Manuel Louzã Henriques

Há pessoas que nos fazem, começa sempre por duas, e depois nos foram fazendo, continuado o labor das mesmas duas, chegam outras, os amigos.

Sendo o meu pai um particular amigo do Manuel, tive o acrescido benefício de o conhecer desde pequenino. Confesso-me, de muito puto, fiel admirador e copiador no meu quarto daquela casa minúscula na Rua da Mãozinha onde as estantes acumulavam o desarrumo ordenado do que gostamos; livros, instrumentos, objectos com uma história e pessoas lá dentro e a contar para fora; mais que não seja serviu-me tantas vezes de justificação perante a minha mãe habituada às prateleiras ordenadas da loja dos avós, onde ela chamava desarrumado eu garantia, estética e funcionalmente, está muito mais arrumado que a nossa cozinha, sei onde está tudo e hei-de trazer o resto do mundo para casa. Coisas de puto, já não sei onde andam coisas e papéis, e cada vez menos trago o mundo para casa.

A Lápis de Memórias editou um livro que é uma conversa, entre o melhor conversador do mundo, o Manuel Louzã Henriques, a Manuela Cruzeiro e a Teresa Carreiro, acrescido do testemunho de um muito pequenino grupo dos seus amigos, houvesse espaço para todos e não cabiam numa lombada. Ficou-se pelas 460 páginas.

Algures Com Meu(s) Irmão(s) pode parecer mais uma daquelas coisas das gentes de Coimbra, muito dadas ao saudosismo e suas estórias (esquecendo que essa cantada saudade dos tempos juvenis brota da nascente dos que entre nós estudaram, e a estas terras, mares e suas serranias até eram estranhos). Também sendo, e qual o mal, não o é. [Read more…]

Com as botas do meu pai

Como tenho uma razoável alergia a lançamentos de livros no útimo sábado tomei um anti-histamínico e fui à Lousã, onde o jornalista e meu amigo Casimiro Simões lançava o seu "Com as Botas de Meu Pai", apresentado pelo prefaciador Manuel Louzã Henriques e por António Arnaut. O comprimido não fez efeito mas mesmo sem ter comido ou bebido gostei.

Tive oportunidade de fotografar um Doutor, na forma de burro carregado de livros. Não é todos os dias. Reencontrei velhos amigos comuns, entre as muitas dezenas de pessoas que não couberam no auditório da biblioteca municipal, onde o ar condicionado e a ventilação estavam municipalmente desligados. Acontece.

Já não ouvia o Manuel Louzã falar há muito tempo. António Arnaut comentou que o Louzã devia ter um programa na televisão permitindo ao país encantar-se com as suas charlas, como todos ficámos. Ninguém se riu, mas é evidente que nenhuma televisão iria dar a palavra ao grande intelectual da sua geração (a de Manuel Alegre e de outros personagens igualmente menores), primeiro porque é um serrano da Lousã e de Coimbra, depois porque ofuscaria muito boa gente, também porque de um comunista se trata, e nem ele teria pachorra para tal, acho eu.

Vim para casa com o livro, enfim, livrinho pelo tamanho, livro acutilante pelo conteúdo, e com autorização para publicar aqui uns excertos.

Vão ser aventados nos próximos dias, numa fórmula em que podem parecer realidade mas claro que de pura ficção se trata, diz o autor, não digo eu.