Em defesa do São João do Porto

Milhares de pessoas encurraladas à espera de passagem para o Porto pelo tabuleiro superior da Ponte Luís I. Gaia, cerca das 1h30 da madrugada.

Aquilo que se passou ontem na cidade do Porto, na mais importante noite do ano, a noite de São João, ficará certamente a marcar a história recente da cidade e da sua relação com o Poder.

O espectáculo de variedades transmitido pela RTP a partir da cidade de Gaia, que durou até depois da meia-noite sem transmitir uma única imagem do São João nas ruas do Porto, foi uma instrumentalização política da festa popular e uma tentativa de apoucar a cidade, as suas gentes e os seus símbolos.

A RTP procurou, ao longo de várias horas de emissão a partir da Serra do Pilar, em Gaia,  com directos de uma inenarrável “marcha sanjoanina” a partir dos Açores, reescrever a história da festa que faz parte da alma da cidade Invicta, colocando-se ao serviço de interesses políticos pouco claros, numa obscura e caríssima acção de propaganda contra o Porto e a sua festa maior.

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Tambores em Junho

Está a chegar Junho e eu adoro Junho, aliás nunca conheci alguém que não goste de Junho, é provável que seja humanamente impossível não gostar de Junho, e um dia haverá uma teoria alicerçada em feromonas, partículas gama ou epistemologia genética, que explicará essa impossibilidade, mas até lá fico-me com as minhas muito particulares razões para adorar Junho e que incluem, embora não se fiquem por aí, as Fontainhas.

Para alguns será necessário contar que as Fontainhas não são mais do que um bairro do Porto, um pequeno bairro castigado, voltado para o rio, casas antigas, algumas em ruínas, e uma gente castiça, que não troca os bês pelos vês, porque os vês, a bem dizer, nem existem. É certo que, entre Julho e Maio, as Fontainhas entristecem-me. Mas há um mês, e qual mais poderia ser?, em que as Fontainhas se transformam no bairro mais festivo da cidade, engalanado para a noite de S. João. E não há Junho em que eu não regresse às Fontainhas.

Ora, quando eu era catraia, as Fontainhas eram a Disneylândia dos pobres, um caótico miniparque de diversões com barracas de farturas, carrosséis desengonçados, carrinhos de choque já muito esmurrados, colunas roufenhas a debitar música que ainda não sabia que era pimba, algodão doce a colar-se ao queixo, às mãos, ao cabelo, ao vestido, à camisa do meu pai, à blusa de alças da minha prima, íamos ficando pegados uns aos outros, num trem humano de açúcar e corantes, até a minha mãe nos salvar a todos com um lenço de pano, ainda nem havia dos outros, humedecido no chafariz.

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