a marcha dos jornaleiros

 Foto: La Opinión

Quando Miguel Hernández, que haveria de morrer, aos 31 anos, numa prisão franquista, escreveu “Andaluces de Jaén”, elevou a símbolo de um povo esses homens e mulheres, “aceituneros altivos”, cujas vidas eram uma sucessão de trabalhos e penas para não mais do que um pouco de pão e um humilde abrigo.

Na Espanha dos “señoritos”, que o romancista Miguel Delibes retratou impiedosamente, os camponeses estavam à total mercê dos seus senhores, e se a um señorito, numa tarde de calor entediante, lhe apetecesse espancar um camponês, ou toureá-lo, ou cuspir-lhe no rosto, ou esbofeteá-lo perante os seus filhos e netos, nada nem ninguém o impediriam.

Nada que se compare com os dias de hoje, dirão, mas quando vejo a marcha dos jornaleiros – os trabalhadores agrícolas sem terras, que trabalham a troco de uma remuneração diária, e que ganham em média 6 a 7 euros por hora de trabalho – ocorre-me que não há muita diferença entre os azeitoneiros altivos de Miguel Hernández e estes homens e mulheres que avançam pela estrada que une Utrera a Sevilha, onde o sol queima mais do que em qualquer outra terra de Espanha,  que fazem ondear bandeiras da Andaluzia, da República e do Che, e vão tomando, sem violência e por poucos minutos, sucursais de bancos, gritando, de cada vez que avistam uma: “Aquí está la cueva de Ali Babá”.

Dizia Hernández, “¡Cuántos siglos de aceituna, los pies y las manos presos, sol a sol y luna a luna, pesan sobre vuestros huesos!” e são os netos dessa gente que hoje vemos avançar, eternamente à mercê de um señorito, eternamente unidos a esse ciclo de trabalho e penúria, de necessidade e cativeiro.

Um jovem milionário queixa-se de que está triste e, com beicinho caprichoso, nega-se a explicar o motivo, e milhares interrompem as suas actividades para auscultar as razões do pequeno príncipe. 1356 homens e mulheres caminham por uma estrada abrasadora, caminham por eles e pelos seus filhos e pelos seus pais e avós, por gerações de espoliados, e à volta deles só há silêncio e poeira e o calor infernal da Andaluzia.

Comments

  1. Amadeu says:

    Lindo, o video e o seu texto. Obrigado.

  2. maria celeste ramos says:

    De forma mais sofisticada Passos Coelho ainda faz pior é mais requintado – á mais FP


  3. 6 ou 7 € à hora só se for em Espanha,por cá andará pelos 4,na apanha da azeitona talvez 5 ou 5,5.
    Ainda não perdi a esperança de ver este povo a caminhar altivo,mostrando os dentes,de raiva,aos senhoritos.

    mário


  4. Como sempre, aliás, um óptimo texto e uma inteligente comparação!

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