Tambores em Junho

Está a chegar Junho e eu adoro Junho, aliás nunca conheci alguém que não goste de Junho, é provável que seja humanamente impossível não gostar de Junho, e um dia haverá uma teoria alicerçada em feromonas, partículas gama ou epistemologia genética, que explicará essa impossibilidade, mas até lá fico-me com as minhas muito particulares razões para adorar Junho e que incluem, embora não se fiquem por aí, as Fontainhas.

Para alguns será necessário contar que as Fontainhas não são mais do que um bairro do Porto, um pequeno bairro castigado, voltado para o rio, casas antigas, algumas em ruínas, e uma gente castiça, que não troca os bês pelos vês, porque os vês, a bem dizer, nem existem. É certo que, entre Julho e Maio, as Fontainhas entristecem-me. Mas há um mês, e qual mais poderia ser?, em que as Fontainhas se transformam no bairro mais festivo da cidade, engalanado para a noite de S. João. E não há Junho em que eu não regresse às Fontainhas.

Ora, quando eu era catraia, as Fontainhas eram a Disneylândia dos pobres, um caótico miniparque de diversões com barracas de farturas, carrosséis desengonçados, carrinhos de choque já muito esmurrados, colunas roufenhas a debitar música que ainda não sabia que era pimba, algodão doce a colar-se ao queixo, às mãos, ao cabelo, ao vestido, à camisa do meu pai, à blusa de alças da minha prima, íamos ficando pegados uns aos outros, num trem humano de açúcar e corantes, até a minha mãe nos salvar a todos com um lenço de pano, ainda nem havia dos outros, humedecido no chafariz.

As Fontainhas eram uma alucinação ruidosa de feirantes artificialmente louras, bancas intermináveis de tabuleiros de barro, assadores, bonecas de louça, molduras com o retrato da Dona Amália, nuvens de canela das farturas, catraios a correr por entre as bancas dos vendedores, raparigas com calças de ganga apertadas, que passavam, entre risadas, com as socas a rapilhar pelo chão, e bolhas de pastilha elástica de morango a sair-lhes dos lábios, bolhas que cresciam até lhes esconder o rosto para depois explodir com um estalido seco e uma flor de goma-arábica colada à pele.

Mas os bastidores desse cenário impressionavam ainda mais do que a feira ali montada, porque atrás dos divertimentos estava a desoladora descida para o rio, a rampa das carquejeiras, que as mulheres subiram durante décadas com cestos de cinquenta quilos à cabeça, o muro onde os suicidas iam passar tardes a ganhar coragem, a namorar a ideia da sua morte, a calcular os movimentos do salto. Ali estava a curva do rio, a sombra das pontes, as escarpas irregulares do outro lado, as casas clandestinas num equilíbrio que algum dia chegaria ao fim. E por vezes saía de uma das casas de lá de baixo uma velhota muito encurvada, que vinha estender três ou quatro rodilhas encardidas, mas antes de sair olhava, à cautela, para cima, conhecedora das estranhas aves que percorriam o seu pequeno céu.  Os adultos temiam esse muro, receavam que alguma ventania diabólica ou um temporário ensandecimento os fizessem saltar também, e nós sentíamos isso e corríamos para outro lado, para o meio da feira, onde o ruído e a confusão de pés nos salvaria.

Nas Fontainhas compravam-me, todos os anos, um copo na roulotte onde gravavam o nosso nome no vidro, com um som áspero que me arrepiava, com uma caligrafia bem desenhada, letras brancas sobre o vidro transparente: “Carla”, nome pequeno, desenhava-se depressa. E o copo, que lá em casa só eu podia usar, nunca chegava ao fim do Verão porque o vidro tinha a espessura de uma folha e eu tive sempre dificuldades com a motricidade fina.

Além do copo, compravam-me um tambor e foi por causa do tambor que eu me sentei a escrever estas linhas, porque há dias descobri, numa destas lojas que apelam ao saudosismo, um tambor como os que se vendiam nas Fontainhas, e estive a discutir comigo mesma compro, não compro, e não comprei porque achei que o tambor que eu tinha à minha frente jamais podia equiparar-se aos que já não existiam.

O tambor que eu recordava, que era igual a cada ano, vinha com duas pequenas baquetas de madeira e um cordel para pendurar ao pescoço. Tinha umas delicadas, receio que demasiado delicadas faces de papel. Tanto eu gostava do meu tambor, tanto me entusiasmava tocá-lo, que o rasgava em pouco tempo, às vezes ainda antes de chegar a casa.

Passei anos a lamentar a sorte dos tambores, a tentar consertá-los sem sucesso, a deitá-los fora com o coração apertado e a receber Junho com a certeza de que haveria um tambor novo. Tanto tempo perdido a chorar tambores para só agora, frente aos tambores novinhos em folha da loja, perceber o óbvio. Com o meu precário tambor eu podia fazer duas coisas: poupá-lo para que durasse um ano inteiro, ou tocá-lo tão desenfreadamente quanto me apetecia  e rasgá-lo em dois tempos. Acho que tomei sempre a decisão certa.

E entretanto, pesem todos os imprevistos, Junho regressa sempre e, acho que já vos disse isto, adoro Junho.

 Foto: Feliciano Guimarães

 

Comments

  1. rui lima says:

    Excelente peça literária


  2. Há quantos anos não vou ao São João, nem como sardinhas na véspera, nas benditas Fontainhas?! Sei exactamente: há 10 anos. Almocei sardinhas no dia 23 de Junho, um mês antes de deixar de trabalhar no Porto, onde ficaram 39 anos de mim.
    Por isso, sempre que escreves estes pedaços do Burgo e das suas idiossincrasias, eu me extasio. Até porque não és só aquela que escreve, és aquela que fala, pinta, saboreia,canta e pinta a manta duma história só possível para uma gaja do Porto, uma mulher do norte, com prosa na alma, de todo um povo que entre o casario também feriu a asa, como o milhafre da cantiga, que por acaso pertence a um dos mais belos poemas do Tê, imagem única desta gente do Porto, das Fontainhas porque é Junho.O teu Junho, que fizeste nosso!

  3. Ines Pereira says:

    Tambem eu sinto o mesmo, talvez porque tive um pai que quer estivesse bom ou mau tempo nos levava ao S. Joao as Fontainhas e que por ironia do destino foi enterrado na verpera de S. Joao. Junho e mesmo um mes especial.para si para mim e para todos os portuenses que se orgulham de o ser. Parabens por este excelente trabalho e por trazer a minha mente todas essas recordacoes, o cheiro da sardinha assada, o cheiro dos ramos da cidreira e do alho porro mais as plumas e os martelos…os brinquedos de chapa e de madeira etc. Muitos parabens mesmo.


  4. O primeiro post da Carla que me deixou algo triste… Está obviamente bem escrito como sempre, as razões são apenas minhas. Não vou a Portugal desde Agosto, contava ir em Junho pelos santos populares, Sto António era certo, com possibilidade de estender ao S.João, uma amiga do Porto tinha lançado o repto, mentalizei-me e zás, questões profissionais obrigam ao adiamento por um mês da viagem. Santos em Lisboa desde 2011 que não estou presente, no Porto tenho que recuar a um ano para mim inesquecível, 1992. À época um director em Lisboa enviou 4 estagiários para a delegação do Porto, na semana do S.João, sem se dar conta é claro. Que ambiente. Foi nessa semana que me apaixonei pelo Porto, onde vou todos os anos, mesmo que apenas para passear junto ao rio ou jantar com amigos. E claro, foi precisamente nas Fontainhas que vivi o meu único S.João portuense.
    Excelente, Carla!


  5. Todos os anos, sem excepção, vou às Fontainhas em Junho no dia do meu aniversário a 22. O São João faz a 24, e como sempre uma fartura à saúde do Santinho…além do copinho e outras mais…

  6. Orvalho says:

    … e o tanque, o tanque para lavar roupa. As feiras, de Julho a Maio, sempre aos sábados de manhã. A frescura do local nas tardes de verão. A ponte, aquele monstro que as Fontainhas sabe contornar.
    Tudo aquilo é muito lindo. Foi lá que em miúdo me escandalizai com originalidades de insulto que ainda hoje me fazem rir.


    • Originalidades de insulto? Ah, isso interessa-me. Por exemplo?

      • Orvalho says:

        Era muito novo, tinha vindo para o Porto, para o Alexandre Herculano. Na minha primeira ida às Fontaínhas, ainda antes da festa de S.João, olhei espantado para umas miúdas tão sujas quão magras que pediam para o Santo António.
        De imediato uma delas disse-me aceleradamente: estás a olhar, nunca bistes? olha que eu tenho mais quilómetros de p___ que tu de idade !!!
        E disse mais coisas. Retive esta porque na altura não a percebi.
        Sempre que me lembro das Fontaínhas, lembro-me desta frase, onde a seguir ao p vem um i.
        Quanto a outras, não sei se devo contar.
        Talvez esta: já fiz ginástica nos cornos do teu pai!


  7. Carla – que beleza que escreveu sobre o seu junho – que prazer na leitura como se eu andasse, consigo, por aí – mas não sou do Porto – mas levou-me a esse Porto que terei de redescobrir

  8. Rui Moringa says:

    Carla Romualdo,

    Muitos parabéns pela prosa, bom naco de prosa sobre as vivências do Junho nas Fontainhas.
    Fui e passei em Junho e fora de Junho pelas Fontainhas. Antes de rumar ao Liceu Alexandre Herculano estudei no Colégio dos Órfãos dos Padres Salesianos.
    Há muito tempo que não vou às Fontainhas. Ao ler-te fiquei com saudades e vou lá um dias destes. Estaciono em São Lázaro, desço a Rua de S. Vítor e vou para as Fontainhas matar saudades.
    Mas para além do local são as gentes que tu “cantas” quando escreves.
    Agradecido.
    Rui Moringa

  9. antonio oliveira says:

    Obrigado Carla R. Regressei ao passado enquanto li o seu texto.


  10. Rui Moringa, António Oliveir: com muito atraso, eu sei, muito obrigada.

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