Gourmets do espírito

Por estes dias, em qualquer restaurante de prato económico, já podemos ouvir o cliente da mesa do lado pedir para ver a garrafa de azeite ou vê-lo a enfiar o nariz no copo de vinho da casa. Pouco a pouco, os menus foram sofrendo um processo de “goumertização” e multiplicaram-se os chefs. Não falo dos restaurantes de luxo, onde a coisa começou, mas da extensão do fenómeno aos sítios mais improváveis. Desde que descobri um tasco no centro do Porto, numa destas ruas onde ainda se grelham as fêveras à porta, com um cartaz improvisado a anunciar “tasco gurmet”, já  dou por assente que a epidemia é irrefreável.

Os nossos hábitos requintados já não aceitam fígado de cebolada ou farrapo-velho. Mandamos vir saladas tépidas de pimentos marinados, estaladiços de alheira, espuma de coentros, ao bacalhau já só o toleramos confitado em azeite, e à sobremesa apetece-nos crocantes de arroz doce e  parfaits de baunilha e alfazema.

Ainda gostava de saber que diria nestes tempos, se os tivesse conhecido, a velhota mais amarga que encontrei, e que, sobre o dinheiro que alguns gastavam em restaurantes, resmungava:

– Bah! Daqui para baixo – apontava o pescoço – é tudo merda. [Read more…]

Corpo e espírito

Ontem, o professor americano Peter Colosi esteve na Universidade Católica (Lisboa) para uma palestra onde terá dito, por estas ou outras palavras, que:

O nosso corpo e o nosso espírito são um só.

João Paulo II dizia que nós somos o nosso corpo, não porque era materialista, que não era, mas porque a alma está tão intimamente ligada ao corpo, tão presente.

Hoje separamos as coisas. As pessoas pensam que os seus corpos estão separados de si mesmos, que podem fazer todo o género de actos sexuais, ou que podem fazer um aborto, e que isso não os vai afectar. Levar as pessoas a compreender esta união profunda entre o espírito e o corpo é o primeiro passo que é difícil de explicar, porque vivemos numa sociedade dualista.

Para quem acha isto uma grande idiotice ou disparate, ou que seja incrédulo nestes assuntos «transcendentais», sugiro que pense, como exercício, em qualquer forma de arte. Imagine uma bailarina, pense na música, na representação perfeita de um ator, etc.

Peter tem o seu blog para quem estiver interessado em conhecer o seu trabalho.

É preciso arrojo, eu sei!

(adão cruz)


É preciso arrojo, eu sei!

Nestes tempos futebolísticos, nomeadamente neste malogrado Portugal-Espanha, assunto de que não percebo nada, nem estou interessado em perceber, é preciso muita coragem e muito arrojo, para vos vir falar de Materialismo e Espiritualismo. Precavi-me no entanto, com a ingestão de uma boa dose de ameixas vermelhas, pequeninas, pouco maiores do que cerejas, deliciosas, do quintal de minha saudosa mãe, regadas com meia garrafa de Mouchão tinto. Dizem que tais frutos, com um bom tinto, produzem um belíssimo resultado em termos de equilíbrio metabolismo-catabolismo, e, por conseguinte, de homeostasia, termo que já aqui tenho utilizado várias vezes, e que significa uma total harmonia do todo do ser humano. [Read more…]

A propósito do comentário do amigo Prof. Raul Iturra

 

Amigo Raul Iturra, em primeiro lugar, as melhoras da sua gripe.
Em segundo lugar queria dizer-lhe que nos encontramos em campos opostos, no que respeita ao entendimento das emoções e dos sentimentos. Desta forma, é sensato não querermos ter a pretensão de nos convencermos um ao outro. Mas é saudável, sob todos os pontos de vista, dialogarmos sobre tão cativante tema. Assim sendo, gostaria de lhe dizer que a biologia do espírito é um conceito muito actual, praticamente irreversível, e cada vez mais aceite por, praticamente, todos os neurobiologistas contemporâneos. O facto de se usar a palavra espírito, não significa que a ciência tenha necessidade dela, mas utiliza-a, exclusivamente, como contraponto ao raciocínio.

A ciência não procura controvérsias, mas apenas tentar com toda a seriedade e honestidade explicar os fenómenos da vida, como é seu dever natural e seu objectivo incontestável. Todos sabemos que hoje, na vida, tudo se processa á base dos conhecimentos científicos, desde o lavar dos dentes às viagens interplanetárias. E ninguém contesta. Este conceito de biologia do espírito, ao contrário do que o meu amigo diz, em nada afecta a natureza das emoções e dos sentimentos, totalmente diferentes, umas e outros, em cada pessoa. [Read more…]

O Diabo por Belzebú

É o espírito que conduz o mundo e não a inteligência

Antoine de Saint-Exupéry

 

Em 9 de Novembro 1989 caiu o muro de Berlim. Existia então a seguinte situação com os seguintes ingredientes imateriais: um sóciosistema podre, não reformável e condenado, uma constelação astral propícia, o mês dos Escorpiões, Novembro, e uma banda chamada “Scorpions” (“Escorpiões”) que cantando a canção “Wind of Change”* augurava mudanças. E estas mudanças materializaram-se.

 

O que na altura não se viu ou não se quis ver, foi o facto que todo o sistema mundial estava podre e caduco. Assim, este, com a queda do muro e com a despedida do indispensável antagonista “socialismo”, ficou fora de equilibrio de vez. Mas nós, na nossa mania de vermos apenas vencedores e vencidos e não tanto o bem comum e o TODO, declarámos a vitória unilateral do capitalismo pensando que iamos viver felizes para sempre.

 

Todavia, como um mundo unipolar e sem antagonistas não funciona, tiveram que surgir outros “ismos” (islamismo, fundamentalismo religioso, etc.) para tomar o lugar do defunto socialismo. Por outras palavras: substituimos, a partir e 1989, o diabo por belzebú. Por isso, após 20 anos de vãs tentativas – Globalização – de alcançarmos a felizidade, bem-estar e a harmonia, os ventos da mudança, desde 1989 suprimidos, ignorados e não aproveitados na altura para criar uma nova ordem, fazem-se sentir com cada vez mais força para restabelecer o equilibrio e a harmonia perdidas. Quem se opõe corre perigo de sucumbir, temos é que acompanhá-los. Assim teremos uma boa oportunidade de chegarmos, após alguns sustos e sobresaltos, a um mundo melhor.

 

Penso que em breve a canção “Wind of Change” conhecerá uma nova edição – talvez em em Novembro de 2010?

 

RD – bloguer convidado

 

P.S. Por mais paradoxal que pareça: depois da grande mundança qualitativa teremos os dois antagonistas, capitalismo e socialismo (ou egocentrismo e sóciocentrismo), de volta – felizmente! Todavia, desta vez sem estarem bipolarizados e sob uma forma de pensar e agir que permita vencer a dualidade entre os dois: olhando para a frente e primeiro para o benefíco do próximo. É esta a receita para os tempos áureos que o mundo periodicamente tem conhecido e voltará a conhecer quando a grande “seca” acabar. E então, em vez de quaisquer “ismos” estúpidos, teremos novo crescimento e ascensão sócioeconómica, política, cultural e ecológica para todos, ou seja, para os mais ricos e os mais humildes. Claro, tudo isso até que um dia voltarmos ao comportamento linear que depois traz consigo novos “ismos”. A não ser que entretanto tenha chegado o momento em que se cumpre o seguinte vaticínio feito em 1969:

 “O desenvolvimento espiritual da humanidade  acontecerá em três épocas: 1º comportamento  instintivo animalesco,  2º comportamento linear  sob o lema: o que serviu ontem, também há-de  servir hoje e 3º pensar e comportamento “em  espiral”. Com o comportamento em “espiral”  começará a reunificação entre natureza, homem  e técnica e com ela a época mais nobre da humanidade.” 

Professor Pannikar, catedrático para a filosofia  hinduista da Universidade de Benares (Frankfurter  Allgemeine Zeitung, 22.01.69)