João José Ferreira da Silva Santos Cardoso

João José Cardoso e Rui Seguro

João José Cardoso e Rui Seguro

Ponto prévio: nunca me zanguei tantas vezes com um amigo e, consequentemente, nunca nunca reatei tantas vezes uma amizade. 

Em 1977, eu, puto, decidi criar uma revista (era um modesto fanzine) de poesia e afins. Tinha quase tudo: o nome (liberatura) e a ideia (escrita apenas com minúsculas e textos curtos). Quanto ao resto, o mais importante, os autores, conhecia apenas um colega, o vítor, que escrevia umas coisas de que eu gostava. Convidei-o e passámos a ser dois. Alguém, já não sei quem, falou-me num tal Mário que escrevia uns textos. Lá fomos conhecer o dito Mário e, com ele, lançámos o número zero do liberatura. Impresso em stencil, como se fazia na época, até porque não tínhamos dinheiro para melhor.

Mas éramos poucos e o Mário (Fernandes da Costa) lembrou-se de um gajo que vivia na Ferreira Borges e que era capaz de querer participar. O gajo, sem ser preciso muito para o convencer, aceitou. Era o João José.

A partir daí, passámos a fazer praticamente tudo juntos, longas tardes de copos e tertúlia (suponho que não gostávamos da palavra na altura), dormíamos nas casas uns dos outros (principalmente na do João, que era mais central), os nossos pais aturavam-nos e alimentavam-nos a todos com doses industriais de paciência. Aumentámos o grupo, veio o Pardal, o Fernando e por aí fora, Viajámos, andávamos à boleia, acampámos, bebíamos finos e vinho ranhoso nas tascas da baixinha, íamos a filmes, aos raríssimos concertos que havia, e escrevíamos.

O João, na altura, além de literatura, interessava-se por espeleologia (que eu nem sonhava o que seria), fotografia e cinema. A espeleologia dava muito trabalho físico e ficou arrumada algures. O cinema, nos anos setenta, era-nos vedado, mas tenho ideia que ele ainda frequentou uns workshops (dizia-se curso). A fotografia, apesar de cara e difícil (os rolos, a revelação, a impressão), ficou-lhe para sempre e, anos mais tarde, vim a pedir-lhe que me ensinasse essas coisas de aberturas, tempos de exposição, diafragmas, contraluz, movimento, distância focal e etc.


A dado momento, em 1980, fui para Lisboa participar na Culturona (num prédio ocupado junto à Assembléia da República, projecto “político-cultural” onde se passaram coisas muito novas e interessantes) e convidei o João ir juntar-se a nós. O João lá apareceu e andámos uns tempos por Lisboa (estávamos juntos num café quando a programação da televisão foi interrompida para anunciar a morte de Sá Carneiro – desatámos aos berros e acabámos expulsos do café), com a ideia de fazer o jornal da Culturona, mas o JJ não aguentava muito tempo longe de Coimbra e regressou.

Imediatamente a seguir, de novo em Coimbra, começámos, com o Mário, a congeminar uma exposição de lixo. Nunca, em Portugal, que soubéssemos, se havia feito algo semelhante. Andámos, andámos e conseguimos que nos cedessem o Edifício Chiado, todo, inteiro, em plena Ferreira Borges, para a exposição. Enchemos os andares do Chiado com lixo que apanhávamos em incursões nocturnas pelos caixotes e, sem dominarmos os conceitos, fizemos instalações, performances, peças interactivas, etc. Foi um escândalo! Um escândalo a sério, acho nunca mais li críticas tão más e tão chocadas como essas. A exposição  chamava-se, adequadamente, Lixarte.

Por essa altura o João tinha um objectivo: “conquistar a Praça da República”, como ele dizia. Abandonámos a baixa e as tascas da baixinha, e começámos a subir a cidade. Passámos a frequentar os cafés da Praça, o Grupo Ecológico, a Clepsidra, a Rua das Matemáticas. Nós. Putos. Poetas. Tesos, de liberatura debaixo do braço para trocar por cerveja. Éramos celebrativos e provocadores, sempre a inventar e a festejar o que fosse e o que nos aprouvesse.

Fizemos um pacto: nenhum de nós iria à tropa (serviço militar obrigatório). Cada um arranjou os seus esquemas (desculpem, mas não revelo o do João). Para mim, dois anos mais novo, foi mais fácil porque, no ano que me calharia, apareceu a possibilidade da objecção de consciência. Mas não, não fomos à tropa, nenhum de nós foi. Enfim, o Pardal acabou por lá ir parar como refractário mas, coisa notável, tanto fez de louco que conseguiu ser dispensado ao fim de uns meses e mandado para casa.

Depois disso comecei a passar temporadas  cada vez mais longas fora de Coimbra e de Portugal ( o João, em Coimbra, continuou a fazer liberaturas em papel e a descobrir poetas, não sei quantos números foram feitos) mas, quando eu regressava, a primeira coisa que fazia era bater-lhe à porta ou ligar para o 26119 (acho que era assim), o telefone fixo que havia em casa dele. E lá recomeçávamos as nossas deambulações, com o JJ a convidar-me para participar nos projectos que ia inventando ou que lhe apareciam, a Rádio Livre Internacional (pirata), O Trunf’e Kopus, etc. Nessa altura andava ele pelo PSR, um partido de causas, “Eh, pá, temos que arranjar uns casais e ir todos dar beijos para um café na Portagem onde está um sinal a dizer que é proibido dar beijos”, a despenalização das drogas, os direitos dos homossexuais…

Ainda publicámos uns opúsculos, não sei precisar quando nem quantos, mas recordo-me do título do meu e do do João, que era composto por doze poemas e se chamava “umadúziacinquentapaus”, o preço a que vendíamos cada livrinho.

Um dia, estaríamos em meados dos anos 80, apareci com outra ideia, inspirada numa coisa semelhante que havia em Lisboa, e, como sempre, fui ter com o JJ e com o Rui Seguro – o qual, infelizmente, morreu três ou quatro meses antes do João, vitimado pela mesma causa. Fizemos ” As Noites + Longas de Coimbra”.

Nessa época, os bares fechavam à meia-noite e as discotecas às duas da manhã. Nós fechávamos já o sol tinha nascido, com licenças legais e tudo. Havia um truque que tínhamos descoberto, toda a gente queria saber qual era, os donos dos bares e discotecas andavam loucos, a polícia aparecia a pedir documentos ( a afluência era tanta que, mais tarde, acabámos por ter que contratar polícias para estarem à porta) e nós a rir que nem uns perdidos, caladinhos como quem não sabe de nada, com meia cidade a dançar e a divertir-se madrugada fora.

Ausentei-me do país durante uns anos e, de vez em quando, enviava algum dinheiro ao João que, na volta do correio, me mandava um pacote de livros escolhidos ao seu critério. Era, nesses tempos pré-net, a minha ligação à língua portuguesa.

No início dos anos noventa andava o JJ às voltas com a Rádio Universidade de Coimbra. Lembro-me de estarmos a ajudar a montar uma antena emissora no tecto da AAC. Fui algumas vezes para o estúdio com ele e, penso que de 1991 para 92, fizemos uma passagem de ano em directo, com bebidas, champanhe, petiscos e uma fondue de queijo. Pouco a pouco, foram chegando amigos que estavam a ouvir a RUC e a emissão terminou em festa ao vivo.

Nesse tempo começavam a aparecer os primeiros computadores pessoais e o João, pioneiro, aprendeu HTLM e outras técnicas que me escapavam em absoluto. Data de então a antologia da liberatura que ele pôs online e que pode ser visitada aqui. Eu tinha regressado a Coimbra com o propósito de fazer, com o nosso amigo comum Rui Seguro, uma firma de balões de ar-quente. O João, como não podia deixar de ser, aproveitou logo a deixa e fez a primeira emissão de rádio em Portugal a partir de um balão. Tanto quanto me lembro (mas não garanto exactamente) o vôo começou no jardim da AAC e terminou perto do choupal. Ele, que falava baixinho e mastigava as palavras, de microfone, auscultadores e umas maquinetas emissoras a tiracolo, a tentar falar acima do barulho produzido pelos queimadores do balão, num vôo rapidíssimo, sem mãos livres para se agarrar à barquinha, num dia com excesso de vento e turbulência, no limite da segurança, em que apenas se efectuou o vôo porque, enfim, estava anunciado e não podíamos desiludir os ouvintes. Grande João José!

Mais coisa, menos coisa, por esses dias, o Mário fundava a Viv’Arte e ia-nos convidando de quando em quando para acompanharmos o processo. Passados alguns anos, o João integrou a companhia como professor destacado e consultor científico, se não erro. Chegámos a andar os três, o Mário, o João e eu, medievalmente vestidos, divertidos como os putos crescidos que ainda éramos, a rir-nos de nós próprios e das vidas que íamos inventando ao longo dos tempos.

Seguiu-se, para o JJ, o Bloco de Esquerda, as campanhas, etc.

Quando começam a surgir os primeiros blogues, o João, como era de esperar, mergulhou de cabeça na blogosfera e, entre os blogues que fez, recordo este com um nome belíssimo: vi um homem que viu outro que viu o mar. Não sei bem quando, telefonou a pedir-me, como fundador e criador do nome, autorização para usar o nome liberatura, desta vez em formato blogue. Respondi-lhe que achava que a água não passa duas vezes sob a mesma ponte, mas que não me opunha. E lá se pôs o JJ, de novo, a descobrir poetas e autores.

Estávamos em 2009 quando o João me telefonou: “Ó pá, temos um blogue a sério, colectivo, com umas trezentas visitas por dia. Já falei em ti aos gajos e disse-lhes que te ia convidar”. Trezentas visitas? A sério? Eh, pá, isso é muito, nos nossos blogues quando temos mais de vinte leitores é dia de festa. ” Trezentas não é nada. Contigo e com mais uns gajos que vou propôr, vamos disparar as audiências. Tens que aceitar.” Aceitei e, com os aventadores que já estavam na casa e outros que foram chegando, assisti ao Aventar ir subindo, subindo, subindo… O João tinha encontrado as suas águas!

E foi no Aventar, a quinhentos quilómetros um do outro, que tivemos as nossas maiores zangas. A última foi grave e saímos dela bastante feridos. Não importa agora, mas eu achei que o João ultrapassou algumas linhas que não podem ser ultrapassadas, especialmente por amigos, ele terá pensado o mesmo, e eu, para não o aturar, afastei-me do Aventar. Desta vez estávamos mesmo zangados, doridos, amarfanhados, com o sentimento de que algo, entre nós, se quebrara. Durante dois anos não nos falámos.

Volta e meia, o João enviava-me um sinal, uma ou outra mensagem aparentemente anódina, uma referência no Facebook, etc., mas eu, magoado, não lhe respondia. Em Dezembro último estivemos sentados à mesma mesa, em Coimbra, com o Mário e mais duas ou três pessoas próximas. Eu e o João falávamos de raspão, quase por interposta pessoa, muito por culpa minha que, muitas vezes, sou tão casmurro como ele era. Passados poucos meses, o Mário contou-me que o João estava doente, mas que não era especialmente preocupante. Dias depois, recebo uma mensagem  do JJ a comunicar-me a morte do Rui Seguro. Respondi-lhe, finalizando a mensagem com qualquer coisa como “e quanto a ti, vê lá se te pões fino depressa”.

Em Setembro, o Mário avisa-me que era grave e que não havia retorno. Contactei um médico nosso amigo, o mesmo que havia informado o João da gravidade da sua situação. Confirmava-se. A sua resposta terminava com a frase “Falámos do fim”.

Senti-me estúpido. Tivesse eu razão, ou não, precisava de ver o João, de falar com ele, de lhe dizer foda-se esta merda, pá. Assim que pude, fui a Coimbra. Estive com ele quase três horas. Falámos pouco. Pela sua fraqueza e porque eu sabia que ele sabia e ele sabia que eu sabia. Sabíamos que não nos voltaríamos a encontrar, que o tempo dele estava a terminar. Despedimo-nos e ele disse-me a última frase que lhe ouvi, lapidar, e que dispensava respostas, hipocrisias ou mais palavras. Meti-me no comboio.

Duas semanas depois, exactamente duas semanas, recebi o telefonema pela manhã. O João tinha morrido, o João, meu amigo de tantos anos, meu quase irmão.

PS: 1- Tinha a intenção de publicar este texto durante os dias em que o Aventar foi dedicado exclusivamente ao João mas, sinceramente, não fui capaz de o escrever.

2- Se, ao falar do João José, falo em mim e, tantas vezes, ao falar de mim falo no João José, é porque, após quase quarenta anos, as nossas vidas ficaram misturadas até ao tutano. Para sempre.

Comments

  1. josé carlos seguro says:

    gostei da forma como o autor de certa forma se “retrata”, relativamente ao JJ. Confirmei as vidas vividas quer pelo João José que conheci mal, quer pelo Rui Seguro por quem por vezes sofri.

    • A. Pedro Correia says:

      Na realidade, José Carlos, não é disso que se trata. Procurei apenas prestar uma homenagem ao João José, de quem fui amigo como poucas vezes se é, com verdade, honestidade e sem hipocrisia, narrando parte das experiências que comunguei com ele.
      A morte de uma pessoa não altera ou apaga os factos da vida e esses são o que foram.

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  1. […] mês, menos mês, faz dez anos que o João me convidou para o Aventar. Ao João não se podia recusar um convite sem ele se tornar chato. Um […]


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