipócrita que a igreja católica teve para conter a revolta dos deserdados, prometendo-lhes como compensação para a miséria em vida um paraíso de abundância após a morte. Uma falsa teologia do ser, mas que, apesar de tudo, contrariava o império do ter. Embora tal princípio apenas fosse defendido para que os ricos acumulassem riqueza e os pobres não contestassem essa acumulação.

Acontece é que a filosofia luterana plantada no Novo Mundo, resultou, séculos depois, naquilo que sabemos – uma sociedade que impõe os seus valores, em última instância a ferro e fogo. Afinal do mesmo modo que a igreja de Roma impôs os seus. Recordemos as Cruzadas e a «evangelização» nos territórios descobertos e conquistados.

No entanto, no interior da sociedade norte-americana, todos os estigmas que a mentalidade ianque espalhou estão presentes – consumismo feroz e acéfalo, marginalidade, tóxico-dependência, violência, subvalorização da cultura. Um individualismo que não parte das premissas existencialistas, onde se considera cada homem como um ser único que é mestre dos seus actos e do seu destino, e se proclama a liberdade individual, a par da responsabilidade e da subjectividade do ser humano.

Seres que gozam de uma liberdade individual ilimitada, é certo, mas que a usam para fazer o que todos fazem. Cada ser, na sociedade da era americana se julga único e mestre dos seus actos, embora seja igual a milhares de milhões e use esse determinismo para se comportar como um robô sem cérebro. Mas tudo o que de nefasto os E.U.A. exportam, existe abundantemente no seu interior. É o que se chama provar do próprio veneno. E, chegando ao tema central, tudo começa na educação, na instrução, no ensino das crias humanas.

Quando, como agora, se fala tanto no magno problema do ensino e das dificuldades (reais) dos professores para ensinar, pareceu-me oportuno lembrar o exemplo de Ètre et avoir (Ser e Ter) um filme realizado por Nicholas Philibert em 2002 e interpretado por George López. Vi-o em DVD. Conta a história de um ano lectivo numa pequena escola de aldeia, em França. Um jovem professor candidata-se ao lugar e é aceite.

O seu objectivo é ensinar, mas um problema se lhe depara – tem de ministrar o ensino numa sala onde há crianças de várias idades (entre os quatro e os onze anos), graus de conhecimento e de educação diferentes, etnias também distintas, pois há filhos de emigrantes. Afinal, um microcosmo representativo da sociedade humana. A maneira engenhosa, metódica, profissional, como resolve os problemas, constitui uma lição magnífica sobre a arte de ensinar. Passá-lo na televisão era boa ideia (talvez o tenham feito, vejo pouca televisão).

Há outros filmes como, por exemplo, o «Clube dos Poetas Mortos» que nos chamam a atenção para a melhor maneira de levar a cabo essa generosa missão, vital em qualquer espécie – a de transmitir os conhecimentos adquiridos aos jovens. Todavia, generosidade é um conceito humano. Deveria ter dito antes, o sentido da sobrevivência. Só sobrevivem as espécies que transmitem o saber acumulado às novas gerações. E nesta medida, na nossa espécie, o perigo não é o da extinção do homo sapiens, é o da sua transformação em homo ignarus ou em homo nescius.

No tal filme de Nicholas Philibert, narra-se de forma exemplar a forma como o professor programava as aulas e as preparava, sem esquecer as capacidades de cada um dos alunos, fixando objectivos, prazos. Com consciência de que os mais velhos o deixariam no Verão para acederem ao liceu. Sabendo, portanto, que o acompanhamento aos seus alunos estava limitado no tempo, o professor conversava com cada um deles, ajudava-os a vencer a angústia de enfrentar o grupo nas idas ao quadro e as risadas que cada erro despertava nos que sabiam, com os mais pequenos fazendo eco. O pânico de enfrentar multidões, de falar em público, acompanha-nos muitas vezes até à idade adulta.

Naturalmente que este professor dispunha de autoridade, não enfrentava um grupo disposto a incinerá-lo, como acontece nas escolas portuguesas (e não só, claro). Esta sociedade de grandes superfícies, consumo desenfreado, sexo assimilado na sua dimensão mais pobre e violência gratuita, transpira ódio à cultura. É uma atitude de vingança da imbecilidade perante a inteligência, um confronto em que a estupidez procura vencer o saber, tornando-o ridículo e risível.

É um sentimento que passa de pais para filhos. O professor enfrenta pequenos energúmenos arrogantes, crianças que podiam ser normais, mas que a falta de educação em casa, substituída pela função deletéria da televisão e do convívio incontrolado com outras crianças, transforma em perigosas aberrações. Como pode ele, por mais competente que seja, cumprir a sua missão?

Em «O Clube dos Poetas Mortos», outro excelente exemplo de como ensinar, o professor John Keating, ensaia a sua pedagogia pouco ortodoxa perante um grupo de alunos com características pessoais diferentes,. Embora, apesar dessa diversidade, não existissem exemplares como os que o professor do periférico bairro de Fitares teve de enfrentar e o levaram ao suicídio.

A exortação do verso de Horácio, carpe diem quam minimum credula postero (Frui o instante, sem acreditar no amanhã), teria em Fitares e nas colmeias suburbanas semelhantes, uma leitura diferente e de efeitos imprevisíveis, pois os conceitos de fruição são perigosamente diferentes – para já, para ser entendido, teria de ser formulado doutra maneira. Qualquer coisa como «curte o momento, meu, que se lixe o amanhã!».

Bem sei que muito do que acontece nas escolas públicas é fruto das condições sociais. Mas vejo que nos colégios particulares a situação não é radicalmente diferente. Há uma cultura de incultura, a cultura do ter ou não ser, que atravessa transversalmente o tecido social.

Seria preciso actuar. Para tal, a ministra e os políticos do seu partido, os políticos da oposição, teriam de esquecer as suas caricatas quezílias (que nem são ideológicas, mas de mero apego ao poder e às benesses que ele pressupõe), os professores, teriam de pôr em segundo plano as suas reivindicações corporativas (eventualmente justas, mas ridículas perante este magno problema). Porque nem tudo está perdido. Há jovens inteligentes, capazes, que estão na escola para aprender. Provavelmente até estão em maioria. Sabemos no entanto, o efeito que uma maçã podre exerce, quando no cesto a misturam com fruta sã.

Ter ou ser. Ter fortuna acumulada ou outros privilégios, roubados ou através da exploração de outros ou conseguidos sem olhar aos meios, ter poder, usando influências políticas… Ou ser digno, tão sábio quanto a nossa capacidade no-lo permita. Ser compassivo, ser humano. Tudo isto se ensina em casa, na família, e na escola.

Como eu gosto de pregar no deserto.

Vejam estas cenas de «Clube dos Poetas Mortos»:

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Em termos de disciplina e de organização nos privados é radicalmente diferente, Carlos!

  2. Inventado says:

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  3. Carlos Loures says:

    Talvez haja um pouco mais de disciplina e de organização. Há meses, pediram-me para ir falar sobre os meus livros a um colégio privado. Tudo muito arrumadinho, os alunos foram fazendo perguntas que liam (o que me fez desconfiar de que tudo tinha sido preparado pelos professores). Correu tudo muito bem. Demasiado bem, diria até, pois esperava uma rebaldaria das antigas. Provavelmente numa escola pública teria sido diferente. Mas o que interessa é a mentalidade prevalecente e, pelas entrevistas a alunos do Carvalho Araújo, pareceu-me que, em trmos substanciais, a diferença não é assim tão grande.

  4. maria monteiro says:

    No privado é preciso mostrar, a quem vá de fora, que tudo acontece com naturalidade e isso requer sempre muito ensaio. Digo eu que presenciei o que foram os 9anos em que o meu filho esteve no ensino privado católico

    • Luís Moreira says:

      O meu filho andou no valsassina e não havia ĺá furos nem furinhos.faltava um professor avançava outro. 75% dos alunos entrem na 1ª opção na Universidade.

  5. Carlos Loures says:

    Não contesto que o ensino nos colégios privados seja, de uma froma geral, melhor. A questão que coloco é – o respeito efectivo pelos valores culturais será, de facto, maior ou o que acontece é que uma maior disciplina esconde um desprezo semelhante ao que se verifica no ensino público?

  6. Carlos Loures says:

    O fulcro do problema é – como é que estamos a educar os nossos jovens? Como é que eles se vão movimentar num cenário complexo em que as competências para descodificar sinais é importante, mas o respeito pelos valores humanos não o é menos. Gorki dizia: «O importante é que o homem cada vez se distancie mais do animal». O que vejo são os instintos animais a prevalecerem e, para mais, pervertidos pela mente humana, sem a inocência dos animais, portanto – a maldade e o egoísmo em estado puro a sobreporem-se à humanidade que nos devia caracterizar. Os políiticos são uma eloquente demonstração do que digo.


  7. Belo trabalho Carlos, do melhor que se escreveu no Aventar sobre o ensino, o que lhe subjaz e o que o envolve. Esta tua frase “Há uma cultura de incultura, a cultura do ter ou não ser, que atravessa transversalmente o tecido social”, é a verdade das verdades. É esta leitura que está na mente da maioria dos professores, e também dos alunos, “e nesta medida, na nossa espécie, o perigo não é o da extinção do homo sapiens, é o da sua transformação em homo ignarus ou em homo nescius”.

  8. carla romualdo says:

    Excelente post, meu capitão, lúcido e muito oportuno. (desculpa isto ser tão pouco elaborado mas o tempo não é muito…)

  9. Carlos Loures says:

    Obrigado Adão e Carla. A discussão deste tema, aqui no Aventar, tem sido conduzida sobretudo por professores e pela Daniela, que nos proporcionou uma valiosa perspectiva como aluna, com uma ou outra «intromissão», como a do Luís Moreira. Penso que é tempo de todos nos intrometermos. Nâo é um tema exlusivo de professores e alunos, mas sim algo que diz respeito a todos os cidadãos. Em que mundo vão viver os nossos filhos e netos? Espero os vossos textos. Um grande abraço.

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