Breve manifesto da insubordinação dos mansos

Paciência e sensatez em nome da estabilidade, da segurança, de um futuro longínquo e inconcretizável? Esqueçam. Ardamos de impaciência e furor, esventremos as paredes que nos aprisionam, arranquemos as tábuas do soalho, e contemplemos com gosto todo o caos que gerámos. Cansados de ser bons meninos? Fartos de contemporizar, engolir em seco, fazer de conta que não ouviram? A nossa hora chegou. Vamos escolher o caminho mais incerto, refutar os argumentos envenenados de hipocrisia, pronunciar com clareza e, desfrutando desse prazer sensual de proferir cada sílaba com volúpia, dizer tudo o que queremos e o que rejeitamos, o que daremos com gosto e o que não aceitaremos. Não faremos o que se espera de nós, não aceitaremos o sacrifício em nome do bem comum, não faremos o razoável, o sensato, o equilibrado. Não seremos poupados, comedidos, subordinados. Tragaremos de uma vez a míngua de ar que nos reservam e ousaremos escancarar as janelas que devem manter-se encerradas. Não calaremos as perguntas. Não aceitaremos as respostas incompletas, desviantes, sonsas. Não pactuaremos com silêncios cúmplices. Ofereceremos a verdade que exigimos. Olharemos de frente o rosto da angústia e encheremos de sentido o vazio. Saberemos de memória as sílabas do amor e expulsaremos o medo dos seus recantos sombrios. E começaremos hoje mesmo.