Angustiante

siria

Esta imagem, de um dos dois maiores hospitais em Alepo ainda em funcionamento, que foi ontem atingido e destruído por um novo bombardeamento do regime sírio, é o reflexo de um país transformado numa pilha de cacos e cadáveres, onde diferentes poderes se entretêm a arrasar tudo à sua volta, para gáudio de fabricantes de armas e outros terroristas que fazem fortuna com a devastação no Médio Oriente. É angustiante, um autêntico nó na garganta, visualizar imagens como esta. Não quero nem consigo sequer imaginar o que será viver ali. Não admira que milhões prefiram enfrentar o Mediterrâneo ou regime fascista de Viktor Orbán.

Foto: Taher Mohammed@Expresso

Da bondade dos desconhecidos


Quando comecei a subir a rua, o Vítor ainda não era o Vítor, mas um homem em queda. Eu ia apressada, muito apressada, e ao longe vi um corpo que se deixava abater. Poucas coisas impressionam mais do que o corpo de um homem caído no chão. Quando cheguei ao pé dele perguntei-lhe, reconheço que foi uma idiotice, se estava a sentir-se mal. Toquei-lhe no ombro, insisti, e ele abriu os olhos. Era difícil adivinhar-lhe a idade, cinquenta, sessenta anos, cabelo cortado muito rente. Balbuciava. Aproximei-me para perceber o que dizia e ouvi, distintamente: “Quero morrer.”

Foi nesse momento que apareceu outro homem, vinha a correr, ajoelhou-se logo junto ao corpo do homem deitado no chão, e começou a perguntar-lhe coisas simples, sorridente e com voz tranquila, como se levasse a vida toda a socorrer gente caída. Ouviu as mesmas palavras que me tinham sido ditas. Recordou ao homem cujo nome ainda não sabíamos que não há dificuldade na vida da qual não se possa fazer um degrau para um dia melhor. O seu discurso era comovedor, não porque parecesse capaz de fazer grande diferença àquele a quem se dirigia (e quem sabe? talvez fizesse), mas sobretudo porque era vibrante de esperança e fé nos outros. [Read more…]

Nas urgências – uma história sem ficção

Era um dia frio, caía uma chuva miudinha, era véspera de Carnaval e estávamos nas urgências de um hospital público português.

Ao início da tarde, a sala estava cheia, uma mulher dormia, ocupando três cadeiras. A seu lado, deixara um saco de viagem e um par de sapatos de salto alto. O lugar-comum que nos diz que o tempo pára na sala de espera do hospital era confirmado pelo relógio na parede, detido nas 8h21 de um dia já talvez longínquo.

Uma vez passada a triagem, e tendo recebido a pulseira colorida que lhe dita quanto tempo pode dar-se ao luxo de esperar sem que isso lhe perigue a vida, o doente desaparece para dentro da sala de urgências e passamos a só saber dele através do serviço de informações. Ao longo das horas, as informações, sempre telegráficas, confirmam que o tempo é outro. “Ainda não foi visto pelo médico”. “Vai fazer análises”. “Está à espera dos resultados das análises”. “Vai fazer uma ecografia”. “Está à espera que o médico veja a ecografia”. “Está à espera de reavaliação.” Cada um destes breves boletins informativos pode ser intercalado por períodos de uma, duas, três horas.

Na véspera de Carnaval, uma anomalia ditou um boletim informativo intercalar: “Estamos sem sistema”. E sem sistema, significa que tudo pára. Os serviços de informação não sabem informar, os médicos não conseguem ver os resultados de análises e exames. O tempo fica suspenso. [Read more…]

O meu pai, o imortal

Os médicos chamaram-nos para que estivéssemos por perto naquelas que seriam as últimas horas de vida do meu pai. O telefonema apanhou-me à porta do hospital, prestes a entrar, mas não me surpreendeu. A única novidade era precisar de forma tão brutal o tempo restante, mas esse tempo está contado há tanto tempo que parece sempre escasso, ainda que elástico, porque o meu pai tem sobrevivido sempre, contra todas as expectativas. Desta vez não havia expectativas, não mais do que horas. Encontrámo-lo sedado, o que acabou por ser um alívio. O que mais me atormentava era a possibilidade de ele ter consciência da iminência do fim. O monitor lançava dados alarmantes, por vezes apitava histericamente, os enfermeiros, compreensivos e contristados, correram as cortinas para que a despedida fosse íntima, e um médico, que já nos tinha explicado a gravidade da situação com palavras rigorosas e um tom suave, veio vê-lo e murmurou o veredicto: “nas próximas horas”.

O meu pai e o monitor, o monitor e o meu pai, assim andaram os meus olhos durante a manhã, a seguir uma linha que não sei interpretar, a atentar no peito cansado que ainda se elevava. Chamaram-me para avisar da presença de um visitante inesperado, eu tive de sair para explicar-lhe a situação, estive fora uns dez minutos, e quando voltei o meu pai estava desperto e totalmente a leste do que se passava. Estava um pouco aturdido, lembrava-se do desfibrilador mas mais pelo susto do que pela consciência da gravidade que ele pressupunha, e era preciso mantê-lo tranquilo e pouco perguntador. Estava vivo. [Read more…]

Mudando de assunto

E só para vos fazer sonhar.

O natal das pessoas saudáveis

Dia de natal, sala de espera. Gente a chegar com cara de susto e de sono. Gente a cabecear nas cadeiras, a dormir sentado. Alguém comenta que no passado, não há tanto tempo assim, num dia como o de hoje estavam aqui muitas mais pessoas. O cartaz na admissão explica: são 20 euros por episódio de urgência. O cardeal de Lisboa celebra a missa na tv. Se eu estivesse em casa via um filme, comia uma rabanada. Tem-se fome e frio na sala de espera, mas não é que se tenha mesmo fome e frio, o que se tem é pena de si mesmo. O corpo pesa ao fim de umas horas, as cadeiras são duras e rangem, a vida parece sempre mais miserável.

“A luta mais importante na vida é contra a autocomiseração”, diz o bombeiro que entra agora pela porta automática. Não diz nada, é o meu sono ou a minha fome que me mentem. [Read more…]

Que nunca nos falte a bondade dos estranhos

Detenho-me à saída do hospital porque a porta está bloqueada por um grupo acabado de chegar. No centro do grupo está um velho em equilíbrio precário, ladeado de mulheres que tentam ampará-lo. Na confusão de braços à sua volta, o homem emerge como um colosso arruinado, prestes a afundar-se. As mulheres soltam gritinhos, risos abafados, há demasiadas mãos a puxá-lo para um e outro lado. E é então que lhe caem as calças, ao velho homem, e é assim que ele me aparece, à porta do hospital, com as calças caídas no chão e a ignominiosa fralda à mostra de todos. Ao meu lado, de saída também, e à espera que a passagem obstruída pelo grupo fique livre, uma mulher abafa uma risada.

O homem tem um rosto corado, um pouco tumefacto, e não está claro se mantém a lucidez. As mulheres sobem-lhe as calças, seguram-no quando, num momento de atrapalhação delas, ele quase se derruba sobre si mesmo, e fazem-no risonhas, como se houvesse algo de burlesco em tudo aquilo, e tratassem com uma criança pequena, ou com um pobre tonto de quem todo o bairro faz pouco. [Read more…]

Na Polónia a música é outra

Eusébio está internado num hospital desconhecido e que deve ser público. Se fosse em Portugal já tínhamos visto o nome da empresa 100 vezes.

O Medo nos CHUC*

Por Diogo Cabrita

Falo por ti minha amiga Lina que conheces o Hospital há mais tempo que eu.

Falo por ti Manuela, que tens limpo os espaços de trabalho e tens trazido a marmita diariamente.

Falo por ti Carlos que nunca fizeste compras maiores que o teu salário e com dificuldade consegues gasolina para vir todos os dias aos Covões.

Também falo de ti Josefa que te escondes do trabalho e de ti que nunca sabes e nunca queres aprender.

Falo porque sinto o medo que transversalmente vos afoga. O medo de não saber nada do futuro e a certeza que as decisões são feitas sem vos ter em conta.

Há um receio que atinge os bons, os imprescindíveis e os maus.

O medo como um perfume que nos tolhe a todos e sobretudo a vós, a quem os doutores desconhecem o nome, a vós a quem “os grandes” nunca nomearam além de “olhe”, “chegue aqui”.

Falo do medo do futuro, da insegurança sobre o futuro, da subserviência que o medo incute, do silencio cúmplice que vem do receio. [Read more…]

Vidas por um fio

(adão cruz)

Que bem estava assim de papo para o ar quando minha mãe entrou no quarto e me disse:

– Meu filho, está lá fora o Virgolino caçoilo e pede encarecidamente que vás ver o seu filho que está a morrer.

Eu havia chegado nesse momento a Vale de Cambra para um fim-de-semana, vindo do quartel militar da Amadora onde aguardava o meu embarque para a Guiné. Estava cansado porque os trezentos quilómetros da altura não eram os de hoje. [Read more…]

O Hospital de São João dá o exemplo!

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É o caso do Hospital São João do Porto, que reuniu 38 medidas de poupança, num só documento.

A ARS do Porto já enviou este documento para outros hospitais para que o exemplo de contenção seja seguido.

“Um exemplo de boas práticas nesta área, na medida em que propõe e contempla acções no sentido da redução dos custos em áreas não assistênciais, nunca colocando em causa nem a acessibilidade nem a qualidade de atendimento dos doentes no SNS!”, diz o Presidente da ARS do Porto.

O plano centra-se em quatro áreas: eficiência na aquisição, gestão e utilização de matérias, medicamentos e reagentes; redução dos serviços externos não indispensáveis para o atendimento do doente; gestão mais eficiente dos recursos humanos; rigor na na referênciação entre hospitais.

Estima-se uma redução de de 3.1 milhões de euros no fornecimento de serviços externos e de 1,2 milhões de euros nos subcontratos, bem como a redução de 5% nas horas extraordinárias, de 8 % nas horas de prevenção e de  10% nas remunerações-base dos membros do Conselho de Administração.

Ora aí está como é sempre possível reduzir custos sem mexer no que é fundamental. A qualidade!

O dia que nasceu mais cedo

O meu filho Hugo Luis faz hoje 35 anos. Naquela madrugada, no Hospital da Cruz Vermelha só nasceram raparigas. Até que às 4 horas e 32 minutos nasceu o rapagão, sei porque vi no relógio da sala de partos de onde fui convidado a sair para que a médica não tivesse que tratar de mim.

Tudo valeu a pena e agora que ele está, por sua vez, à espera de ser pai, a vida faz muito sentido! Que faças muitos e sejas feliz, filhão!

Os bébés ibéricos

Em 1993/4 andei por Elvas para lançar o novo Hospital. O problema é que havia na cidade uma bela maternidade (Mariana Martins)  e para haver hospital era preciso fechar a maternidade.

 

Já naquela altura o número de partos era muito inferior aos necessários para manter uma equipa de profissionais  "com mão". Foi uma luta tramada. Claro que a reacção das pessoas era contrária,  mas não podemos decidir pela emoção, tem que ser pelos números, pela experiência .

 

Tínhamos Portalegre a 60 Kms e Évora a 90 Kms, e ainda Badajoz a 15 Kms. Muitos Elvenses me confidenciaram que nos casos dificeis já íam a Badajoz, ao hospital moderno, bem equipado ali à mão. O próprio hospital de Elvas foi construído numa dimensão que levou em atenção essa proximidade.

 

Hoje já não há nenhum drama em os Elvenses irem ao outro lado da fronteira, pelo contrário, é com prazer que leio, que a Administração regional de saúde tem vários protocolos e parcerias com as autoridades fronteiriças. Só, assim, é possível comprar e manter os caros equipamentos médicos necessários à prática de uma medicina moderna e eficaz.

 

Agora é perceber que no interior do território tambem há "fronteiras" que têm que ser ultrapassadas, pois de outra maneira o SNS não é viável economicamente, nem poderá garantir os níveis assistênciais que todos necessitamos.

 

Lembro-me bem, quando se ouvia na TV telefonemas a destruir a política de saúde de um homem excepcionalmente bem preparado, Correia de Campos,  valia tudo, escutas em directo e nunca ninguem foi acusado de utilizar os telefonemas para a luta política.

 

Desde então, não há política de saúde, os lobbies e as corporações mandam novamente, está tudo à manjedoura.

 

Temos um Estado entregue a forças não eleitas democraticamente, e que têm um poder que amordaça quem quer apresentar trabalho.

 

Estão lá há muito e renovam-se sempre com o mesmo objectivo. Essas forças sabem de onde vêm as quebras do segredo de justiça e quais são as "notícias" que aparecem nos jornais e nas TVs!

 

Mas ninguem pergunta, ninguem lhes vai à mão!

 

Morrissey já teve alta

 Há um certo exagero quando alguém diz “Morrissey salvou a minha vida no liceu”. Um certo prazer em deixar-se afundar num fatalismo postiço, talvez. Mas, se não foi essa gloriosa lição de assombrar os fantasmas com a leveza de uma melodia saltitante, o que foi que nos salvou no liceu?