Maleita Mortífera

Explicado-explicadinho por que motivo o Regime prossegue sendo esta criatura grotesca e terminal que nem acaba de morrer e nem de nos fornecer morte, desgraça e desnorte:

Cunhal não era o único a usar a cassete. Estes primeiros anos criaram assim o absurdo paradoxo que marcou até hoje a vida da III República: aqueles que deviam ser os primeiros a percepcionar os problemas concretos são, na verdade, os primeiros a recusar ver esses problemas. Em consequência, a entrada do FMI em 1977 (e depois em 1983) foi apenas a conclusão óbvia deste estado de coisas. O país tornou-se ingovernável, porque a governação não era o business dos partidos.

Henrique Raposo

O walkman faz 30 anos

Lembram-se de comprar cassetes áudio virgens (metal ou chrome?) e ouvir fielmente a mesma estação de rádio à espera de poder gravar as vossas canções favoritas? O sentimento de triunfo quando conseguiam fazê-lo sem interrupções parvas do locutor, ou o jingle publicitário de um refrigerante ou uma indicação de trânsito de última hora? E para que faziam isso? Para que investiam tanto tempo a gravar cassetes? Para ouvi-las no walkman, claro! Em qualquer sítio, a qualquer hora, enquanto as pilhas chegassem, a música acompanhava-nos. Quando queríamos ouvir aquela canção uma e outra vez, o melhor era gravá-a várias vezes na mesma cassete, que sempre era mais fácil do que passar o tempo a fazer “rewind” e gastava menos bateria. Ouvir as músicas por ordem aleatória (o agora banal “shuffle”) era um luxo que nem nos ocorria. Para quê? A rádio democratizava o acesso à música e havia sempre a possibilidade de gravar os discos dos amigos. Mas a graça estava em fazer de cada cassete uma compilação única, uma sequência que dependia do gosto e do estado de espírito de cada um e que seria sempre original. Lembrei-me de tudo isto a propósito deste artigo. A BBC propôs a um miúdo de 13 anos trocar o Ipod por um Walkman durante uma semana e escrever sobre a experiência. Não sei se o texto foi escrito por ele (parece bastante retocado por um adulto), mas vale a pena ler, quanto mais não seja para lembrar-nos desses artefactos jurássicos que nos fizeram tão felizes. Falo por mim.