O boneco das Caldas

Era eu tamanino, terá sido há uns 50 anos, estava de férias com os meus pais na Inatel da Foz do Arelho.
Certo dia, fomos dar uma volta pelas Caldas da Rainha. Visitámos os principais monumentos, da igreja de Nossa Senhora do Pópulo à estátua de D. Leonor, e passeámos pelo centro.
Numa das muitas lojas com montras cá fora, havia uma que apresentava dezenas de bonecos de cerâmica pintados com as cores dos clubes de futebol.
Como não podia deixar de ser, pedi logo ao meu pai um boneco com as cores do FC Porto. Queria mesmo aquele boneco. A reacção dele foi estranha, mostrou desconforto, disse que não e depois que, se quisesse, que comprasse com o meu dinheiro.
Estranho, o meu pai nunca me negava nada. Porque eu nunca pedia nada. Ainda por cima, ele adorava o FC Porto.
Mas comprei e levei para casa. Era tão bonito! Camisola azul e branca em pele rosada e, à frente dos calções, que imaginei azuis, um pano branco até aos pés com o emblema do FC Porto.
Já em casa, enquanto brincava com o boneco, reparei que tinha um fio junto aos pés. Então puxei o fio e o pano branco com o emblema do FC Porto levantou-se. Foi nessa altura que percebi a reacção do meu pai.
50 anos depois, relembro com um sorriso esse episódio.
Conservei o boneco apesar das dúvidas. Mas lamento muito não ter seguido a vontade do meu pai. Comprei-o esperançado em muitas alegrias, porque prometia muito, mas na verdade nunca serviu para grande coisa.
O boneco das Caldas é hoje uma sombra do que prometeu. Não tem cabeça. Partiram-se os pés de barro. Já caiu o pano branco com o emblema do FC Porto que lhe tapava os calções.
Olhei para ele hoje e reparei que lhe faltavam os tomates. Foi então que percebi que nunca os teve.
Fiquei triste com o estado a que chegou, as minhas filhas disseram-me para ir restaurá-lo. Disse que não, nos próximos anos não vale a pena, pior não fica. Insistiram, pode ficar pior, eu disse que não, não vale a pena gastar dinheiro naquilo e perguntei afinal qual é a pressa?