Manuel Louzã Henriques

Há pessoas que nos fazem, começa sempre por duas, e depois nos foram fazendo, continuado o labor das mesmas duas, chegam outras, os amigos.

Sendo o meu pai um particular amigo do Manuel, tive o acrescido benefício de o conhecer desde pequenino. Confesso-me, de muito puto, fiel admirador e copiador no meu quarto daquela casa minúscula na Rua da Mãozinha onde as estantes acumulavam o desarrumo ordenado do que gostamos; livros, instrumentos, objectos com uma história e pessoas lá dentro e a contar para fora; mais que não seja serviu-me tantas vezes de justificação perante a minha mãe habituada às prateleiras ordenadas da loja dos avós, onde ela chamava desarrumado eu garantia, estética e funcionalmente, está muito mais arrumado que a nossa cozinha, sei onde está tudo e hei-de trazer o resto do mundo para casa. Coisas de puto, já não sei onde andam coisas e papéis, e cada vez menos trago o mundo para casa.

A Lápis de Memórias editou um livro que é uma conversa, entre o melhor conversador do mundo, o Manuel Louzã Henriques, a Manuela Cruzeiro e a Teresa Carreiro, acrescido do testemunho de um muito pequenino grupo dos seus amigos, houvesse espaço para todos e não cabiam numa lombada. Ficou-se pelas 460 páginas.

Algures Com Meu(s) Irmão(s) pode parecer mais uma daquelas coisas das gentes de Coimbra, muito dadas ao saudosismo e suas estórias (esquecendo que essa cantada saudade dos tempos juvenis brota da nascente dos que entre nós estudaram, e a estas terras, mares e suas serranias até eram estranhos). Também sendo, e qual o mal, não o é.

Está ali uma geração, a dos comunistas e outros das poucas esquerdas que nos anos de 1950 ainda jovens se arriscavam , afrontando a ditadura em toda a sua mesquinhez quotidiana , que se revelaria pouco mais tarde na Carta a uma Jovem Portuguesa (pdf)), desalinhados numas ortodoxias, por exemplo as literárias, gente que entre muito café e mais tabaco fez a minha geração, livre para desalinhar até à morte estúpida dos que já perdemos.

Está ali um homem, um dos nossos maiores, aquele que viu os seus versos roubados pela Pide e pouco se importa, tem os seus 400 instrumentos,  tocando num museu único a História da Música Popular Portuguesa, ora desalojada por falta de espaço na ignorância municipal, entre tantas coisas que também se explicam numa vontade de ser e fazer muito próprias: tal como o  Herberto Helder se guardou poeta nos seus versos, entendam o Manuel fazendo o mesmo, sem versos publicados, mas oferecendo poesia, cultura, inteligência e militância no seu falar. A relação com a FMUC, sua casa académica, só por si é um epigrama ao saber e ao desprezo pelas catedralidades.

manuel louza henriques capa peq siteDeixo-vos em exemplo a minha gravação do que disse no lançamento do livro, a imagem é péssima, filmado literalmente no joelho, de propósito até, à Manel Louzã, entendem-se as palavras e está ali tanta coisa, tanta lição a todas as esquerdas, a toda a arte e cultura, tanta contemporaneidade, que televisão alguma lhe pegaria, e ele ralado…

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