O meu pai, o imortal

Os médicos chamaram-nos para que estivéssemos por perto naquelas que seriam as últimas horas de vida do meu pai. O telefonema apanhou-me à porta do hospital, prestes a entrar, mas não me surpreendeu. A única novidade era precisar de forma tão brutal o tempo restante, mas esse tempo está contado há tanto tempo que parece sempre escasso, ainda que elástico, porque o meu pai tem sobrevivido sempre, contra todas as expectativas. Desta vez não havia expectativas, não mais do que horas. Encontrámo-lo sedado, o que acabou por ser um alívio. O que mais me atormentava era a possibilidade de ele ter consciência da iminência do fim. O monitor lançava dados alarmantes, por vezes apitava histericamente, os enfermeiros, compreensivos e contristados, correram as cortinas para que a despedida fosse íntima, e um médico, que já nos tinha explicado a gravidade da situação com palavras rigorosas e um tom suave, veio vê-lo e murmurou o veredicto: “nas próximas horas”.

O meu pai e o monitor, o monitor e o meu pai, assim andaram os meus olhos durante a manhã, a seguir uma linha que não sei interpretar, a atentar no peito cansado que ainda se elevava. Chamaram-me para avisar da presença de um visitante inesperado, eu tive de sair para explicar-lhe a situação, estive fora uns dez minutos, e quando voltei o meu pai estava desperto e totalmente a leste do que se passava. Estava um pouco aturdido, lembrava-se do desfibrilador mas mais pelo susto do que pela consciência da gravidade que ele pressupunha, e era preciso mantê-lo tranquilo e pouco perguntador. Estava vivo. [Read more…]