Morrinha

©Carla Olas

Quando começamos a subir o monte, aparecem os caçadores. Dois rapazes, com coletes militares. Sobem para uma pedra para que os vejamos, de espingarda ao ombro, estátuas desengonçadas a posar para os forasteiros. Costumam andar aos pares, acompanhados por três ou quatro cães, fazem ruído e assustam os bichos, mas raramente lhes acertam. Passam o domingo no monte, “andam entretidos”, como dizem as mães, com as espingardas de segunda mão e os camuflados. Seguem-nos com os olhos, sem disfarçar, quando passamos, e levantam bem alto o cano da espingarda para que os admiremos. Poderia um impulso infantil levá-los a apontar a arma na nossa direcção e disparar, só para ver se nos acertam, só para ver como caímos. As coisas que nos passam pela cabeça. (Uma vez, um homem de quem todos gostavam, o santo da vizinhança, de bochechas redondas e sorriso beatífico, levantou os olhos para o céu onde passava um avião, e com toda a naturalidade confessou que gostaria de vê-lo cair. A esse e a todos os que via passar.) Mas os jovens caçadores contêm-se, e passámos incólumes.  [Read more…]

Os cavalheiros

As velhotas do meu bairro têm todas o seu cão, pequenino e de caminhar trôpego como elas. Quando elas saem à rua, eles caminham ao lado, passos sincronizados, e se elas param a falar com as vizinhas, eles esperam com paciência mas não se deitam porque sabem que elas não querem pêlos sujos a manchar-lhes a tijoleira de casa. Aguardam o desenrolar da conversa com uma expressão de beatitude zen e olham com compostura quem passa. Quando a dona retoma a marcha, seguem-na, logo se colocam a seu lado, passos sempre harmonizados. Elas falam muito com eles, repreendem-nos, dão-lhes mimo. “Lá estás tu, deixa lá de cheirar a porta dos outros. Já estás cansado? Hoje estás muito fidalgo. Anda, meu menino, vamos embora.”

São cães de porte pequeno, quase todos bastante feios, com um caminhar rebolado e vagaroso, e olhos húmidos e expressivos. Raramente ladram, abdicaram disso para não incomodar, afinal as donas têm corações fracos, pernas inchadas da má circulação, a tensão alta, não precisam de bichos caprichosos e que façam alarido. Querem um companheiro para ver a televisão ou ir à padaria, um a quem confiem historietas antigas, sempre as mesmas, e que não proteste nem seja demasiado canino, demasiado biológico, que seja pouco cão, enfim. [Read more…]

Dos cães

 O escritor Mário Cláudio publica hoje, na sua “Agenda”, um elucidativo retrato de um canil de uma cidade não identificada. O título sintetiza o tom geral do texto: “Descida ao Inferno”.

 

Não me conto entre os activistas da causa animal. E isto deve-se fundamentalmente ao facto de considerar que os direitos dos humanos ainda estão longe de cumprir-se, questão que me parece mais prioritária. Também não me inclino, como alguns, a considerar que o conhecimento dos humanos nos aproxima mais dos animais, porque não estendo a toda a humanidade os defeitos de uns poucos.

Mas considero que é dever de todos repudiar qualquer tratamento cruel que seja infligido a um ser vivo, admitindo, porém, que essa minha convicção está tingida pela contradição de eu não ser vegetariana.

 

Há uns anos, quando cá em casa foi decidido que era hora de adoptar um(a) companheiro(a) para a rafeira Changana, fomos a um canil. Nas suas celas de cimento frio, ainda esperançados pela possibilidade de serem escolhidos, ou já resignados à morte certa, sucediam-se os encarcerados. Quem os guardava desprezava-os, era evidente. A cada novo corredor, o percurso ia-se fazendo mais angustiante.

A escolha era impossível, e o ambiente era propício a que os visitantes fossem carregando aos ombros, a cada passo, o peso da crueldade da sociedade humana, como se dela fôssemos os desapiedados responsáveis.

 

Acabámos por escolher um rafeiro velhote, que fora abandonado nas ruas quando perdera os encantos da juventude. O veterinário iria diagnosticar-lhe uma doença cardíaca que o poderia fulminar a qualquer instante, e passámos os primeiros dias à espera de vê-lo tombar ao mínimo esforço. Ele resistiu e ao fim de uns meses era o pai orgulhoso de uma ninhada de sete. 

 

Foi justamente com essa ninhada de encantadores cachorrinhos que descobri que a relação com os animais é, na verdade, um delicioso potenciador das relações entre pessoas. Conseguir uma família para cada um dos seis que decidimos oferecer ocupou-nos várias semanas.

Um foi para uma família que lhe chamou Jardel, o goleador da época, outro foi parar a Mortágua, de onde era a amiga que o adoptou. Eu começara a conduzir pouco antes e quase nos espetava contra uma parede quando os fui levar á estação de comboios, mas acabámos por sobreviver. Outros dois foram para famílias da vizinhança.

 

Um dos cachorros, talvez o mais bonito, foi adoptado por uma família dona de uma rede de sapatarias, e transformou-se, em poucos meses, de filho de rafeiros em herdeiro de um império. Nas primeiras fotos que nos chegaram, ali estava ele, muito penteado, instalado em cima de um sofá aparentemente caríssimo, com uma coleira de brilhantes e ar de quem se instalara na vida.

Restava-nos um problema, uma cachorra difícil, a única que não brincava com os irmãos e resistia a carícias, e que ninguém escolhera. Pensámos em ficar com ela, juntamente com outra, a mais gorda e pesadona, que também não era muito cobiçada e que já tínhamos decidido deixar cá em casa.

Acontece que um dia em que regressávamos a casa com a difícil, talvez do veterinário, já não me lembro, uma das senhoras que trabalham na rua junto a umas pensões ao pé da nossa casa de então, a viu e ficou, claramente, apaixonada. Ganhou coragem para meter conversa, elogiando o bicho, e nós, interesseiros, vimos uma oportunidade. As vizinhas metediças passavam com ar horrorizado, calculando que acertaríamos as condições de algum "ménage à trois", enquanto nós ficávamos a saber que a senhora vivia sozinha com uma filha de oito anos, e que a menina tinha muitas dificuldades em estabelecer relações com outras crianças, permanentemente encerrada sobre si mesmo, receosa do mundo e dos outros, os mesmos que já a tinham magoado.

Uma semana depois éramos recebidos na casa delas para levar-lhes a cadelinha. O encontro entre o animal e a criança foi dos episódios mais comoventes a que assisti. Pareciam ter reconhecido de imediato uma na outra o aconchego que buscavam sem saber onde. Tornaram-se inseparáveis, soubemos depois, e a amizade da cadela viria ser fundamental no percurso daquela criança.

E a nossa cadela gorda sofreu um transformismo digno de uma borboleta. Em poucos meses, transformou-se num bicho esguio, capaz de saltar a alturas improváveis, e que, durante a sua turbulenta adolescência, foi uma delinquente que saltava o muro para ir matar, numa orgia de sangue e penas esvoaçantes, as galinhas da vizinha.

Também podia falar-vos dos gatos, em particular do intrépido Pancho, que adoptou como lema de vida a divisa "vive depressa, morre jovem", mas por hoje não vos maço mais.