Gourmets do espírito

Por estes dias, em qualquer restaurante de prato económico, já podemos ouvir o cliente da mesa do lado pedir para ver a garrafa de azeite ou vê-lo a enfiar o nariz no copo de vinho da casa. Pouco a pouco, os menus foram sofrendo um processo de “goumertização” e multiplicaram-se os chefs. Não falo dos restaurantes de luxo, onde a coisa começou, mas da extensão do fenómeno aos sítios mais improváveis. Desde que descobri um tasco no centro do Porto, numa destas ruas onde ainda se grelham as fêveras à porta, com um cartaz improvisado a anunciar “tasco gurmet”, já  dou por assente que a epidemia é irrefreável.

Os nossos hábitos requintados já não aceitam fígado de cebolada ou farrapo-velho. Mandamos vir saladas tépidas de pimentos marinados, estaladiços de alheira, espuma de coentros, ao bacalhau já só o toleramos confitado em azeite, e à sobremesa apetece-nos crocantes de arroz doce e  parfaits de baunilha e alfazema.

Ainda gostava de saber que diria nestes tempos, se os tivesse conhecido, a velhota mais amarga que encontrei, e que, sobre o dinheiro que alguns gastavam em restaurantes, resmungava:

– Bah! Daqui para baixo – apontava o pescoço – é tudo merda. [Read more…]