Adeus walkman

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Tive um walkman. Como muitos da minha idade. Já lá vão uns anos. Era uma companhia habitual e levava-o para quase todo o lado. Nos primeiros tempos transportava-o na sua caixa de cartão e devidamente condicionado no plástico de origem. Como quem compra um carro novo e fica zangado com quem lhe suja os tapetes pela primeira vez. Não durou muito. Essa mania, claro, porque o walkman durou. Com jeito ainda o tenho para ai enfiado.

Era Sony, como só os verdadeiros walkmans podem ser. Preto, com as letras em prateado. Tinha rádio, com mostrador digital, auscultadores e um clip para prender ao cinto. Leu muitas cassetes. Por aquele aparelho passaram horas de Pink Floyd, Beatles, U2, entre muitos outros.

Foi uma notícia, a do fim da venda do aparelho pela marca nipónica, que me fez recordar dele. Tive um walkman. À parte uma certa nostalgia por tempos que já não voltam, segui em frente. Não o choro. Hoje o walkman é uma peça do passado. Já quase não há cassetes, a qualidade sonora é muito melhor em CD ou em MP3, por isso a ‘morte’ do aparelho é natural. Não tem razão de ser nestes tempos.

Depois de divulgada a notícia, o canal Fox, dos EUA, colocou um dos aparelhos nas mãos de um adolescente dos nossos dias, do digital, da internet, dos ficheiros. Andou algumas horas a ouvir cassetes e nem reparou que estas tinham dois lados. Estes tempos não são para o walkman. A reforma espera-te pá.

O walkman faz 30 anos

Lembram-se de comprar cassetes áudio virgens (metal ou chrome?) e ouvir fielmente a mesma estação de rádio à espera de poder gravar as vossas canções favoritas? O sentimento de triunfo quando conseguiam fazê-lo sem interrupções parvas do locutor, ou o jingle publicitário de um refrigerante ou uma indicação de trânsito de última hora? E para que faziam isso? Para que investiam tanto tempo a gravar cassetes? Para ouvi-las no walkman, claro! Em qualquer sítio, a qualquer hora, enquanto as pilhas chegassem, a música acompanhava-nos. Quando queríamos ouvir aquela canção uma e outra vez, o melhor era gravá-a várias vezes na mesma cassete, que sempre era mais fácil do que passar o tempo a fazer “rewind” e gastava menos bateria. Ouvir as músicas por ordem aleatória (o agora banal “shuffle”) era um luxo que nem nos ocorria. Para quê? A rádio democratizava o acesso à música e havia sempre a possibilidade de gravar os discos dos amigos. Mas a graça estava em fazer de cada cassete uma compilação única, uma sequência que dependia do gosto e do estado de espírito de cada um e que seria sempre original. Lembrei-me de tudo isto a propósito deste artigo. A BBC propôs a um miúdo de 13 anos trocar o Ipod por um Walkman durante uma semana e escrever sobre a experiência. Não sei se o texto foi escrito por ele (parece bastante retocado por um adulto), mas vale a pena ler, quanto mais não seja para lembrar-nos desses artefactos jurássicos que nos fizeram tão felizes. Falo por mim.