a marcha dos jornaleiros

 Foto: La Opinión

Quando Miguel Hernández, que haveria de morrer, aos 31 anos, numa prisão franquista, escreveu “Andaluces de Jaén”, elevou a símbolo de um povo esses homens e mulheres, “aceituneros altivos”, cujas vidas eram uma sucessão de trabalhos e penas para não mais do que um pouco de pão e um humilde abrigo.

Na Espanha dos “señoritos”, que o romancista Miguel Delibes retratou impiedosamente, os camponeses estavam à total mercê dos seus senhores, e se a um señorito, numa tarde de calor entediante, lhe apetecesse espancar um camponês, ou toureá-lo, ou cuspir-lhe no rosto, ou esbofeteá-lo perante os seus filhos e netos, nada nem ninguém o impediriam.

Nada que se compare com os dias de hoje, dirão, mas quando vejo a marcha dos jornaleiros – os trabalhadores agrícolas sem terras, que trabalham a troco de uma remuneração diária, e que ganham em média 6 a 7 euros por hora de trabalho – ocorre-me que não há muita diferença entre os azeitoneiros altivos de Miguel Hernández e estes homens e mulheres que avançam pela estrada que une Utrera a Sevilha, onde o sol queima mais do que em qualquer outra terra de Espanha,  que fazem ondear bandeiras da Andaluzia, da República e do Che, e vão tomando, sem violência e por poucos minutos, sucursais de bancos, gritando, de cada vez que avistam uma: “Aquí está la cueva de Ali Babá”. [Read more…]