Pão e Rosas

Um texto de João José Cardoso, publicado, no Endrominus, no dia 8 de Março de 2007.

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(imagem daqui)

O Dia Internacional da Mulher foi estabelecido a partir da data de uma greve de operárias nova iorquinas, em 8 de Março de 1857. Ou talvez não. Rezam algumas crónicas que patrões e polícias trancaram as mulheres dentro da fábrica, lançaram-lhe fogo, e 129 morreram carbonizadas.

Embora factos como este tenham sucedido mais de uma vez num século XIX liberal, quando os patrões faziam mesmo o que queriam, existe um misto de lenda e história na escolha da data.

Prefiro outra lenda, a do Pão e das Rosas, por vezes misturada com as do 8 de Março, que tem origem num poema com o mesmo nome da autoria de James Oppenheim, publicado em Dezembro de 1911, e oferecido às “mulheres do Oeste”. Está geralmente associado a uma greve do sector têxtil em Lawrence, Massachusetts, em Janeiro-Março de 1912, e que ficou conhecida pela Greve das Rosas e do Pão. A greve de Lawrence, que uniu dezenas de comunidades imigrantes foi, em grande parte, conduzida por mulheres. Muitos afirmam que, durante a greve, algumas das mulheres transportavam um cartaz que dizia Queremos pão mas também queremos rosas! Não existem provas fiáveis que o confirmem, e esta afirmação foi rejeitada por alguns veteranos da greve de Lawrence, provavelmente homens, está-se mesmo a ver.

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Os bons, os maus e o comboio

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Dou por mim parado na estação de Coimbra B e recordo-me do dia em que vi, pela primeira vez, o João José Cardoso. O João José, a Noémia e o Ricardo, a Carla e o petiz, o Dario, o Orlando e o Nabais e acho que, do pouca-terra que partira de Campanhã, éramos estes. Em Coimbra, naquele belo tasco forrado a retalhos de individuais de papel, com palavras de ordem e devaneios boémios, conheci mais uns quantos. Se a memória não me trai estava lá o Valada, a Eva, o Jorge e o Fernando, que chegou mais tarde. Um dia bem passado, bem regado e de pança cheia. Um raro dia de convívio em que ocupamos o mesmo espaço físico, não descurando todos os dias em que nos encontramos, virtualmente, para arquitectar conspirações, parvoíces e coisas sérias. [Read more…]

Postcards from Wageningen #1 (2016)

Do not walk outside this area

Há um ano, mais ou menos, também estava em Wageningen. O João tinha morrido há uns dias. Todos os postais de então foram para ele. Hoje, mais ou menos um ano depois, o João continua morto. Vim a pensar nisso – de há um ano mais ou menos estar aqui e do que senti nessa altura com a morte do meu amigo – no avião para Amsterdão.
A Sandra e o Luís, que vieram pelo Porto, estavam já no aeroporto de Schiphol quando aterrei. O Luís ajudou-me com a mala grande até ao comboio. Encontrámos o Talis na plataforma 3 e viemos os 4 para Wageningen. Pouco a pouco foram chegando outros colegas ao hotel no meio do bosque. Um hotel moderno, clean, muito confortável onde vou ficar 3 noites. Amanhã começamos cedo, às 8h30 da manhã. Tenho de dormir e não me apetece. Na verdade, nunca me apetece dormir e resisto até o sono me vencer sem dar por isso. Custa-me entrar dentro do sono, aqui como em qualquer outro lugar.
Passei a tarde toda em viagem. Há pouco para contar. A Holanda é, mais a mais, um país tranquilo, de casas com janelas sem cortinas, de casas transparentes. Isso agrada-me, confesso. Gosto de espreitar para dentro das casas das pessoas. Aqui nem é preciso espreitar. Elas mostram-se. Já eu fechei as cortinas da grande janela do quarto. Hábitos.

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Se eu tivesse um sonho de merda…

… faria hoje um ano que morreu o JJ. Um ano redondo. Em rigor, mais um dia. Morreu, pois foi. Morreu. Ah, e se ele estivesse aqui, o que diria? Diria, olha, cá estou, morri! E di-lo-ia até morrer de secura. Diluía, pois. Era uma estragação de café e de whisky. Mas se não dissesse, era o mesmo. “O círculo aperta-se, primeiro fulano, depois beltrano, agora sicrano. Não sei porquê mas cheira-me”, até já o tinha dito e muito antes. E é verdade que ela agora fede como nunca. Até no cheiro dos meus colhões a sinto. E se fosse vivo? Ah, se fosse vivo… Se fosse vivo, fingia-se de morto e ela passava por ele como cão por vinha vindimada. Bem, a verdade é que ele não o faria. Chamá-la-ia armado em parvo, como se pudesse dar-lhe a volta ou insultá-la. Arrasá-la-ia no Aventar ou no Endrominus, como se o sonho comandasse a vida. E cairia no último momento – como sempre se cai! – depois de dar cabo dela, fodendo-a bem outra vez. Se eu tivesse um sonho de merda, seria assim.

Ao João

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Sabes, ia escrever umas coisas sobre ti. Mas ao começar, li o post do Nabais e, com o meu velho complexo de inferioridade, decidi não escrever nada. Perante aquele poema, simplesmente não valia a pena.
Nunca te disse, mas era como me sentia sempre à tua beira: inferior. Falávamos todos os dias, várias vezes por dia, por SMS e por mail. A correspondência que trocámos era capaz de dar para publicar um livro.
Mas nas 2 ou 3 vezes por ano em que nos víamos ao vivo, calava-me. Não sabia o que te dizer. Se calhar nunca reparaste, éramos sempre muitos e nunca faltava com quem falar. Mas tu eras tu, eras o João José Cardoso, eu era apenas eu. Podia nascer 10 vezes que não chegaria ao teu nível, como é que havia de sentir-me ao teu lado?
E afinal, passado um ano, cá estou eu. Sobrevivi-te. É natural, mais 12 anos de boémia em cima fazem uma certa diferença.
Tenho pensado muito em ti neste último ano. No dia em que te conheci no 007 – Licença para Comer. No abraço que me deste, já bem bebido que estavas, na primeira vez que fomos almoçar ao Casino da Urca. Na noite em que me puseste a dormir no chão, mais a Noémia e a pequena Leonor, porque te esqueceste de ir buscar um colchão ao sótão e porque a cama da tua mãe, apesar de vazia, era sagrada. No dia em que alteraste os planos e mais uma vez propuseste o Casino da Urca, sabendo que eu queria ir ao Portugal dos Pequenitos com as miúdas. Na última vez em que nos encontrámos, na Estação de S. Bento onde tomámos café e na Serrana que nunca te mostrei.
Costumo dizer que não me arrependo de nada. Engraçado, há uns dias um amigo comum recordou-me um post terrível que em tempos escrevi e do qual me arrependo profundamente. Quanto a ti, também me arrependo. De nunca ter realmente conversado contigo. De nunca te ter olhado nos olhos para dizer que gostava de ti. Que te admirava. Que gostaria, um dia, de ser brilhante como tu eras. Chamei-te amigo, quase no fim, mas já estavas demasiado doente para responder.
Não faz mal. A tua ausência, no último ano, serviu-me de resposta. E a falta que me fazes também.

João José Cardoso (1959-2015)

Os 4052 posts do JJC.

Cruzei-me com os olhos da minha avó

Isto é por tua causa, João.

Hoje, fui felizmente obrigado a ir até à Rua de Santa Catarina (ou até Santa Catarina, como dizem os meus irmãos portuenses). A manhã estava luminosa, indecisa entre fria e quente. Fui até à Latina, comprei um livro e regressei, de costas para a Batalha. Estava como gosto de estar, com tempo. Como se fosse um turista sem a pressão das visitas guiadas, livre de mapas. À porta do Majestic, fui turista de turistas (já não deve faltar muito para que se organizem percursos de observação de turistas).

Precisava de tomar o segundo café, ler um bocadinho do jornal de ontem, continuar o livro, sentar-me. Ócio, o luxo obrigatório.

Pelo caminho, cruzei-me com uma velha conduzida por um casal. Estava a olhar para mim. Eram os olhos da minha avó. Não da mesma cor, não os mesmos olhos, antes o mesmo olhar, como é que isso se explica? Um certo desamparo, uma espécie de espanto infantil com a realidade, como se tivesse desaprendido tudo o que já soube. Os olhos da minha avó olharam para mim e não me estavam a acusar, talvez porque queira (eu ou ela?) limpar a minha consciência. [Read more…]

Mariana Mortágua e a arte da demolição

Chega a ser comovente, o semblante de Maria Luís Albuquerque no final da intervenção demolidora da Mariana Mortágua, que recordou a inicialmente sorridente ex-ministra que o governo que integrou falhou sucessivamente todas as metas a que se propôs. Que mais não fez do que um exercício de subserviência face ao poder quase-absoluto de Bruxelas. Que o pensamento político e económico do PSD não passa de um reflexo das exigências de Bruxelas. Porque não existe. O PSD obedece. 
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Nasce hoje Roy Batty, vivo há 34 anos

blade-runner-windows-to-the-soul-thoughts-on--L-4rEUMJAll those moments will be lost in time, like tears in rain.

Roy Batty, Blade Runner

Em 1983, entrei, salvo erro, num dos cinemas do Girassolum, uma das salas hoje defuntas de Coimbra. Apesar de o filme ter um título em português (Perigo Iminente – ou Perigo Eminente, como viria a ler-se em muitas cassetes VHS de videoclubes manhosos), é e será sempre conhecido por Blade Runner, no original e para os amigos.

Foram muitas as coisas que me impressionaram no filme, num constante estranhamento que se foi entranhando: um cenário em que o futuro da ficção científica era perigosamente verosímil, um Harrison Ford chandleriano (até se sentia um cheirinho a Humphrey Bogart , com direito a voz off de filme negro), uma banda sonora inquietante, a beleza serena e frágil de Sean Young e um dos melhores e mais complexos vilões da História do meu Cinema, Roy Batty, papel desempenhado por Rutger Hauer. [Read more…]

Falar contigo era melhor

Há coisas que acontecem só para que se cumpram profecias.

Hoje na terra dele, Coimbra essa, um grupo de aventadores ponto eu (que bonito escrito assim) juntaram-se para uma homenagem. À tua memória parvalhão. Porque é que o poder de convocatória aumenta com a morte é um mistério insondável para mim.

Nunca tinha estado lá (cá). No aventar quase só naveguei contigo e agora aparece-me mais. Agora que já não estás (será que é por isso?) não há tempo a perder.

Neófito e caloiro. Nas lógicas iniciáticas os que chegam depois ficam sempre à mercê dos circunstantes. Coisas de chegar tarde? O almoço (encontro) foi bonito. Foi não foi? “Para os camaradas e para os outros” repetia  uma voz que amava repetir-se sem saber. E era bela.

Já quase no fim eles chegaram e tiraram-nos fotografias. Como se tivéssemos estado sempre juntos.
– João, foi um belo dia de novembro este. Podias cá ter estado. Não tinhas perdido nada.

Aí do outro lado como é?  Estamos todos curiosos para saber como “te las arreglas sin nosotros”?  Mas deve ser uma grande folia à mesma.

Sabes?… falar de ti tem sido bom. Mas falar contigo era melhor.  [Read more…]

Assim seja, caralho*

Liberdade. Ser livre não é para todos. Primeiro, é preciso a consciência e a vontade de ser livre. Não se é livre sem saber que se é livre e sem assumir essa responsabilidade: as crianças, seres nefelibatas, não são verdadeiramente livres; não se é livre abdicando de o ser, o que sucede muitas vezes, entre outros motivos, por falta de coragem, por fragilidade de carácter, por cálculo de compromisso; não se é livre se, em prol de outros valores, mais ou menos venais, se aliena total ou parcialmente a possibilidade de ser livre. Para ser livre é preciso ainda contexto político e jurídico, ou fugir. A tudo acresce a medida. Muita gente seria, em hipotética igualdade de circunstâncias, intrínsecas e extrínsecas, diferentemente livre consoante o quantum de liberdade que lhe bastasse.

Acredito que poucos saberão dizer se são livres ou reféns das teias da sua liberdade. Embora lhes seja fácil identificar nos outros os traços de liberdade que admiram.

É aqui que me situo, eu que procuro ainda, desta forma analítica e ociosa, digerir a morte prematura de alguém que foi, para mim, sinónimo de liberdade e talvez o meu melhor amigo. [Read more…]

Postal de Wageningen #3

Os aeroportos são os sítios mais estranhos do mundo

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disseste-me muitas vezes que não voavas. deslocares-te era uma maçada, até há relativamente pouco tempo. sei que nos últimos tempos mudaste um bocadinho nisso. ainda assim, não voavas. uma vez pensei em ir à islândia e falei-te vagamente nisso. disseste que era um sítio onde gostarias de ir. desafiei-te. que não elisa. que disparate. não se leva areia para a praia. disseste. e o assunto ficou por ali. ainda não fui à islândia e olha talvez nunca lá vá.

não sei porquê, lembrei-me disto no aeroporto de schiphol. O avião estava atrasado. temos que ocupar o tempo. lembrei-me disto. não se leva areia para a praia. disseste. mas eu já não era areia. e nunca passei de um grão.

é estranho pensar em areia e praia e na islândia no aeroporto de schiphol. os aeroportos são, quase sempre, os lugares mais estranhos do mundo. sempre preferi estações de comboios. acho que tu, tenho a certeza que tu, que não voavas, também.

os aeroportos são lugares estranhos, simultaneamente cheios de gente tão diferente, carregando as suas próprias dores e malas, tão cheios de humanas coisas e tão artificiais.

gosto de olhar para as pessoas nos aeroportos (como em quase toda a parte) e encho-me de humanidade, apesar de tudo. grãos de areia. na verdade. não reparei se algum voo saía à mesma hora para a islândia. mas pensei grãos de areia. pensei até que agora mesmo carrego grãos de areia para uma praia aparentemente nova. há qualquer coisa de estranho num gajo começar a apaixonar-se quando um amigo tão grande começa e acaba de morrer. tão estranho como os aeroportos. se calhar não passa também de um artifício. há merdas destas.

estou agora na minha varanda a fumar, a mesma onde fumámos tantas vezes juntos, e a pensar nos grãos de areia que ando a transportar. às vezes magoam-me. nunca tive jeito para isto, como sabes. há estrelas no céu aqui na varanda. a porra do céu está cheia do brilho das estrelas mortas. não se leva areia para a praia. e sabes? não se deviam levar mais estrelas para este céu.

Lúcido e activo até ao fim

Esta manhã deixou-nos o meu querido amigo JJCardoso que conheci à chegada de Moçambique e me recrutou para o MRPP em 1974 durante os tempos de Liceu José Falcão. Chamou-me há meses para se esclarecer da doença que chegava e ouviu-me, no meu péssimo costume cru e frio, dizer que faltava pouco. Ele não tremeu, não vacilou e foi comigo até ao lançamento da candidatura de outro amigo – o José Manuel Pureza pelo Bloco. Sempre lúcido, sempre activo, sempre firme. Estivemos a falar da doença e da política e das ilusões futuras e dos projectos que queria acabar, sentados na Brasileira na baixa. Adeus João José. Descansa em paz! Coimbra está mais pobre sem ti! Diogo Cabrita no Facebook

João José Ferreira da Silva Santos Cardoso

João José Cardoso e Rui Seguro

João José Cardoso e Rui Seguro

Ponto prévio: nunca me zanguei tantas vezes com um amigo e, consequentemente, nunca nunca reatei tantas vezes uma amizade. 

Em 1977, eu, puto, decidi criar uma revista (era um modesto fanzine) de poesia e afins. Tinha quase tudo: o nome (liberatura) e a ideia (escrita apenas com minúsculas e textos curtos). Quanto ao resto, o mais importante, os autores, conhecia apenas um colega, o vítor, que escrevia umas coisas de que eu gostava. Convidei-o e passámos a ser dois. Alguém, já não sei quem, falou-me num tal Mário que escrevia uns textos. Lá fomos conhecer o dito Mário e, com ele, lançámos o número zero do liberatura. Impresso em stencil, como se fazia na época, até porque não tínhamos dinheiro para melhor.

Mas éramos poucos e o Mário (Fernandes da Costa) lembrou-se de um gajo que vivia na Ferreira Borges e que era capaz de querer participar. O gajo, sem ser preciso muito para o convencer, aceitou. Era o João José.

A partir daí, passámos a fazer praticamente tudo juntos, longas tardes de copos e tertúlia (suponho que não gostávamos da palavra na altura), dormíamos nas casas uns dos outros (principalmente na do João, que era mais central), os nossos pais aturavam-nos e alimentavam-nos a todos com doses industriais de paciência. Aumentámos o grupo, veio o Pardal, o Fernando e por aí fora, Viajámos, andávamos à boleia, acampámos, bebíamos finos e vinho ranhoso nas tascas da baixinha, íamos a filmes, aos raríssimos concertos que havia, e escrevíamos.

O João, na altura, além de literatura, interessava-se por espeleologia (que eu nem sonhava o que seria), fotografia e cinema. A espeleologia dava muito trabalho físico e ficou arrumada algures. O cinema, nos anos setenta, era-nos vedado, mas tenho ideia que ele ainda frequentou uns workshops (dizia-se curso). A fotografia, apesar de cara e difícil (os rolos, a revelação, a impressão), ficou-lhe para sempre e, anos mais tarde, vim a pedir-lhe que me ensinasse essas coisas de aberturas, tempos de exposição, diafragmas, contraluz, movimento, distância focal e etc.

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Postal de Wageningen #2

não quero que te preocupes

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uma vez disseste-me que se tivesses uma memória como a minha suicidavas-te. parei o copo de cerveja, mesmo antes dos lábios. era aveiro. era noite. o verão despedia-se e nós conheciamos-nos pouco a pouco, a um ritmo intermitente que combinava a minha impulsividade com o teu mau feitio. entre outras coisas, incluindo os tais desencontros de horários. éramos ambos, por razões diferentes, uma trapalhada ambulante. tínhamos bagagens muito pesadas que arrastávamos para todo o lado e só raramente largavámos das mãos e dos olhos. disseste aquilo muito seguro do que acabavas de dizer, mas como se não te lembrasses do peso do que acabavas de dizer. eu não disse nada, o copo suspenso antes da boca mas pensei que parvo. dizer-me esta merda a mim e sacudi a cabeça e bebi finalmente.

mas foi evidente que tinhas razão. uma memória enorme, a minha e pesada como o raio, que não me larga as mãos e os olhos. uma memória brutal. no entanto, ainda não me matei e tenho, sinceramente como sempre tive, dúvidas que alguma vez me suicide. dava trabalho e, na verdade, agora que morreste, restam poucas pessoas de quem goste o suficiente para lhes deixar as malas. suponho que me entendas. passaram muitas estações e acabámos por nos conhecer tanto quanto podem as pessoas conhecer-se. já sei, é sempre quase nada.

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O João gostava disto e de vocês

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O João era um verdadeiro blogger, gostava tanto disto que por vezes deixava coisas importantes (daquelas realmente importantes) por fazer só para continuar a bombar no Aventar. E o João gostava da equipa do Aventar. Quantas vezes estava a chegar ao 007 para jantar com o João após um dia de trabalho e o João: “temos lá agora um puto no Aventar…” Havia sempre um puto novo no Aventar que fazia maravilhas para o João. Dissertava sobre as novas secções do Aventar, “olha, temos uma nova secção Hoje dá na net“, lembro-me especialmente como ficou radiante com a Rádio Aventar, que o remetia para os tempos da Rádio Universidade. Desafiou-me para entrar no Aventar e, tal como fazia com os restantes membros do Aventar, estava sempre a chagar-me para escrever novos posts. De vez em quando o João escrevia asneira da grossa. Mas o que era notável era a sua humildade. “Olha pá, ontem mandei uma argolada de todo o tamanho no Aventar“. Nunca conheci um blogger capaz de admitir o erro com a franqueza e a rapidez do João. Por vezes enviava-me mensagens muito preocupado às tantas da matina “vê se o que escrevi no meu post de hoje está correto do ponto de vista científico, estou a levar porrada de meia-noite na caixa de comentários“. Obviamente que o João tinha chatices com outros membros do Aventar, confidenciava-me o diferendo com determinado membro, mas atirava logo a seguir “a ver se reconcilio com el@ daqui a umas semanitas“.

O João é um dos meus melhores amigos. Um dos mais imperfeitos. No sábado quando peguei nestas fotografias dei por mim a soluçar descontroladamente e não consegui. Hoje isto já saiu melhor.

O João José

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Tomei conhecimento da morte do JJC no Domingo de manhã, através de um “email” que o Ricardo me mandara no Sábado pelas 16h30, e a notícia bateu-me forte. Dizia simplesmente que o JJC tinha falecido durante a noite de Sexta. E uma dor imensa se abateu sobre mim.
O João José foi meu amigo, companheiro e confidente durante alguns anos. Por essa razão fui várias vezes a Coimbra só para falar com ele. Talvez por isso, quando nos afastamos, me doeu tanto. Nunca deixei de ser seu amigo, olhando-o de longe, com um olhar amargo.
O nosso afastamento foi provocado, em primeira instância, pela minha teimosia, e depois pelo seu brilhante e irritante mau feitio, e pela sua obstinação, que o levava a combater com convicção e por vezes com alguma violência, o que sentia ser errado, não aceitando meias medidas.
Estive com ele, pela última vez, este ano, no almoço de aniversário do Aventar (tínhamos sido dos primeiros que o Ricardo convidara para lá escrevermos). Teimosos, ele e eu, mal nos falámos. Durante o “nosso” período de afastamento, trocávamos mensagens através do telemóvel na passagem de ano. E nos dois últimos anos, ficamo-nos por aí. [Read more…]

Funfoz

FunFoz
O João, se soubesse, teria achado piada ao facto de ser cremado por uma empresa chamado «Funfoz» (ler em inglês p. f.). Que é como quem diz «Na Figueira, ser cremado é um divertimento».
Já acharia menos piada, certamente, ao facto de ter sido cremado num Complexo Funerário concessionado pela Câmara Municipal da Figueira da Foz a uma empresa privada, a Servilusa.
Foi em bom tempo. Sim, que a partir de agora a Catarina não deixa privatizar mais nada.
Voltemos, pois, à política. Sempre, mas sempre, com o nosso JJC no coração.

Ironias do destino, João: parece que o teu Bloco vai para o governo.

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Olha João, parece que o teu Bloco de Esquerda vai para o governo. A Catarina Martins, à saída da reunião com o António Costa teve uma tirada que tu deves ter gostado de ouvir: “O governo de Passos e Portas acabou hoje“. Não sei se será bem assim, João. Mas parece. Ironia do destino.

Já sei, já sei que estás a rir, com aquele teu ar de menino trocista e a soltar um: “E tu não dizes nada, pá? Não soltas os cães? Anda lá, escreve!”. Escrevo sim senhor, João. Está na hora de regressar a sério, como tu querias e como tu mereces que cada um de nós, cada um dos aventadores, o faça. E olha lá, desta vez nem me vou esquecer de “cortar” o texto a meio e assim evito que tenhas de me telefonar a puxar as orelhas por, como quase sempre, me ter esquecido de colocar o “Ler mais…”. E como detesto esta coisa do “Ler mais…”, João.

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Até sempre

Mais um que se foi cedo demais e tanta falta vai fazer no combate aos filhos da puta. Até sempre camarada João José Cardoso! Renato Teixeira, no Facebook

Uma vida inteira

Para mim, ele vai continuar ali sentado na esplanada do Santa Cruz, em Coimbra, com o olhar perdido na Praça 8 de Maio, provavelmente a preparar mais um post certeiro, como era seu timbre. Se me vir, abordar-me-á, como sempre, pelo nosso FC Porto e, quando nos despedirmos, já terá passado uma vida inteira. Até sempre, camarada!, Hugo Ferreira, sua página no Facebook

Postal de Wageningen #1

as coisas ficaram sem ordem, pensei eu por cima das nuvens

escrevi-te um livro inteiro dentro do avião. os olhos fechados. e tu a falares para dentro de ti mesmo, como sempre fazias para minha irritação. escrevi um livro inteiro sobre ti. acho que fomos tudo o que duas pessoas podem ser uma com a outra. menos inimigos. isso nunca. continuo a achar que és um tipo estranho como na primeira vez em que te vi no café da praça onde desemboca a rua onde moravas. gostava de poder ser capaz de escrever realmente esse livro que escrevi hoje dentro da minha cabeça, por cima das nuvens, sem ordem nenhuma. gostava de estar outra vez contigo, em silêncio, no sofá da minha sala, cada um deitado para uma ponta. em silêncio. até que dizias qualquer coisa devagar. e eu nada dizia. depois dizia eu outra coisa qualquer. e é verdade que passámos muito tempo assim. os silêncios largos. [Read more…]

Porquê, João, tão cedo?!

Confesso que já devia estar vacinado para o inexorável da partida definitiva: cedo, demasiado cedo, vi partir pais, quando ainda nem me apercebera da falta que eles haveriam de fazer-me, era miúdo; amigos, quando tanta coisa havia para viver em comum; amores, quando é injusto ver partir a luz das nossas almas; gente que fez de mim o que sou hoje, quando, só agora, me apercebo de quanto foram importantes para eu ser exactamente quem sou hoje.

Mas não estou! Continuo a conviver mal com esta cena de ver partir para o outro lado alguém que nos marcou. Sinto-me sempre um pouco despedaçado, bem lá no fundo das emoções, porque, de um dia para o outro, a cadeira ficará vazia. Inexoravelmente vazia. [Read more…]

Havemos de combinar qualquer coisa

Acho que foi em 1988. Olha que sim, pá! Foi no meu segundo ano de serviço, imagina. Lembrava-me da tua figura, uns anos antes, na Clepsidra, esse universo em que eu, puto deslumbrado, podia conviver com a boémia intelectual de Coimbra, fascinado pela boémia e pelos intelectuais e confundindo um bocado as duas ao fim de umas cervejas. Não, acho que nunca falámos um com o outro. Eu andava pelo Orfeon, porque um coro é uma das melhores maneiras de um gajo se esconder e ser aceite ao mesmo tempo.

Em Setembro de 1988, lá estávamos os dois na Escola D. Dinis, na Pedrulha. Calhou termos duas turmas em comum, acho eu. E engraçámos um com o outro. Tu sempre assertivo e eu fascinado, a pensar como é que sabias tanta merda, como é que conhecias tanta gente, como é que tinhas lido tantos poemas. E eu, com a minha frustraçãozinha cobarde própria do gajo que queria ser um dos melhores escritores do mundo sem se dar ao trabalho de escrever, ficava embasbacado. Tu ainda eras a Clepsidra dos excessos que serias sempre e eu já era o burguesinho assustado com pequenas descargas de revolta.

E os fins de tarde no Marcius? Lembras-te? O autocarro tirava-nos da Pedrulha e deixava-nos da Rua da Sofia. Não sei quanto tempo ficávamos à conversa entre finos, empadas, fatias de pizza. Não me lembro de que é que falávamos, mas ficava ali preocupado em dizer coisas, umas inteligentes e outras com piada ou ao mesmo tempo. Quando pressentia (pressentia) a tua concordância ou ouvia a tua espécie de gargalhada, sentia-me doutorado. Agora que penso nisso, percebo que me davas valor, porque não eras gajo para aturar qualquer um. Se te enganaste, enganaste-me. [Read more…]

Coisas da vida. E dos blogues…

Por Eduardo Louro. Na Quinta Emenda.

Honra ao João José Cardoso!

Por João Carlos no Bitri.

Um abraço, camarada

Por Francisco Louçã na sua página do FB

O meu mais querido professor de Coimbra

Paulo Marques

O João José Cardoso foi o meu mais querido professor de Coimbra.
Morreu sem avisar, e isso não é de mestre.
Foi ele que me ensinou a esquerda.
Foi ele que me espicaçou o jeito para reportar.
Foi ele que me fez céptico militante e admirador incondicional de algumas subversões – como a Diva, ou melhor, como o trailer da Diva, de Beineix, que aqui posto, in memoriam.

Conheci o João José quando o Grupo Ecológico da Associação Académica já não era o GAME mas ainda acentuava todo o anti-militarismo que lhe haveria de conhecer toda a vida. Eu frequentava engenharia e queria fazer jornalismo. Ele vinha da ressaca dos anos quentes e já fazia da aspereza e do tiro ao chefe uma arma de mestre – na altura, o alvo eram as sobras do seu MRPP que desesperavam por se manter à tona a fingir que controlavam.
Conheci-o, creio que no início de 1982. Foi na sala do ex-GAME, numa reunião improvisada de secções culturais da AAC. Ao jeito dele, tinha andado a bater às portas para levar a malta a participar num projecto noticioso para o Centro Experimental de Rádio. Só fui eu. Lá estavam o João, o Karpov e uma rapariga de que não retive o nome.
Depois, em dois pequenos anos, fizemos tantas e tão extraordinárias coisas que me fizeram redesenhar o mundo e quase me desamigaram de uma intensa e paralela paixão.
Foi por essa altura que o João me passou o meu primeiro charro.
Por causa dele conheci o Américo, o João Correia, o João Pedro, o Mário, o To-Zé, a Tona, a Rita…
Com ele vivi tempos de conhecimento infindo.
Emprestou-me o Céline e o Musil, a Pravda –revista de malasartes, o Alberto Pimenta e uns quantos cultores da contracultura, o Herberto e também o O’Neill, enquanto desdenhava da minha imberbe afeição por leituras presunçosas de Tzara, de Trakl, envergonhadas, de tardias, de um tal Saramago, e sobretudo engajadas de nomes que hoje omito por decência intelectual. Levou-me a ver o Wim Wenders, o Kusturica e essa alegoria azul e negra chamada Diva. Com ele passei ao largo dum arremedo de teatro que se experimentava no meio estudantil. Dele fugia a sete pés quando eu abria a boca para cantar nos ensaios e nos concertos do CELUC… [Read more…]

Até sempre João José

Por Américo Sarmento Mascarenhas no Tornado

João José Cardoso na Rádio Universidade de Coimbra

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