Os cavalheiros

As velhotas do meu bairro têm todas o seu cão, pequenino e de caminhar trôpego como elas. Quando elas saem à rua, eles caminham ao lado, passos sincronizados, e se elas param a falar com as vizinhas, eles esperam com paciência mas não se deitam porque sabem que elas não querem pêlos sujos a manchar-lhes a tijoleira de casa. Aguardam o desenrolar da conversa com uma expressão de beatitude zen e olham com compostura quem passa. Quando a dona retoma a marcha, seguem-na, logo se colocam a seu lado, passos sempre harmonizados. Elas falam muito com eles, repreendem-nos, dão-lhes mimo. “Lá estás tu, deixa lá de cheirar a porta dos outros. Já estás cansado? Hoje estás muito fidalgo. Anda, meu menino, vamos embora.”

São cães de porte pequeno, quase todos bastante feios, com um caminhar rebolado e vagaroso, e olhos húmidos e expressivos. Raramente ladram, abdicaram disso para não incomodar, afinal as donas têm corações fracos, pernas inchadas da má circulação, a tensão alta, não precisam de bichos caprichosos e que façam alarido. Querem um companheiro para ver a televisão ou ir à padaria, um a quem confiem historietas antigas, sempre as mesmas, e que não proteste nem seja demasiado canino, demasiado biológico, que seja pouco cão, enfim. [Read more…]