Paradoxal Natural

 

gonatural_loja_biologico_saudavelPedro Guimarães

Paradoxal: grandes cadeias de distribuição apoderam-se de pretéritos ecológicos para vender os seus produtos produzidos industrialmente e embalados individualmente em plástico, explorando assim os recursos de uma série de tótós classe média alta que acreditam que estar a comprar produtos mais saudáveis do que em qualquer outro sítio qualquer. A contradição entre ecologia e capitalismo está ali escarrapachada à entrada: o mote #gonatural envolto num jardim de plantas de plástico (réplicas muito convincentes). Nothing natural about it.  #gonatural

Canis Major

Canis Major

Canis Major

 

O Cão é um animal extraordinário e com um apurado sentido prático da vida. Ele veio vindo das estepes e das montanhas, Lobo ainda, lutando tenazmente pela sobrevivência, buscando os lugares que melhor a garantiriam pela caça, pela fuga aos predadores e pela reprodução segura da espécie. Vivia uma vida de perigos e sacrifícios, mas era razoavelmente livre.

Um dia cheirou-lhe a estufado, fez um referendo na matilha e deitou-se no sofá da sala. A lealdade e a sabedoria que por vezes oferece a quem o acolheu suplantam, talvez, a humilhação de ter sido um dos primeiros animais a vender a sua própria independência e a deixar-se seduzir pelo modelo global de aburguesamento.

[Read more…]

Que agora comer é um luxo, é um luxo

 

Não se percebe, ou será apenas uma dificuldade minha, como pode ser que, apesar da crise, continuem a multiplicar-se os restaurantes. Nem sequer aqueles capazes de agradar a um público heterogéneo, mas cada vez mais especializados em coisinhas pequenas, maniazinhas, tiques refinados. Depois da moda das hamburguerias, agora é ver abrir as casas que só têm chás, as que só têm torradas, o restaurante que serve comida em pratos para cão (por Tutatis!), a casa que se especializou em cereais com leite, a que só confecciona refeições com conservas. No meu nada turístico bairro, cheio de casas em ruína e velhotes a sobreviver com reformas miseráveis, abriu um restaurante gourmet, com cozinha de fusão, ementas em inglês, citações refinadas na parede. Durou exactamente cinco semanas, das quais passou quatro às moscas. Era uma espécie de extraterrestre que nos aterrou ali e que olhávamos com a mesma estupefacção com que espreitaríamos uma manada de unicórnios a atravessar a rua. Um dia desapareceu para dar lugar ao velho cartaz “Aluga-se” que já conhecíamos bem. [Read more…]

Gourmets do espírito

Por estes dias, em qualquer restaurante de prato económico, já podemos ouvir o cliente da mesa do lado pedir para ver a garrafa de azeite ou vê-lo a enfiar o nariz no copo de vinho da casa. Pouco a pouco, os menus foram sofrendo um processo de “goumertização” e multiplicaram-se os chefs. Não falo dos restaurantes de luxo, onde a coisa começou, mas da extensão do fenómeno aos sítios mais improváveis. Desde que descobri um tasco no centro do Porto, numa destas ruas onde ainda se grelham as fêveras à porta, com um cartaz improvisado a anunciar “tasco gurmet”, já  dou por assente que a epidemia é irrefreável.

Os nossos hábitos requintados já não aceitam fígado de cebolada ou farrapo-velho. Mandamos vir saladas tépidas de pimentos marinados, estaladiços de alheira, espuma de coentros, ao bacalhau já só o toleramos confitado em azeite, e à sobremesa apetece-nos crocantes de arroz doce e  parfaits de baunilha e alfazema.

Ainda gostava de saber que diria nestes tempos, se os tivesse conhecido, a velhota mais amarga que encontrei, e que, sobre o dinheiro que alguns gastavam em restaurantes, resmungava:

– Bah! Daqui para baixo – apontava o pescoço – é tudo merda. [Read more…]